sphere

um olhar mais demorado

Ao meu querido pai

Texto por Ana Paula Calado, que adora conversa boa em fim de tarde, que ouve a mesma música 500 vezes e que detesta falar ao telefone. E minha grande amiga.


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Photo by Melanie Pace.

Há pouco mais de um ano, conheci uma menina que tem estado por perto desde então. Rostinho de criança, corpinho de criança e uma voz doce de criança. Mas, desde a primeira vez senti que ela emanava uma sabedoria de quem já havia vivido tempo demais. Ela apareceu, mais ou menos, na mesma época em que meu pai começou a dar sinais de que a saúde não andava muito bem. Na realidade, há algum tempo a saúde já não era a mesma, e eu sinto que essa menina já rondava os lugares por onde eu andava, mas não havia se apresentado.

Quando meu pai foi parar na U.T.I - no ano passado - ela foi até minha casa e não desgrudou nem um segundo de mim. Eu perguntei "qual o seu nome?", ela me respondeu com tranqüilidade e mistério: "tenho tantos nomes que não caberia lhe contar agora, mas pode ter certeza que com o tempo vamos nos conhecer melhor". Ela segurou minha mão enquanto eu chorava de desespero.
Meu pai saiu da U.T.I. e ela foi embora. A vida voltou ao normal mas, de tempos em tempos, a menina vinha me visitar. Ia até meu trabalho, ia até minha casa, dormia, às vezes, do meu lado, ficava em silêncio ao meu lado enquanto eu olhava o céu, às vezes. Ela parecia compartilhar tudo que passava pela minha cabeça.
Quando ela resolveu andar por aí, as nuvens pesadas foram embora. Eu caminhei sem ela, subi montanhas, nadei em águas purificadoras, sorri pra outras crianças de uma forma que não conseguia sorrir pra ela. Não havia muito sorriso quando ela me visitava. Coincidentemente ela quase sempre aparecia quando eu chegava em casa e via meu pai andando pela sala pra tentar diminuir o mal estar que estava sentindo. Ela ficava ali comigo muda e de mãos dadas. Voltou a dormir do meu lado algumas vezes. Depois ia embora.

Esse ano ela voltou e disse que era pra ficar um bom tempo. E eu perguntava coisas sobre ela sem nenhuma resposta. Ela veio quando minha mãe me ligou pra avisar que meu pai estava novamente na U.T.I. A menina sabia tanto quanto eu que nem havia necessidade de contar o porquê estava me ligando, meu coração já havia sentido muito antes dela falar. Fomos nós duas visitar o meu pai e a minha família que já estava lá. Abraçamos a minha mãe, os meus irmãos, as minhas tias, os amigos da minha mãe e do meu pai. Quando eu ia abraçar os meus sobrinhos, ela saía de cena. As gargalhadas deles invadiam todo o espaço, dentro e fora do meu coração, e ela se afastava pra nos dar esse momento.
Todos os dias em que estive no hospital ela esteve comigo. Saía de perto raramente, como se tivesse ido tomar um café. E nesses momentos eu conseguia olhar pro meu pai com o coração em paz.

No dia 05 de setembro de 2015, ela me acordou, pediu para que eu me arrumasse porque iríamos ao hospital dar Adeus ao meu pai. Nós nos arrumamos e fomos para a mesma sala de espera de sempre. Aquela em que ficávamos esperando para entrar todos os dias às 16 horas da tarde rezando pra que Deus estivesse junto. Às vezes rezando pra que Deus ajudasse meu pai a abrir os olhos, às vezes rezando pra que Deus o ajudasse a fechá-los de vez e para sempre. A menina repartiu comigo os momentos de esperança e os momentos de clemência. Os momentos em que eu acreditava que ainda poderia ter meu pai por perto com saúde e os momentos em que eu suplicava para que Deus não permitisse que ele sofresse mais. E assim foi.

A menina entrou no quarto 205 comigo e minha família. Não havia mais barulhos de aparelhos, não havia mais barulho de nada, apenas um coro silencioso de lágrimas. Eu olhei para o meu pai, beijei o rosto dele, e ele já não estava mais lá. Ou estava. Mas não ali naquele rosto, naquele corpo. Respirei fundo e olhei fixamente pra menina e mais uma vez perguntei: "qual o seu nome?" - e ela disse com os olhos marejados - "o meu nome é TRISTEZA e eu vim pra ficar com você." Havia ternura nos olhos dela como se entendesse e conseguisse calcular em quantos pedaços se partiu meu coração naquele instante.

