sombras do dia

Olhares sobre o que resta da palavra dita

Lia Gabriele Regius

Lia Gabriele Regius é tradutora e revisora de textos. Pós-graduada em assessoria linguística, está sempre atenta ao universo da comunicação. É vegetariana, praticamente nômade e adepta da arte de dar nomes literários a animais de estimação.

Vale a pena publicar por essa editora?

Muitos autores iniciantes cometem o erro de pensar que a pior batalha é finalmente colocar no papel aquela velha ideia. E isso é difícil, de fato. Mas a guerra está apenas por começar. E seu nome é publicação.


Quem nutre o sonho de seguir uma carreira literária nem sempre conhece o mercado. Isso porque a maioria dos aspirantes a escritores começam com o mesmo cargo: o de leitores. Por isso, não fazem ideia da selva que os espera. Mas ela está lá, feroz, apenas esperando o primeiro passo para dentro da mata escura.

Claro que o primeiro grande passo já foi dado: aquela ideia brilhante finalmente venceu as barreiras e despencou sobre o papel. Fim da batalha, e você, escritor, venceu, certo? Errado. Brutalmente errado. A grande guerra está apenas começando. Seu nome é publicação, e ela é a grande responsável pelos pesadelos da grande maioria dos aspirantes a escribas.

Embora o mercado editorial enfrente uma crise sem precedentes (ei, lembre-se do ebook e da pirataria, mas não só: a coisa é complexa), sempre haverá espaço para obras criativas. As editoras lutam para encontrar seu caminho e, sobretudo, reforçar suas escolhas. Mais do que nunca, não é hora de apostar no desconhecido.

Mas você é um desconhecido, certo? Ainda que isso dificulte o seu ingresso no mercado, não cometa o erro de achar que é impossível. Chegou a hora de você aprender sua grande lição: um bom escritor, como um tradutor, é metade pesquisador. Então, você terá que arregaçar as mangas e partir para o trabalho de campo.

Este artigo pretende responder a sua principal dúvida: “se as grandes editoras estão em um momento difícil, onde posso mirar?” Antes de mais nada, saiba que uma grande editora pode nem ser a melhor opção para você. Embora a maioria delas receba originais (e cada uma com seu procedimento específico, que deve ser respeitado), sua aceitação por um gigante editorial não é garantia de sucesso.

Entenda: editoras populares têm um volume maior de títulos publicados. É natural que selecionem apenas alguns deles para promover. Embora a qualidade de cada obra seja irretocável quando publicada por uma das grandes, a publicidade de algumas será consideravelmente menor. Se você é um ilustre desconhecido, há grandes chances de que não receba o tão sonhado investimento em marketing.

Não se desespere: há alternativas. E das boas. Pode ser útil considerar uma editora mais modesta, mas nem por isso menos séria. Com um volume de publicação reduzido, uma empresa pequena pode ter mais tempo e recursos para apostar no seu desconhecido nome.

Fácil, né? Nem tanto. Agora é hora de saber a diferença entre editoras tradicionais e editoras pagas. As primeiras englobam toda a fama e glória do imaginário dos aspirantes a autores. As pequenas e sérias também entram aí. Mais do que isso, porém, editoras tradicionais não cobram pela publicação. Em vez disso, se responsabilizam por capa, revisão, distribuição e os demais serviços envolvidos. Você só tem que abraçar a causa da promoção de seus títulos. Seus ganhos serão uma pequena porcentagem do preço de capa, mas o suporte será total.

Já as editoras pagas são aquilo que o nome sugere. São pagas, simples assim. Algumas cobram um valor fixo pela publicação de uma determinada tiragem. Outras exigem que o autor adquira um número X de exemplares ao preço de capa. É claro que elas oferecem publicidade no pacote. Não caia nessa.

Imagine que qualquer um que fizer a mesma coisa que você, ou pague o valor que você pagou, terá a mesma “atenção total” da editora. Faça as contas. É impossível que dezenas de obras publicadas por mês recebam atenção suficiente. Se receberem alguma atenção. Isso significa que talvez seu livro nem seja revisado, e que tudo indica que sua capa também não seja lá essas coisas. O pior de tudo, porém, é que seu livro receberá uma péssima distribuição. Ele vai ficar lá, no site da editora, ao lado de centenas de outras obras como a sua. Sem destaque, sem marketing, sem qualidade, sem nada.

Então você não chamou a atenção de uma grande editora. Então você não conseguiu encontrar uma pequena empresa séria. Então você não quer gastar milhares de reais e obter um produto final sem qualidade. É assim que termina sua grande aventura literária? De maneira alguma. Só que agora você vai ter que tomar as rédeas de seu projeto.

Editoras pagas nada mais são do que gráficas de luxo. Elas cobram pelo trabalho que você não vai ter: o de pesquisar como publicar. Ora, basta se decidir a TER esse trabalho! Mande seu livro para uma gráfica. Mais importante do que isso, gerencie cada etapa da publicação de modo a garantir um bom trabalho final. Contrate um revisor, um capista, um diagramador e qualquer outro profissional que possa ajudar a melhorar seu livro.

O custo pode assustar inicialmente, mas vale a pena. Nada afasta mais um leitor do que sentir que seu dinheiro não foi respeitado. Ninguém se sente bem ao ler um livro cheio de erros de português, pode acreditar. E se o seu sonho é escrever, está na hora de você reconhecer que é preciso investir. Investir em você e em seu trabalho.

Você pode estar pensando agora: sim, mas agora eu vou ter que vender meu livro sozinho. Não se iluda. São poucos os casos em que isso não acontece. Isso inclui gente lançada por grandes editoras, viu? E as editoras pagas, meu amigo... Pode apostar que elas não venderiam para você. Por mais que digam o contrário. Você vai acabar com caixas e caixas de livros na sala ou na garagem. Será preciso vender cada obra por si mesmo. Ei! Pelo menos, ao contratar uma gráfica, você vai pagar bem menos por isso. E a qualidade pode ser bem mais alta, acredite. writer.jpg


Lia Gabriele Regius

Lia Gabriele Regius é tradutora e revisora de textos. Pós-graduada em assessoria linguística, está sempre atenta ao universo da comunicação. É vegetariana, praticamente nômade e adepta da arte de dar nomes literários a animais de estimação..
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