statu quo

Onde o silêncio, grita.

Débora Rodrigues

Ilogicamente lógica e subjetivamente fria, gosta do conformismo dos números, mas prefere a incerteza das palavras. Costuma gritar em silêncio

Quando tudo era ausência, esperei...

Devemos esperar pelo momento certo de dizer um "eu te amo", esperar que quem amamos esteja pronto para compartilhar a vida conosco. É preciso esperar que o outro abra o coração, que você mesma se torne uma pessoa melhor. É preciso esperar pelo impossível, pelo improvável, pelo indefinido.


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O telefone tocou insistentemente e o assunto do dia foi a espera:

- É que quando se deseja algo você espera, espera o tempo que for.

Me vi falando tal frase clichê, como justificativa de algo que era impossível explicar em proposições lógicas e coerentes.

Esperar. Parece que esse verbo foi tirado da nossa vida como a um verme que vai nos matando pouco a pouco, que vai consumindo, bagunçando e deixando suas indesejadas marcas em nós.

Vejam só, esperar não parece ser variável do século XXI, temos dias mecânicos em que impreterivelmente não há espaço para "perda de tempo", em que cada segundo produtivo é um ponto a mais para nosso ego. Estamos criando uma geração que tem tudo no momento que quer: se queremos assistir novamente um filme, não precisamos esperar que seja transmitido pela segunda vez na televisão, basta fazer o download dele; se temos fome, não precisamos esperar pelo almoço, compramos um "fast-food"(o que, aliás, significa "comida rápida", em outras palavras, comida a qual não se espera), detestamos filas e não há nada mais odiado do que esperar uma página da internet carregar.

A verdade é que a espera fere nosso ego, deixa-nos dependentes do tempo (nosso maior inimigo) e nos coloca em uma situação meramente passiva. Porém, apesar de tudo, ela é necessária. É necessária para que o bom, o verdadeiro, realmente chegue.

Revendo minhas anotações, minhas verdades, meus pontos de vista, percebi que demorei muito para entender a importância de esperar. Agora vejo que as melhores coisas também foram aquelas a que mais esperei. Para entender isso basta pensarmos em como nos sentimos demasiadamente felizes ao ganharmos aquele presente que tanto queríamos e a que tanto esperamos, enquanto temos uma felicidade mediana quando o compramos no mesmo instante.

A nossa razão, diminuta, não percebe que a espera atribui valor as coisas e situações, que ela nos prepara para sermos os melhores que podemos ser. Esperar é preciso e nós sentimos isso. Acontece que temos esperado pelas coisas erradas e nos momentos errados.

Quando tudo for som, espere pelo silêncio. Quando tudo for dor, espere pelo amor. Não se precipite. Espere, espere, espere.

Devemos esperar pelo momento certo de dizer um "eu te amo", esperar que quem amamos esteja pronto para compartilhar a vida conosco. É preciso esperar que o outro abra o coração, que você mesma se torne uma pessoa melhor. É preciso esperar pelo impossível, pelo improvável, pelo indefinido. Se você não consegue esperar, você não ama, pois o amor é paciente, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

No fim da conversa, nós dois só conseguimos lembrar de Chico César:

- "Quando tudo era ausência, esperei..."

Irônico pensar que apesar das coisas ainda não estarem ausentes, já estou esperando.


Débora Rodrigues

Ilogicamente lógica e subjetivamente fria, gosta do conformismo dos números, mas prefere a incerteza das palavras. Costuma gritar em silêncio.
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