sons palavras e sensações

Odisséia do Afeto

Moisés Efraym

Um desbravador que fende o infinito com o cetro das palavras. Melodiador das próprias sensações em favor de uma ponte entre o "aqui e agora" e um possível depois. Quem haveria de me censurar...?

A MORTE DE EUTERPE

Quando a dissolução de dissidências e divergências sociais, econômicas e políticas é superada, surge um relâmpago de beleza afetiva capaz de dar conta da fugaz existência do que, conscientemente ou não, buscamos, de forma incessante, ao longo de toda nossa vida: O Paraíso do Prazer. Uma inusitada passagem de nossa história musical tem algo a nos ensinar a esse respeito.


20130428201159339060o.jpg Noel Rosa e Wilson Batista

Em 15 de março do ano corrente aconteceu um Work Shop, no Centro Cultural da Caixa Econômica no Rio de Janeiro com o cantor e compositor Edu Krieger e que tinha por tema, Princípios de Composição. A certa altura ele manifesta sua surpresa com as reações passionais praticadas, em seu canal do You Tube, contra a música de sua autoria, "Resposta ao Funk Ostentação".

Não nos cabe avaliar o mérito das críticas. Entretanto, o então "discurso de defesa" de Krieger o leva a citação de um famoso e salutar embate musical havido na década de 30 do Século XX entre Noel Rosa e o não tão conhecido Wilson Batista. A sugestão implícita na citação a essa passagem histórica evidencia uma preocupação artística de caráter relevante para nossa conturbada realidade contemporânea.

Oriundo do norte fluminense, Wilson Batista veio morar no Rio de Janeiro ainda muito jovem. Negro e pobre, integrou a população dos morros cariocas chegando a se associar a "célebres" malandros da época. Tendo composto seu primeiro samba aos 16 anos, contava, no final da década de 20, com considerável respeito no meio musical desse período. Assim surge nas rádios cariocas um de seus sucessos que daria início ao saudável embate: Lenço no Pescoço.

Dividido entre a Faculdade de Medicina e a boemia musical, o jovem classe média, Noel Rosa, despontou no início da década de 30 com o sucesso até hoje regravado, "Com que Roupa". Não só o talento musical e a boemia colocava esses dois jovens sambistas em um universo comum. Quis o Destino que seus corações batessem, também, pelas mesmas mulheres. Nesse cenário em que Noel levava desvantagem devido à deformidade de sua face em função de problemas no parto, nasce a contenda musical.

Considerando que a citada música de Wilson Batista trazia para o samba uma imagem negativa associada à malandragem e ressentido com a perda de duas mulheres para seu "adversário", Noel lança, em 1933, sua resposta ao samba de Wilson: "Rapaz Folgado". A disputa encerra, depois da criação de vários sucessos, incluindo Feitiço da Vila (de Noel), em 1935. Na única parceria entre esses dois gênios, Noel cria a letra de "Deixa de Ser Convencida" sobre a melodia de Wilson na música Terra de Cego (a última crítica musical de Wilson a Noel).

A questão não evidente nesse cenário e para a qual Edu Krieger aponta em seu passageiro comentário em seu Work Shop, nos remete diretamente à Grécia Antiga, em cuja Mitologia vamos encontrar a figura oculta de uma antiga proposta acerca das Artes. Para o grego antigo a concepção de Arte era bem mais ampla, incluindo História, Astronomia e Astrologia. No entanto, entre as 9 musas, filhas de Mnemosine e Zeus, se encontra a encantadora Euterpe: Protetora e inspiradora da Música e da Poesia Lírica. Uma investigação etimológica superficial revela, nos elementos de composição do nome de nossa Musa, uma relevante proposição acerca da qual é possível não construir, mas resgatar, um ideal que parece esquecido por aqueles que atuam em segmentos considerados artísticos.

No grego antigo, a palavra "eu" remete às ideias de "bom ou bem"; o sufixo "Terpe", é comumente traduzido, em nossa língua, pela noção de "prazer ou dar prazer". De forma que uma síntese semântica do nome de nossa Musa, e que é amplamente utilizado, seria: A Doadora de Prazeres. Há que se perceber que a Arte, aqui representada pela figura de nossa Musa, inspira, desde a fundação do culto às Artes na Grécia Antiga, duas ideias aparentemente ausentes da maior parte da produção dita artística, em nosso tempo: Doação e Prazer.

Como uma Musa que se preze, Euterpe se mantém presente ao logo da história da Arte Musical sob a forma de "figura oculta" a ser sentida e revelada àquele que tem "olhos pra ver e ouvidos pra ouvir". E ela haveria, indubitavelmente, de se revelar sob um fino véu, num embate que envolveria dois dos grandes nomes da música popular brasileira, com o propósito de nos chamar a atenção para o esquecimento humano da busca do "Paraíso do Prazer". É o "DNA" de sua mãe, Mnemosine (memória), resgatando e fazendo brilhar o legado de sua criação.

