somos todos aprendizes

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Lígia Bernar

Acredito que somos todos aprendizes e capazes de fazermos o que quisermos. Só não podemos ficar paradas (os). É preciso estar atenta (o), forte e agir! Quem me acompanha?

Gaslighting aparece em um conto de Risíveis Amores (Milan Kundera)

Não importa o ano, 1968 ou 2015. Nem se é ficção ou realidade. As mulheres ainda são tratadas como objetos por alguns homens nos relacionamentos. Vítimas do Gaslighting, assédio sexual e machismo. E a pergunta que permanece é: Até quando?


A liberdade sexual, a falência das convenções como o casamento, a família e a monogamia, além do cenário histórico-político pós invasão soviética do Leste Europeu. Estão entre os temas mais abordados nas estórias de Milan Kundera, principalmente na obra mais popular do escritor tcheco-francês, “A insustentável leveza do ser”.

Contudo, há um conto “O pomo de ouro do eterno desejo” da obra “Risíveis Amores” que foge à regra e inquieta a mente de uma leitora engajada na luta feminista e grande admiradora dos textos de Kundera. O conto é daqueles que põe em risco o andamento da leitura e até mesmo a admiração pelo autor.

“O pomo de ouro do eterno desejo” é sobre a aventura de dois amigos que viajam a bordo de um Fiat pelo interior da República Tcheca lá pelos idos de 1968. A maior diversão deles é “rastrear” (termo utilizado pelo personagem no conto) mulheres que eles consideram bonitas e que eles possam depois fazer sexo sem compromisso. Até aí, nada diferente do que é hoje em dia, infelizmente. Depois do rastreamento vem a abordagem, repleta de mentiras e promessas que não serão cumpridas após o ato sexual. Até aí, nada diferente do que é hoje em dia, infelizmente.

Os rapazes do conto seguem as mulheres, a estudam por dias, sem que elas saibam. Inventam nomes e histórias para conquistá-las e depois que conseguem o que desejam, fazer sexo, somem pelo mundo atrás de outras vítimas.

Como uma mulher lendo esse conto, não parava de pensar nas pessoas que negam a existência do machismo e nas mulheres daquele conto, enganadas. Como muitas ainda são hoje em dia. Aqui está a linha bem sutil e tênue que separa a ficção da realidade.

Pode ser que você esteja agora pensando, mas essas mulheres não foram forçadas a fazer nada. Não foram forçadas, mas foram ludibriadas. O homem não lida com o sentimento de culpa do outro dia. Ele, o sentimento de culpa, fica por dias na pele das mulheres. Elas se questionam o tempo inteiro: “Mas o que fiz de errado para ele sumir?”, “É minha culpa! Fui muito atirada”, etc. A mulher sofre por um homem cujo o nome nem é verdadeiro.

Essas mulheres do conto e fora do conto, não sofreram assédio sexual. Porque os caras não a abordaram na rua com palavras de baixo calão. Elas sofreram Gaslighting, uma forma de abuso psicológico em que informações são distorcidas, algumas até omitidas para favorecer o abusador, como a simples brincadeira de inventar um nome, um número de telefone, dizer que não é casado e até mesmo, prometer ligar e nunca nem chegar perto de fazer isso, um dia.

frase-gaslighting.jpg Crédito: Geledés Instituto da Mulher Negra

O Gaslighting, como deu para perceber, é bem antigo. Talvez tivesse o nome de rastreamento. As mulheres vítimas dele não existem somente no conto do Kundera. Elas estão aqui fora, na vida real. Você já deve ter sofrido por isso, a sua amiga e a sua vizinha também. Talvez você não soubesse o nome e nem que era vítima. Com certeza, você não é a grande culpada por tudo.

Não pense que você foi a única e que o seu problema é ser romântica e sensível demais. Não! O Gaslighting atinge e fere até as mulheres mais seguras de si. O amor próprio fica ferido e demora um pouco para reerguer-se. O trabalho é diário e árduo. Mas, todas aprendemos e saímos dessa.

Não importa o ano, 1968 ou 2015. Nem se é ficção ou realidade. As mulheres ainda são tratadas como objetos por alguns homens nos relacionamentos. Vítimas do Gaslighting, assédio sexual e machismo. E a pergunta que permanece é: Até quando? o-MARIA-DA-PENHA-VIOLENCIA-CONTRA-A-MULHER-facebook.jpg Foto:Brasil Post


Lígia Bernar

Acredito que somos todos aprendizes e capazes de fazermos o que quisermos. Só não podemos ficar paradas (os). É preciso estar atenta (o), forte e agir! Quem me acompanha?.
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