sphere

um olhar mais demorado

Aqueles que passam pelos mesmos caminhos

Abrir os olhos para aqueles que passam por nós; e os braços para novos conceitos.


_DSF6196.jpg

Era ainda o ano de 2005 quando o Brasil combatia a corrupção do Mensalão, aprovava a pesquisa com células-tronco de embriões, dizia "não" em referendo à proibição do comércio de armas de fogo e aprovava a comercialização de produtos transgênicos. Um ano de revoluções políticas, comerciais e científicas, no qual o país fortalecia a economia, o sentimento de cidadania e democratização. No entanto, apesar de revoluções conceituais, uma coisa ainda ficava para trás na mente dos brasileiros: o conceito de encontrar um parceiro através da internet. Parece piegas, mas a aceitação, e posterior desenvolvimento de tal conceito, foi extremamente significativo para o crescimento social do país.

Lembro-me como se fosse hoje, uma amiga contava, à mesa de bar, que se encontraria com alguém que conhecera no finado Orkut. Todos a olharam suspeitos, talvez fôssemos mais atrasados em aceitar a ideia, já que era uma atitude ousada para a época e muitos não a recebiam bem, nem amigos, nem familiares. A maioria das pessoas considerava a ideia imoderada, catalogando seus seguidores para o grupo dos fracassados, que não conseguiam encontrar uma pessoa "real" para um relacionamento, trilhando o caminho mais extremo.

lefty_17.jpg

Com o passar do tempo, vimos a evolução deste conceito no Brasil. A popularização dos perfis online mudou a forma com a qual interagimos uns com os outros. A maneira como nos expressamos ganhou novos contornos e, a partir disso, as relações entre as pessoas mudou consideravelmente. Entretanto, mais do que a expansão das mídias sociais, foi a internet móvel que mais alterou nossa compreensão de relacionamento, nomeadamente os smartphones, promovendo mobilidade em termos de acesso às redes. Isso gerou uma revolução tecnológica, afetando nosso comportamento.
Cada vez mais prático e acessível, a internet é um campo para explorar possibilidades, e poder fazer isso em qualquer ambiente é um fator extremamente importante para o brasileiro, apontado como um dos maiores usuários de smartphones do mundo, com melhor aderência a este tipo de serviço do que os americanos e indianos. Ou seja, o brasileiro criou uma relação afetiva com o celular. E podemos ver isto claramente em seu estilo de vida.

Em 2015, a Nielsen Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística) publicou um estudo em que o Brasil era apontado como o quarto país em número de dispositivos móveis de internet (smartphones e tablets), com quase 80% da população conectada na internet, os números de dispositivos móveis ativos gira em torno de 61%. A Fundação Getulio Vargas (FGV) apontou no final de 2015, que o número de smartphones é de 154 milhões, superando os computadores e tablets.
A presença online tornou-se parte de quem somos, fundindo as concepções do virtual e do presencial. Hoje, quem não possui um smartphone conectado a todo instante, corre o risco de ficar alienado social e politicamente. E não somente isso, corre o risco de afetar sua vida profissional.

Esta revolução móvel fez com que o mercado de aplicativos para smartphones expandisse as ofertas de apps para todos os gostos e temas, inclusive os populares aplicativos de relacionamento. Este último, como todos sabem, deu outra roupagem à forma como procuramos por um parceiro. Hoje em dia, os aplicativos são o meio mais comum para se conhecer alguém, e essa ideia se encaixou dentro de nossa sociedade rapidamente por motivos múltiplos, podemos citar dois: a praticidade de se conhecer mais pessoas num menor período de tempo, e a facilidade de interagir com quem nos interessa, não importando o lugar nem a hora. Também, este tipo de serviço nos deu maior controle sobre quem, como e quando queremos encontrar alguém, nos dando um maior poder de manipulação neste contexto. Hoje, há inúmeras opções de aplicativos de relacionamentos para atender as exigências de um público extremamente diverso e cada vez mais adepto ao conceito. Não é surpresa de que este serviço tornou-se imensamente popular no Brasil, apontando uma sociedade não somente mais moderna, mas, também, receptiva.


en - girl - hipster - tattoo.jpg

Entretanto, ainda permanece uma questão: o quão prático, seguro e eficiente são os aplicativos que oferecem tais serviços? Quais os serviços que, realmente, nos levam a sério, que nos dão conforto para que compartilhemos detalhes de nossa personalidade e de nossa vida, tratando-nos de maneira pessoal e não automática? Quais deles oferecem inovação neste mar de opções iguais? Quais deles propõe uma abordagem diferenciada, fazendo valer a exposição para que, finalmente, conheçamos a outra metade da laranja, a tampa da nossa panela?

_DSF6182.jpg

Confesso que tentei alguns, os quais me indicavam matches simplesmente porque ambos gostávamos de frutos do mar. Quer dizer, você está de sacanagem comigo? Para alguns aplicativos, o match acontece por motivos banais, fazendo-nos perder tempo com pessoas que, na realidade, nada têm a ver conosco. Meu gato adora peixe, nem por isso vou a um encontro com ele.