No encerramento da batalha musical travada entre os dois mestres, Noel propõe a substituição da letra de "Terra de Cego" pela letra de "Deixa de Ser Convencida", aproveitando a melodia criada pelo seu, até então, "adversário". Nessa única parceria musical entre nossos ilustres personagens, eles se unem contra uma das mulheres que promoveu disputas entre eles e que, inconscientemente usada por Euterpe, permitiu que o legado de Mnemosine se fizesse presente, mais uma vez, fazendo valer a missão de sua filha.

O "Rapaz Folgado" (Wilson Batista na concepção de Noel) e o "Frankenstein da Vila" (título de uma das músicas em que Wilson pega pesado contra nosso ilustre compositor dentro da disputa em questão), apesar do que possa parecer uma briga acirrada que se estendeu ao longo de tantos sambas de sucesso, tinham a maioridade e maturidade, ainda que muito jovens (Noel morreu de tuberculose aos 26 anos), de dirimir suas diferenças sociais, econômicas e culturais, e promoverem salutares e insólitas batalhas de cuja guerra todos saíram vencedores.

Da iniciativa de Noel até o fim da "guerra", o que, também inconscientemente, esses gênios proporcionaram, e proporcionam até hoje ao público apreciador da obra de ambos, é uma inestimável lição, não imediatamente percebida, de como se valer das bênçãos de Euterpe, por amor à música, e produzir prazer ao alheio pela doação de seu dom em favor da Arte.

Essa peculiaridade na conduta desses dois gênios exprime a simplicidade do gesto daquele que deposita seu afã na superação das diferenças socioculturais e econômicas, privilegiando a magia oculta naquilo que move o verdadeiro Artista. Hoje, nas alturas do Olimpo (morada dos deuses gregos), é possível pressentir as divinas lágrimas escorrendo pela face de nossa Musa ao contemplar a pura mercantilização da música como um mero produto e seu uso para defesa do ódio e da banalização da vida. Euterpe está morrendo!

Avanços tecnológicos e oportunidades tornadas possíveis com o advento da Internet, criam uma relação de proporcionalidade inversa em que, quanto mais aumenta quantitativamente a produção musical, menor é a importância que se dá à expressão que possa caracterizar a visceralidade da manifestação legitimamente artística. A música se torna, então, um mero instrumento de veiculação ideológica ou de expressividade do banal, deixando de ser observada por esses "atores" da cena musical como instrumento de elevação em nível espiritual.

Nas palavras do Maestro Júlio Medaglia, de fama e reconhecimento internacional, chega a ser inconcebível que o país de maior riqueza e diversidade cultural no mundo, que é o caso do Brasil, sucumba em qualidade num momento em que os referidos avanços deveriam estar proporcionando o suprassumo do que somos capazes de produzir em termos musicais. A lírica de Cartola e Nelson Cavaquinho se tornaram veleidade de saudosistas e "românticos" num universo em que a apologia da miséria e da pobreza reveste um dos mais populares gêneros musicais (importados) da atualidade em nível mundial!

Esse apelo à ressurreição de Euterpe é o que transparece naquela intervenção de Edu Krieger a respeito das reações à sua música citando, brevemente, a história parcialmente narrada neste artigo. As nuances do cenário de nossa vida contemporânea prenunciam a necessidade de resgate de valores tão importantes que o povo grego, fundadores de boa parte da milenar cultura ocidental, erigiram em divindades. A arte não é mais a catarse a que se referia Aristóteles em sua Poética; a música perdeu a dimensão do Lírico responsável por embalar almas.

Na trama de Wilson e Noel há um espelho cuja superfície refletora carece de ser direcionada para a face daqueles que se supõem militantes do universo musical brasileiro. Se os auspícios da filha de Zeus e Mnemosine fossem tomados como critério seletivo para avaliar nossa cena atual, muitos se veriam forçados a encontrar outro ofício; outros tantos, por difícil que lhes soasse a tarefa, haveriam de, enxugando as lágrimas de Euterpe, se renderem ao coração exposto que deveria ser colocado sobre cada canção (dura lição aprendida por Caetano Veloso e eternizada no verso "é que Narciso acha feio o que não é espelho" da música Sampa).

Que o lamento de Edu Krieger e o exemplo de nossos heróis musicais se bastem como motor de uma nova era na história musical brasileira onde, como a Fênix renascida das cinzas, a doação de prazer possa ser resgatada em meio à quase completa perda de afeto artístico que vige nas manifestações mercantilizadas e bestializadas dentro e fora do nosso mainstream.

Que nossos atos possam produzir, mais uma vez, o vigor da elevação de espírito que, ao continuar a busca pelo Paraíso do Prazer, reescreva nossa história musical pelo bem e pela glória de nossa Musa; pela verdadeira valorização e volta às "raízes" tão reclamadas num discurso politicamente piegas de apego à miséria; pela elevação de nosso espírito à dignidade exigida pela Arte; pelo único lugar, enfim, onde se torna possível que sejamos todos um só.


Moisés Efraym

Um desbravador que fende o infinito com o cetro das palavras. Melodiador das próprias sensações em favor de uma ponte entre o "aqui e agora" e um possível depois. Quem haveria de me censurar...? .
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