statu quo

Onde o silêncio, grita.

Débora Rodrigues

Ilogicamente lógica e subjetivamente fria, gosta do conformismo dos números, mas prefere a incerteza das palavras. Costuma gritar em silêncio

Ficaremos calados mais uma vez ?

Não foi em nome de Deus que eles assassinaram, foi em nome de um fanatismo, de revertidas ideias totalitárias, que sempre matam, seja pela política, seja por religião, seja em qualquer outro âmbito da existência.


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Não, eu não conhecia o padre Jacques Hamel. Nunca nos vimos, nunca conversamos, nunca assisti alguma Missa celebrada por ele. Mas o longe de repente se fez perto.

Horas se passaram para que eu entendesse o ocorrido, demorou mais tempo ainda para que compreendesse o quão grande foi o fato e o quão cruel foi sua execução. E quando tudo ficou claro, minha mente ainda insistia em manter-se distante, em evitar o sofrimento. Talvez porque eu já esteja cansada dessa situação.

O fato foi que o padre Jacques Hamel foi degolado, em uma igreja da região da Normandia, norte da França, durante a Santa Missa, por homens que diziam está ali em nome de Deus e definitivamente não estavam. Não foi em nome de Deus que eles assassinaram, foi em nome de um fanatismo, de revertidas ideias totalitárias, que sempre matam, seja pela política, seja por religião, seja em qualquer outro âmbito da existência.

Estou cansada desse sangue escorrendo pelos olhos, desse furor incontrolável dos corações, dessa angústia, desse medo, desse silêncio. Todos nós, complicados e perdidos, estamos revendo o que nunca foi visto, procurando desesperadamente por qualquer notícia que nos deixe menos aflitos e nossa espera parece nunca cessar, porque qualquer coisa que se move é um alvo. Não estamos bem e não estamos a salvo.

Certa vez, me recordo que um amigo perguntou contra o que exatamente eu lutava. Ora, agora posso respondê-lo com a clareza de quem sabe para onde está indo: a minha luta é contra aquilo que nos aniquila. E nós somos os aniquiladores de nós mesmos. Será que não é claro que deve morrer essa certeza imbatível de que apenas o nosso jeito de olhar o mundo é o correto? Será que não é visível, palpável, que devemos respeitar as escolhas, crenças e ideais dos outros mesmo que não concordemos? Será que não conseguimos compreender a dimensão da vida que transcende nossas divergências, nosso orgulho, nosso juízo de valor?

Chesterton disse uma vez que não admiramos, mal desculpamos o fanático que destroça esse mundo pelo amor do outro. Mas que devemos dizer do fanático que destroça este mundo por causa do ódio pelo outro? Ele sacrifica a própria existência da humanidade a não-existência de Deus.

É preciso matar em nós toda e qualquer tendência ao desrespeito à vida, o nosso maior dom.As convicções que cada um tenha, devem dar-se no limite da convivência respeitosa com os que pensam de modo diverso. Jamais se pode ferir a consciência de alguém; o direito à livre expressão das opiniões e a liberdade de ação, desde que dentro do respeito mútuo numa sociedade que se deseja realmente pluralista e democrática, na qual a pessoa seja o valor central.

Mas uma vez o noticiário nos informou uma morte, mas uma vez também o meu sangue foi derramado, mais uma vez senti a esperança esvair-se do meu coração. Os combatentes do Estado Islâmico podem ter armas pesadas e sua euforia doentia, mas a nossa grande arma é o coração. Foi pelo amor que o padre Jacques venceu cada um deles e se tornou o primeiro mártir padre da Europa. Saber que essa vida tem um sentido e que esse sentido está além dessa vida, me deixa certa de que aos justos é dado sempre um bom lugar.

Ninguém irá dizer "Je suis le père Jacques" como “Je suis Charlie Hebdo”? A batalha entre as trevas e a luz está a pleno vapor e aconteceu em pleno altar de adoração. Ficaremos calados mais uma vez ? Não, não podemos permanecer calados.


Débora Rodrigues

Ilogicamente lógica e subjetivamente fria, gosta do conformismo dos números, mas prefere a incerteza das palavras. Costuma gritar em silêncio.
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