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um olhar mais demorado

Como um filme ajudou o crescimento do poker? Com as cartas na mesa

A realidade agora é essa: o poker atualmente é algo extremamente conhecido por todos e a maioria de nós já jogou ou conhece alguém próximo que já tenha jogado uma partida online ou em pessoa. Mas há 20 anos não era bem assim.


Você liga o computador num sábado e não tem absolutamente nada para fazer. Decide fazer valer a pena aqueles quase-vinte-reais por mês que paga ao Netflix mesmo já tendo assistido House of Cards em praticamente uma semana. E se depara com um filme meio cult dos anos 1990 chamado "Cartas na Mesa", quando Edward Norton era um dos atores mais promissores de Hollywood e Matt Damon não tinha feito uma tonelada de sequências de Bourne. Decide assistir. É um filme sobre poker - aquele esporte que você provavelmente já jogou com os amigos ou em outra noite de tédio via algum software de PC.

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A realidade agora é essa: o poker atualmente é algo extremamente conhecido por todos e a maioria de nós já jogou ou conhece alguém próximo que já tenha jogado uma partida online ou em pessoa. Mas há 20 anos não era bem assim. O que mudou? Bom, foi uma conjuntura de fatores. A criação da ESPN 2 nos Estados Unidos, por exemplo, permitiu novos espaços na grade para a transmissão de campeonatos - isso hoje em dia pode estar acontecendo com os e-sports, já que a emissora hoje fora-se neles também. Ao mesmo tempo, a popularização da internet fez possível jogar a qualquer momento com qualquer pessoa no mundo - antes as pessoas tinham de se reunir numa sala para jogar, como obviamente você deve ter pensado. Mas há um outro fator que passa despercebido por muitos e que ajudou - muito - a popularizar o esporte. É justamente o filme que falamos no primeiro parágrafo, aquele meio que esquecido no seu Netflix.

Caso você nunca tenha assistido, aqui vai um resumo breve:

Mike McDermott, interpretado por Matt Damon, é um dos melhores jogadores de poker que já se viu. Isso é o que ele acha até perder tudo numa partida e prometer à namorada que terá um trabalho "das oito às seis" para custear a Faculdade de Direito. Tudo ia bem (para a namorada, ao menos, já que Mike estava bastante frustrado) até que Lester "Worm" Murphy - interpretado por Edward Norton - aparece novamente na vida de Mike depois de sair da cadeia. Aí acontece o óbvio: Worm consegue persuadir Mike a voltar para as mesas. Clímax vai, clímax vem, Worm deixa Mike na mão e foge da cidade - deixando a responsabilidade de seus débitos para seu amigo Mike. Este, por sua vez, não foge novamente das mesas: vai até o fim e vence o confronto final contra um líder da máfia russa. É aí que ele percebe sua real vocação, algo de que ele nunca conseguirá fugir: ele é um jogador de poker. Mike deixa a Faculdade de Direito para perseguir o sonho de ser um jogador profissional. Este é o grande legado do filme, um paradigma que se estabeleceu para milhares de pessoas ao redor do mundo.

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Cartas na Mesa não é aquele filme inspirador que fará milhares de pessoas chorarem e saírem pegando enxadas para carpir terrenos e cuidar de suas vidas. Ele é focado para uma pessoa em especial: aquela que tem o sonho de ser um jogador de poker e nunca teve a coragem de perseguir esse sonho. O filme é um combustível potente e desatador de nós e amarras para essas pessoas. E acredite: desde que o filme foi lançado, eram muitas. "Eu já assisti Cartas na Mesa umas 30 vezes, e ele tem uma responsabilidade enorme em ter criado um sentimento de determinação em conhecer todas as facetas do No-Limit Hold´em", disse em uma entrevista para o site PokerListings o jogador profissional Hevad Khan. De simples espectador hoje ele chegou a fazer parte do Team PokerStars Pro, um conjunto de jogadores profissionais patrocinados pelo site, um dos mais movimentados do poker online. Hoje está aposentado - mas chegou a uma mesa final da "copa do mundo" da modalidade, a World Series of Poker.

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Cartas na Mesa não é só importante para o desenvolvimento do poker num aspecto individual e microcósmico. O filme talvez tenha sido a primeira obra mainstream a abordar o poker de uma maneira não cartunesca como os filmes de velho-oeste normalmente fariam. Mais: é a partir dele que se começou a desenvolver uma consciência coletiva de que o poker é um jogo de habilidade - tal quanto o xadrez - e não um jogo de azar como o bingo. Ao ver o filme é nítido perceber que Mike vence porque é bom - não simplesmente porque tem sorte com as cartas. Lógico: a sorte conta, mas tanto quanto a sorte de um batedor de pênaltis no futebol. No âmbito profissional é possível dizer que em campeonatos e em disputas de longo prazo a habilidade é o fator preponderante para uma vitória. Não a sorte na última carta após o jogador ter um péssimo manejo de banca.

Lançado em 1998, Cartas na Mesa pode ser considerado um clássico cult e não um filme que simplesmente está lá perdido no Netflix. Ele ajudou de forma preponderante o crescimento do poker ao mesmo tempo em que ajudou a tirar o preconceito de paralelizá-lo com jogos de azar. Por mais que não tenha sido um hit de bilheterias quando foi lançado, o apego que os jogadores desta geração têm para com o filme faz dele uma obra relevante em vários aspectos. "Matt e eu conversamos depois... Nós devíamos ter negociado algo como 5% de todo pot de poker que foi jogado depois do filme. Acho que conseguiríamos fazer uma sequência só com nosso dinheiro!", disse Edward Norton no ano passado em entrevista ao site CardPlayer. Enquanto isso, os jogadores esperam. Mas esperam jogando e amando um esporte único


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