Cansada de eventuais matches que não davam em absolutamente nada, e com muito medo de virar uma cat lady, uma amiga indicou-me o happn. Como ela conheceu o seu noivo através deste aplicativo, resolvi dar uma olhada, só para não dizer que não sou disposta. Pois bem, percebi que este serviço propõe uma abordagem inovadora, é verdade.

Ao invés de me apontar somente pessoas com as quais eu tenho algum gosto em comum (o que, convenhamos, é um conceito super last week), o aplicativo me mostra as pessoas que passam pelo meu caminho, ou com as quais eu já estive, ou compartilho alguma experiência real, como por exemplo, frequentar o mesmo café ou sushi bar, ter ido ao mesmo evento, morar no mesmo bairro, fazer compras no mesmo supermercado, alguém que ande pelas mesmas ruas que eu.
No caso da minha amiga, por exemplo, eles se conheceram porque o aplicativo indicou que frequentavam a mesma academia, mas jamais tinham trocado olhares. Achei romântico, achei bacana, morri de inveja e, finalmente, baixei o aplicativo.

Achei que esta abordagem nos aproxima de uma realidade mais confortável e real, no que se refere a alguém que, de fato, está inserido em minha realidade, de uma maneira ou de outra, fazendo parte do mesmo contexto social que o meu. Ora, faz todo o sentido.

app-install-lefty-5.jpg

Pois bem, o resultado foi muito mais satisfatório do que minhas inúmeras tentativas de encontrar um parceiro e/ou amigos por outros serviços. Logo eu, que sempre fui muito distraída, com uma atenção sempre muito seletiva, focada numa coisa só, aprendi a reparar mais no mundo. Por vezes, abrir os olhos enquanto caminhamos tornam as coisas mais claras e, certamente, mais românticas! Se é que você me entende!

AI_croisade_grandangle_jaune_2_Cremieux_Yael_Polo.jpg.jpg

Primeiro, fui conectada com pessoas que passam pelo meu caminho, literalmente. As pessoas que estão ali ao meu redor aparecem em minha timeline. Além disso, posso ver onde e como os meus matches nos "encontramos", mesmo que distraídos. Soa-me tão bom quanto um filme protagonizado por Meg Ryan e Tom Hanks. O serviço me conecta com quem compartilha minha realidade e não com quem compartilha minha realidade virtual ou, o que é pior, com quem apenas compartilha do meu gosto por filmes do Woody Allen. E isso é uma grande diferença. Até porque, bem sei, quem gosta de Woody Allen geralmente é meio neurótico. E, acredite, eu não preciso que alguém queira discutir a filosofia do cara comigo.

en - galaxy S6 - boy.jpg

Também, uma das coisas que eu mais gostei é o fato de que eu tenho total liberdade para dizer "sim" e "não" sem esquentar a cabeça. Sabe aquela pessoa chata que fica pegando no pé e mandando mensagens mesmo quando você não está interessado(a)? Então, eu tive umas experiências punk neste sentido, viu. No happn, somente depois que ambos os lados dão um "heart" um no outro (como um like, clicando num coração) é que são liberados para trocar mensagens. Ou seja, você só conversa com alguém quando a decisão é unânime. Se você recebeu um "heart", mas sentiu que ainda não é a pessoa ideal para um encontro, basta não dar um "heart" de volta. Fazendo isso, a pessoa não poderá te enviar mensagens, o que preserva sua privacidade e direito de escolha.

Mas, a vantagem do happn é que podemos revisitar perfis (gratuitamente) com o qual já cruzamos no passado. Isso significa que você está no controle, não há nenhum problema em mudar de ideia. E mudamos de ideia com mais frequência do que queremos admitir, não? Se você achar que foi muito duro com aquela pessoa que te deu um heart e você não deu um heart de volta, existe a chance de reparação. Porque, às vezes, fazemos isso na vida.

app-install-lefty-1.jpg

Só posso dizer que hoje não tenho mais vontade de ter outro gato (um só está bom, já dizia a minha mãe), além de ter encontrado algumas boas almas que tornaram-se bons amigos.

A ideia central de todo esse conceito de encontrar alguém é poder compartilhar sua vida com um parceiro que tenha, no mínimo, as mesmas visões e valores que você, no entanto, não há nada de errado em não compartilhar o mesmo gosto por filmes, por comida e ou pelos livros. Afinal, qual a graça da vida se não temos o diferente para nos desafiar, para nos mostrar coisas novas e nos ensinar que a vida é muito mais do que nosso mundinho? Aprendi a enxergar, abrir os olhos e os braços para novas experiências, novos conceitos, novas ideias e novas abordagens.

AI_couple_Porte_Cremieux_Yael_Polo.jpg


obvious magazine

There are those that look at things the way they are, and ask why? I dream of things that never were, and ask why not?.
Saiba como escrever na obvious.
version 6/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //obvious magazine
Site Meter