sopa de pato

Dando atenção aos detalhes dos painéis e frames

Roberto Honorato

Hello, I must be going

Construindo tensão com Martin Scorsese

Uma das características mais importantes para qualquer filme é sua apresentação, a forma que é entregue para o público o mundo e os personagens que estamos prestes a dedicar mais de duas horas acompanhando. A ambientação de uma produção cinematográfica é importantíssima, independente de seu ritmo, seja lento, seja mais rápido e dinâmico – o que realmente interessa é que o que for entregue não saia sem emoção, sem alma. A ambientação de um filme é extremamente necessária para se criar tensão.


Tensão é bastante utilizada em filmes de ação e, é claro, terror. Muitos diretores criam uma com uma grande preparação, utilizando o cenário e a trilha para acentuar o que está por vir, mas alguns decidem usar os diálogos, as cenas onde temos apenas personagens conversando, para deixar o público apreensivo. David Fincher faz isso muito bem, principalmente em filmes como a Rede Social (2010), mas existe um diretor bastante conhecido que faz isso de uma forma diferente: Martin Scorsese.

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Antes de ler o que está por vir, fique atento(a), pois haverão spoilers.

Posso citar exemplos de diretores “relativamente novos” e muito bons em atividade, como Denis Villeneuve, responsável por obras como Os Suspeitos (2013) e Sicario: Terra de Ninguém (2015). Muitos elogiam a enorme sequencia envolvendo um engarrafamento como um dos melhores exemplos de tensão utilizado em filme, principalmente por sua longa duração. É uma cena que parece simples, mas constrói todo seu ambiente com calma, tendo sua resolução ainda mais satisfatória, mesmo que seja por alguns segundos. O canal do Youtube, Cinefix, fez um vídeo inteiro explicando a cena, então indico fortemente que assista depois de ler essa matéria.

Mas e quando a tensão vem de forma inusitada?

Scorsese consegue utilizar o silêncio da cena para criar um clima de desconforto. Em filmes como Cabo do Medo (1991), cria uma tensão incômoda para quem assiste entre os personagens de Robert DeNiro e Juliette Lewis, mas por mais incômoda que possa ser, mantêm a nossa atenção. O silêncio nos faz esperar. Isso é utilizado em filmes de terror para deixar o público apreensivo, na maioria das vezes entregando um jumpscare (quando algo pula de algum canto para direção de quem assiste) ou outro tipo de susto que, infelizmente, na maioria das vezes sai mais barato e sem inspiração. Mas quando esta técnica é deixada nas mãos de um bom diretor como Scorsese, temos uma cena memorável. Aqui, darei atenção para uma das melhores cenas que ele já dirigiu, do filme Os Bons Companheiros (1990).

A cena é simples em sua composição, mas eficaz. Não vou detalhar demais a parte técnica e visual, mas preste atenção nos personagens em primeiro plano e nos figurantes. A reação deles principalmente.

Assista:

Goodfellas - Funny How? from BetaLucho on Vimeo.

O filme conta a história de Henry Hill (interpretado por Ray Liotta), um gangster que possui problemas bem maiores do que apenas lidar com os perigos da profissão. Um deles é o seu parceiro, Tommy DeVito, interpretado por Joe Pesci. Tommy é pequeno, de voz irritante e, à primeira vista, não parece nem um pouco ameaçador, mas possui um comportamento imprevisível que cria sua reputação perigosa. Ele é boca suja e não liga para como se comporta.

Durante uma noite com os rapazes, bebendo e se divertindo, um mal entendido parece ter ocorrido. Quando Henry, ao passar a noite ouvindo as histórias de Tommy, diz que o companheiro é “engraçado”, acaba recebendo uma reação completamente inesperada. Tommy rebate dizendo “Como assim engraçado? Engraçado como? Como um palhaço?”. Todo o salão fica em silêncio. O que antes era um lugar movimentado e barulhento, principalmente por conta das risadas dos companheiros de mesa de Henry, se transforma em um momento de incerteza. O que fazer em seguida? Tommy continua perguntando e aos poucos o filme vai retirando pequenas porções de som. Não há mais risadas, só os talheres e os passos dos garçons.

O diretor deixa todos apreensivos tempo o suficiente para entregar o resultado da cena. Henry manda um “Para com essa brincadeira, Tommy”, fazendo com que todos voltem a rir. Henry vê que era tudo uma piada e continua brincando, mas agora a tensão continua para o resto do longa, mesmo que todos continuem seguros, pois a qualquer momento Tommy pode realmente reagir de forma negativa com alguém que ele não conhece tão bem como conhece Henry. E assim a cena volta para onde começou. Isso poderia sair aleatório e completamente desnecessário se não fosse bem feito, mas já é um indício de como o personagem de Joe Pesci se comportará durante o resto do filme. Sem cenas como essa, as atuações e os diálogos naturais, este poderia ser um filme qualquer, mas é graças ao olhar de pessoas como Scorsese que o público fica envolvido com este personagem até o fim.

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Scorsese já criou momentos de desespero mais longos, como em O Lobo de Wall Street (2013), na cena onde o protagonista está drogado e deve correr contra o tempo para chegar em cada o mais rápido possível, mas está debilitado fisicamente. É uma boa cena, é bem executada e bem atuada, mas não possui o nível de tensão que Os Bons Companheiros atingiu e por isso rendeu uma das cenas mais memoráveis do cinema.


Roberto Honorato

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