statu quo

Onde o silêncio, grita.

Débora Rodrigues

Ilogicamente lógica e subjetivamente fria, gosta do conformismo dos números, mas prefere a incerteza das palavras. Costuma gritar em silêncio

O silêncio de cada dia

(...) atrás de um longo silêncio existe a dor de nunca ter sido ouvido de verdade. Eis o motivo da nossa surdez.


f1353-silencio.jpg

Nosso silêncio é barulhento, assim como tudo no nosso século.Exatamente isso, mesmo que tão raros em nosso meio, os silêncios ainda gritam e somos surdos demais para ouvi-los. Comentaram comigo uma vez que ficaremos surdos cada vez mais cedo e fiquei a pensar se já não somos surdos profissionais. Olhe ao seu redor e perceba que desaprendemos a arte de ouvir. Enquanto o outro fala não o estamos ouvindo, estamos escutando, enquanto pensamos no que iremos responder. Cada um deseja falar sobre si e nosso diálogo se baseia nessa incessante vontade. Somos senhores de nós mesmos e achamos que não necessitamos aprender mais nada com ninguém porque nós possuímos a verdade, eis o motivo de tanto extremismo ideológico. Ignoramos o bem que poderíamos fazer, ignoramos a paz que poderíamos construir, ignoramos o outro.

Nos acostumamos com aquilo que é superficial e temos medo de adentrar as camadas mas profundas da alma de alguém, porque não sabemos o que pode existir ali.Sejamos sinceros: não queremos saber o que o outro sente ou deixa de sentir e muito menos sobre suas dores e paixões, e exatamente por isso não nos chama mais a atenção quando alguém simplesmente silencia.

Parece que passou o tempo onde o silêncio de quem amamos cortava a alma em pedaços incalculáveis, tirava a graça de uma manhã e tal como os sintomas de uma patologia, nos mostrava que algo estava errado, que devíamos recomeçar. Hoje quando alguém silencia, agradecemos porque assim podemos falar mais, por sermos desatentos demais e não percebemos que é nesse exato momento que existe mais barulho em alguém, é nesse momento que a pessoa mais quer nos falar.

Nessa falta de percepção do outro nos apegamos de corpo e alma aquilo que é meramente físico. Louvamos os abraços pois os mesmo costumam falar, contudo os abraços podem não falar a verdade; imploramos pelos beijos, contudo desprezamos o que o outro tem a nos dizer.É fato, sentimos falta de afeto, e não nos parece afetar a falta de afeto do outro.

Sem rodeios, deixemos nosso ego de lado e afinemos nosso ouvidos: os silêncios vociferam a margem de cada ponte nas grandes cidades, brandam ao lado de cada vidro fechado, suplicam em cada casa, em cada quarto e até mesmo ao seu lado. Estejamos atentos para ouvir - e não meramente escutar - o outro e a complexidade de seu silêncio; deixemos as nossas ideias de lado para entender a ideia de alguém e principalmente, estejamos prontos para reconhecer e valorizar os silêncios de cada dia que existem dentro de cada um de nós.

Escrevo tudo isso apenas para dizer que atrás de um longo silêncio existe a dor de nunca ter sido ouvido de verdade. Eis o motivo da nossa surdez.


Débora Rodrigues

Ilogicamente lógica e subjetivamente fria, gosta do conformismo dos números, mas prefere a incerteza das palavras. Costuma gritar em silêncio.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @obvious //Débora Rodrigues