statu quo

Onde o silêncio, grita.

Débora Rodrigues

Ilogicamente lógica e subjetivamente fria, gosta do conformismo dos números, mas prefere a incerteza das palavras. Costuma gritar em silêncio

Bukowski e a arte de ser perfeito

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Precisamos aceitar que fugir de nós mesmos é incongruente: somos frios, exagerados, viciados em pequenas coisas que possam nos fazer felizes e estamos sempre em busca do amor. Pintamos a cada dia uma pseudo imagem de nós mesmos e exageramos naquilo que de bom possuímos, porque no fundo do nosso coração sabemos que a “raça humana exagera em tudo: seus heróis, seus inimigos, sua importância”.


Todos que leram Bukowski sabem que a beleza de sua produção está na verdade que nela está contida. A verdade sobre as nossas misérias, os nossos erros, as nossas imperfeições. Escritores como ele te fazem olhar a si mesmo de forma diferente e situam você abaixo do pedestal que criou para si mesmo, te fazem observar que o mundo definitivamente não gira ao seu redor e que tudo continuará seguindo o rumo de sempre depois de sua morte.

Talvez seja a verdade nua e crua pregada em suas produções que encantam muitas pessoas, porque as tiram do sono egocêntrico do nosso século, onde não ser o herói é inadmissível, onde as mentiras camuflam o nosso verdadeiro ser e vir-a-ser. Porém na mesma intensidade com que aproxima alguns, ele afasta outros, pois encontrar-se com a verdade nem sempre é fácil para o ser humano, identificar-se como ser imperfeito, em construção, é traumatizante para uma maioria vazia.

Enquanto lia Bukowski passei a ter certeza de que nosso século é cheio de pessoas autossuficientes demais, incapazes de pedir perdão, incapazes de anormalidades, aberrações, defeitos. Mas que possuem em seu coração aquele sentimento de incompletude geral.

Quantas vezes a nossa autossuficiência apenas nos trouxe problemas? Deixamos de amar, deixamos de perdoar, de manter com o outro uma atitude de amor recíproco, ou seja, de um amor que é compartilhado, que cresce e amadurece junto, porque as nossas benditas certezas são inalcançáveis e imortais, ninguém pode tocar nelas, ninguém é puro o bastante para isso, como nós, não é mesmo?! E assim vamos cavando nosso próprio buraco e roubando do nosso coração o seu direito de viver.

Demonstra-se o que não se é e esconde-se tanto o pássaro azul do sentimento, da solidão, da constante necessidade do outro. Estamos sempre prontos para apontar os defeitos dos outros enquanto estes estão vivos, porém quando não mais estão na Terra eles se tornam verdadeiros deuses, amáveis e admiráveis, o que sem dúvida é o suficiente para “fazer os deuses vomitarem” como Bukowski mesmo disse.

E se tem algo que muda nossa visão sobre tudo é a morte. Ela parece trazer consigo os mais lindos artefatos que alguém pode possuir, ela nos dar virtudes e faz se tornar real a nossa imagem deturpada de nós mesmos. As melhores pessoas que nós conhecemos estão mortas, porque tiramos delas o direito de serem encantadoras enquanto estão vivas. Ao mesmo tempo tememos chegar a esse fim algum dia. Por que? Essa é sem dúvida a pergunta de um milhão de dólares. Posso tentar responde-la: a incerteza nos dar medo e a certeza parece ser coisa para os débeis.

Aqueles que não se enquadram no que consideramos como correto é sempre deixado de lado, ignorado. Se alguém nos deixou de ser útil, também é descartado. Não queremos gastar tempo, nem dinheiro, nem amor. A verdade deve ser dita da maneira mais enfeitada possível, somos fracos demais para suportá-la, e se alguém a faz, é obsceno, sujo, desprezível.

O Charles fez de sua sarjeta particular o seu Paraíso, nós ignoramos que tenhamos uma sarjeta particular, porque aliás, é mais confortável fingir que vivemos no Paraíso. O Charles nos mostrou que “o amor é tudo aquilo que nós dissemos que não era” enquanto insistimos em pintá-lo como flores que nunca murcham.

O Charles representou aqueles que foram esquecidos pelo resto do mundo porque não atendiam aos clichês básicos sociais, ele mostrou que do ódio, da dor, da melancolia, era possível fazer arte. Porém, talvez o que o Charles tenha nos deixado como verdadeiro legado é que precisamos enfrentar os monstros que existem dentro de nós para sermos melhores e por mais genial que você seja, nunca será o suficiente sozinho.

Bukowski ensina de forma dura - as vezes sem escrúpulos, sem preocupações do politicamente correto - que estamos cada vez mais distantes da perfeição e que não existe nada mais importante do que viver. Não importa se você tem ou não aquele almejado carro na garagem, ou a mulher nos padrões do ano, o que importa é o que você tem dentro do seu coração. Ele não tinha nada de santo, suas palavras muitas vezes sujas causam náuseas, mas por trás daquela casca existia algo de verdadeiramente belo.

Aceitar a nós mesmos é um princípio, uma necessidade. Encontrar o nosso “calcanhar de Aquiles” é está pronto para fortalecê-lo e melhorá-lo. Mas não ter vergonha disso, sem dúvida é o maior passo. Desde pequenos somos ensinados a nunca fraquejar: “Chorar é coisa para gente fraca”; “O amor é apenas um desvio de caminho, não dê importância! ”, e nunca crescemos, tornamo-nos eternas crianças mimadas e cegas, e as situações de dor vão passando sem deixar em nós nenhum rastro de amadurecimento. Somos incapazes de ver naquilo que nos faz sofrer algo que possa construir um homem ou uma mulher mais apta para encontrar seu lugar no mundo e valorizar o que de fato é digno de valorização.

Estejamos prontos para deixar nossas invisíveis capas de super-herói de lado. Estejamos prontos para nos aceitar e moldar a situação em que nos encontramos. Ora, precisamos aceitar com honestidade o fato de sermos humanos e não perfeitos. Precisamos aceitar que fugir de nós mesmos é incongruente: somos frios, exagerados, viciados em pequenas coisas que possam nos fazer felizes e estamos sempre em busca do amor.Pintamos a cada dia uma pseudo imagem de nós mesmos e exageramos naquilo que de bom possuímos, porque no fundo do nosso coração sabemos que a “raça humana exagera em tudo: seus heróis, seus inimigos, sua importância”.


Débora Rodrigues

Ilogicamente lógica e subjetivamente fria, gosta do conformismo dos números, mas prefere a incerteza das palavras. Costuma gritar em silêncio.
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