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um olhar mais demorado

O tom pastel de Sofia

Há quem diga que ela é uma garota tom pastel, daquelas insípidas, meio sem cor, meio sem gosto. Eu penso, absolutamente, que não. Excessos de cor ou sabor não fazem um bom prato. Sofia é simples, e é aí que está todo o gosto. Não quer ser a mais bonita, nem a mais bem paga, nem a mais popular, muito menos a mais sexy. Ela ri de toda essa afetação e só quer se expressar por meio de um bom trabalho. E, de preferência, em tons pastéis.


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Eu gostei de Sofia Coppola a primeira vez que assisti "The Godfather: part III", 1990, não muito pelo seu desempenho como atriz – o que não foi nada extraordinário – mas sim pelo fato de ela ser filha do chefe, não de Michael Corleone, mas de Francis Ford Coppola. Simpatizei com a menina de imediato.
E era a menina de ouro dos cinemas, que cresceu e se tornou uma excelente realizadora. Há controvérsias, claro, apoiadas pelo fato de Sofia ser filha de quem é. Como se o simples fato de ter nascido uma Coppola não a fizesse merecedora do título de competente cineasta, mas sim de uma garota sortuda que nasceu com o universo do cinema debaixo dos pés e, por isso, ocupa hoje uma posição privilegiada nesta indústria. Sim, é verdade. Mas isto não anula o fato de que ela é competente por si só. Sim, ela teve todos os recursos a fácil alcance. Sorte dela, inveja nossa. O fato é que pai cineasta – ainda mesmo sendo Francis Ford Coppola – não gera competência, gera apenas recursos, e ponto.

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E Sofia Coppola não almejou, e acredito que jamais irá almejar, ser como seu pai. Ela ainda tem um longo caminho pela frente, por trás das câmeras , mas possui sua própria visão de mundo e seu próprio estilo. Aprendeu o que tinha que aprender e acrescentou todas as suas distintas características. Seus movimentos de câmera e seus cortes de sequência são a própria mensagem, a qual chega de antemão ao diálogo – apesar do existencialismo latente, mas sem o peso filosófico que vemos no cinema de Woody Allen, por exemplo.
Sofia vai sempre um pouco à contra-regra, de maneira discreta, mas vai. Vai prática, direta e simples, daquelas que passam despercebidas no meio da multidão e de repente alguém descobre sua originalidade escondida, quase apagada, num universo de extravagância. Sofia encontra um caminho mais confortável para destacar as questões mais complexas da vida. E para dizer tudo o que quer dizer. E ela diz muita coisa em seus trabalhos, a começar pela solidão e pelos extremos que dissipam identidades.

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O cinema de Sofia Coppola ostenta duas características muito visíveis: primeiro é a estética, extremamente valorizada pela cineasta que, além de ser amante da moda, é adorada pelos fashionistas e consegue ditar tendências a partir de suas cenas. Por isso virou diva do elegante estilista Marc Jacobs, que percebeu seu bom gosto. Em seu segundo filme “Lost in Translation”, 2003 – no qual levou o Oscar na categoria “Melhor Roteiro Original” – ela abusou das tendências cult japonesas à época – o que mais tarde convulsionou alguns tapetes vermelhos.
Depois de lançar, em 2006, “Marie Antoinette”, influenciou as principais passarelas do mundo, trazendo à tona o estilo da italiana Milena Canonero, responsável pelo figurino do filme. Tais combinações e sobreposições viraram febre no universo fashion.
Em seu último filme, “Somewhere “, 2010, Sofia inspira-se num visual mais indie clean.

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A segunda característica de seu cinema é a música, que sempre ocupa lugar de destaque, como uma espécie de co-protagonista. Sofia Coppola ostenta um gosto musical considerado cool e, por isso, é adorada no meio underground. Poucas vezes cedeu lugar ao pop, preferindo sons mais alternativos que permitem junto a uma montagem ideológica transmitir as mensagens com pluralismo.
The Radio Dept., Bow Wow Wow, William Storkson, New Order, My Bloody Valentine, Les Arts Florissants, Air, Phoenix, Kevin Shields, The Jesus & Mary Chain e The Strokes são alguns dos sons que compõem o soundtracks de seu cinema.

Sua obra cresce, seu talento amadurece e ela permanece em tom pastel, sim. Afinal, quem dita a moda...não é ela?

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rejane borges

Gosta das cores de folhas secas ao chão. E das cores das folhas velhas dos livros..
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