Ela não me deixou mais após aquele dia. Me ajudou a segurar nas mãos dos meus irmãos durante o velório, me ajudou a sentir a união da família naquele momento tão difícil, me ajudou a lavar minha alma olhando para o meu pai pela última vez.
Hoje faz um mês e poucos dias que estamos juntas quase sempre. E nesse tempo ela passou a me revelar mais coisas sobre ela mesma. Eu descobri que era ela que também estava ali enquanto eu segurava a mão do meu pai sentindo uma sensação estranha, num estado de serenidade. Como havia me dito, ela tinha vários nomes, e ali, e em outros momentos, o nome dela era PAZ. De vez em quando ela caminha ao meu lado com esse nome e eu penso que não somos só nós duas. Somos eu, ela e Deus.

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Photo by Melanie Pace.

Poucas semanas depois do acontecido, quando eu me revoltei contra o mundo e sentia vontade de quebrar qualquer coisa e botar pra fora aquele maldito vazio sem respostas, ela me contou que também podia se chamar RAIVA. E que poderia permanecer comigo enquanto eu tentasse achar respostas e me rebelasse contra as vontades de Deus. Nós combinamos que iríamos dormir todos os dias escutando alguma boa palavra em algum vídeo indicado por bons amigos e que faríamos orações sem cessar para acalmar o coração.

Pedimos ajuda. De todas as formas e a muitas pessoas. Alguns bons momentos foram voltando. Alguns dias mais amenos foram surgindo. Deus enviou algumas pessoas à nossa casa e nos trouxe um pouco de conforto emocional e espiritual.
Quando a menina chegou em casa um dia dizendo que seu nome agora era DOR eu me isolei de tudo e achei que dali não sairia mais. Mas saí. Por mim, por ela, pela minha família e pelo meu pai. E continuo me levantando e caindo diversas vezes. E sabendo que bem próximas a mim existem mais pessoas com dificuldade de se levantar ou de permanecer de pé.
Eu pedi à Tristeza para que voltasse a ser só a Tristeza porque eu não queria sentir mais raiva. Aí ela me disse no começo dessa semana que a SAUDADE, forte e com letras garrafais, tinha chegado e que as lágrimas poderiam voltar a cair com força. E caíram. Desabaram. E meu corpo sentiu fraqueza quando num esquecimento súbito eu peguei o meu celular para mandar mensagem para o meu pai contando algo corriqueiro que sabia que interessaria a ele. E que teríamos uma conversa agradável qualquer sobre aquilo como sempre tivemos. Como sempre dividimos alguns assuntos. Como sempre pudemos ser pai e filha próximos. Anteontem eu esqueci que havia perdido meu pai. Eu esqueci que ele não leria a mensagem nem veria a foto que eu queria mandar. Eu esqueci que eu não irei mais atender o telefone e escutar do outro lado meu pai dizendo: "oi, filha".

Se a menina Tristeza tivesse me contado que havia muito mais a sofrer...que somos pequenos demais para saber lidar com o desapego com sabedoria...mas não sabemos. Não sabemos direito ainda nem o que é o luto. Estamos dentro dele e nos parece algo indefinível, tão confuso, mas tão confuso, que fica impossível entender ou explicar.
Todos os sentimentos embaralhados, todas as questões em aberto. A vida muda de figura quando tromba a morte.
É muito confuso amar tanto uma pessoa que desapareceu da nossa vista. Meu pai está mais presente do que nunca, aqui dentro, em todas as partes do meu ser. Faz um mês e poucos dias que não o vejo mais. A tristeza me contou que a saudade, a raiva, a dor e a paz estariam todas juntas e que no meio delas haveria uma certa confusão. Que eu estaria sujeita ainda a chegar em casa achando que meu pai estaria lá...até lembrar de novo que não está. E que isso poderia me fazer chorar como criança assim como choro hoje. Também me contou que a dor dos outros poderia me fazer mais forte pra poder ajudá-los, e que talvez, com o tempo, eu ficasse mais atenta às coisas belas da vida.

Nós vamos andar juntas por mais um tempo, eu e a Tristeza, e ela talvez me mostre ainda mais facetas. Nós vamos cooperar uma com a outra, vamos chorar quando for necessário aliviar a dor, vamos rezar para que Deus nos conforte, vamos tentar ajudar nossos familiares quando estivermos fortes pra isso, ou choraremos juntos quando for preciso. A Tristeza quer me mostrar que pode ser bela, que pode ser hoje dolorosa, mas que também pode representar um amor tão grande que será infinito. Os vários nomes da Tristeza ainda não foram ditos. Ela já foi paz, já foi raiva, já foi confusão, já foi saudade, já foi sentimento até sem nome... não há quem me tire a certeza de que essa menina que tem me acompanhado ainda poderá vir a ser chamada de Alegria e Gratidão.

Ao meu pai, Marcos Calado, por ter me dado a oportunidade de amar de uma forma tão pura e bonita. Amor para toda a eternidade. Que Deus o acompanhe.

Sua filha, Ana Paula.


*Photos by Melanie Pace.


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