Daniele Olimpio

"Cultura não é ler muito, nem saber muito; é conhecer muito" (Fernando Pessoa)

Crime: Criança Favelada

Quantas pessoas vão precisar ser mortas, para que você as veja? Quantas crianças mexendo no celular em um beco vão precisar ser mortas pela polícia, para que você se comova? Quem, além do filho do governador, vai precisar ser morto, para que você sinta tristeza ou pesar?


e21fadeed1c16156b09c12c27093f72b.jpg

Um menino de 10 anos. Um menino de 10 anos que não tinha culpa da desigualdade na distribuição de renda de nosso país; que não sabia, nem nunca saberá, o porquê que morar em favela te torna “favelado, bandido, vagabundo, traficante” aos olhos de uma sociedade preconceituosa e desumana. Uma criança que, assim como qualquer outra, sonhava em ser bombeiro, engenheiro, médico. Que tinha colegas, melhores amigos, família, pais. Pais que não têm culpa da falta de empregos disponíveis no mercado, que buscam uma vida melhor. Pais que não têm mais o filho caçula. Um menino de 10 anos, que não vai se tornar bombeiro, médico, tampouco engenheiro. Mais uma criança vítima da violência gratuita, desenfreada, desmedida; uma violência que ataca, mata, destrói famílias e sociedades inteiras, deixando um rombo no coração de cada um de nós; deixando uma mancha sangrenta e pútrida em nossa pátria.

Era dia 2 de Abril de 2015. Podia ser dia primeiro, pelo menos seria o dia da mentira, e eu não acreditaria quando lesse que um policial da UPP tirou a vida de uma criança de 10 anos. Era dia 2 de abril e Eduardo de Jesus Ferreira não deveria ter se levantado do sofá de onde assistia televisão com a mãe. Era dia 2 de abril, e tudo virou revolta, indignação e tristeza no Complexo do Alemão.

17321653.jpg

Eu poderia questionar até quando vamos ter que acordar e lidar com uma notícia dessas; no entanto, para uma sociedade que defende a redução da maioridade penal e pede a volta da intervenção militar no país, o assassinato de uma criança moradora do Complexo do Alemão, que mexia no celular, não deve significar nada. Deve soar como “Ahh, se ele morava lá, era traficante, merecia morrer”. Afinal: “bandido bom é bandido morto”. Podem até querer a redução da maioridade penal, mas nas comunidades brasileiras, a maioridade penal já é reduzida e a pena de morte já existe. Quantas pessoas mais terão que ser vítimas de uma polícia que, em vez de pacificar e ajudar sua sociedade prefere descriminar, agredir, torturar, ameaçar e matar? Eduardo não foi a única vítima: Nos últimos 90 dias, a situação de guerra do morro já custou a vida de 11 pessoas.

Enquanto vocês se preocupam com um beijo gay na novela, com o resultado do jogo do Corinthians, famílias perdem seus filhos numa guerra trágica e dolorosa. E NÃO, o problema não são os traficantes, não são os moradores de um lugar que vive cerceado por desigualdades, preconceitos e injustiça. O problema é o fingir-se de cego em meio a um mar caótico de destruição; o problema é querer tapar buracos com medidas insustentáveis e torpes. O problema é a aceitação, por uma maioria alienada e ignorante, de fatos erroneamente divulgados. O problema é se conformar com uma realidade que, infelizmente, se tornou rotina nas periferias e comunidades.

Enquanto você toma sua cerveja e leva seu filho para passear lá em Ipanema, uma criança é assassinada por um policial, que não contente, ainda apontou a arma para a mãe do menino. Essa é a polícia que a sociedade quer que tome o poder? Quantos lavajatos, mensalões, petrolões, valem a vida de uma criança assassinada pela polícia numa favela do Rio de Janeiro? Não é esse tipo de coisa que deveria fazer milhões de pessoas irem às ruas? Talvez só notem a existência de uma violenta ação policial e o segregamento das classes mais pobres, quando isso chegar ao asfalto. Quando for o playboyzinho filho do engenheiro famoso e condecorado, assassinado a sangue frio inescrupulosamente.

Sobre a monstruosa morte de Eduardo de Jesus Ferreira, nosso Jesus, resta pesar, dor, tristeza. Uma morte justificada:

Crime: criança favelada

Pena que esse Jesus, não poderá ser ressuscitado.


Daniele Olimpio

"Cultura não é ler muito, nem saber muito; é conhecer muito" (Fernando Pessoa).
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @destaque, @obvious //Daniele Olimpio