sub rosa

Porque há muito mais que um só par de olhos pode ver.

Karol Azevedo

Apaixonada por palavras e pelos finais aos quais estas podem levar. Estudante, dezesseis anos e 100% adepta às letras - mesmo que às vezes acabe se atrapalhando um pouco com elas.

o grande talvez

“Passamos a vida inteira no labirinto, perdidos, pensando em como um dia conseguiremos escapar e em quanto será legal. Imaginar esse futuro é o que nos impulsiona para a frente, mas nunca fazemos nada. Simplesmente usamos o futuro para escapar do presente.” (Quem é você, Alasca?)


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O hobby de Miles Halter, protagonista do livro Quem é você, Alasca?, de John Green, é descobrir as últimas palavras de algumas célebres personalidades que já pisaram na Terra. Comparada às atividades dos outros jovens, essa distração pode parecer um tanto quanto peculiar; assim como a sociabilidade do rapaz, que é consideravelmente abaixo da média. No entanto, prestes a iniciar o Ensino Médio no internato Culver Creek, Miles determina que ser deixado de lado não é mais uma opção.

As últimas palavras do poeta François Rabelais foram: "Saio em busca de um grande talvez". Inspirado por tal citação, Miles vê em seu novo colégio potencial para o início uma jornada em busca de seu Grande Talvez, que figura como uma incrível experiência que seria capaz de validar a existência daqueles que passam por ela.

O que Miles procura é a mais insana e importante das desventuras que alguém pode vir a ter. É certo afirmar que todos temos nossas diferenças, e isso se reflete na variabilidade de opiniões sobre acontecimentos extraordinários o suficiente para fazer-nos pensar na vida como algo que realmente valha à pena. No entanto, Green nos leva a notar que, apesar de Miles ter conhecimento de sua procura, muitos de nós também embarcamos nesta - mesmo sem ter a menor consciência disso.

Não passamos horas no trânsito porque adoramos o som das buzinas. Não aceitamos empregos desagradáveis porque almejamos tal insatisfação, nem viramos a noite estudando para aquela prova impossível por puro deleite. É a busca pelo Grande Talvez, esse anseio de chegar ao ponto alto de nossa existência, que nos impede de jogar nossas responsabilidades para os ares todos os dias.

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Alasca Young é uma das melhores amigas de Miles Halter na Culver Creek. Apesar do interesse amoroso do protagonista diante desta personagem, é preciso perceber na escrita de Green que há detalhes mais importantes que os cabelos loiros e os olhos verdes da garota. É Alasca a responsável pela inserção de um dos principais ponderamentos existentes na trama, fazendo um paralelo entre o cotidiano, nossa procura pela felicidade - o Grande Talvez -, e as hipotéticas últimas palavras de Simón Bolívar ("Como sairei deste labirinto?).

Alasca insere os dizeres de Bolívar de modo a nos fazer questionar nossas supostas contínuas tentativas de acabar com o sofrimento. Segundo a personagem, estamos sempre fazendo planos para um futuro que parece nunca chegar, e tais devaneios possuem somente a responsabilidade de apaziguar o quanto estamos fartos do presente. Assim, ao invés de sermos positivos para com a realidade em que vivemos, nos tornamos escravos de um futuro inviável.

Da mesma maneira que Miles procurou na maior desinibição uma via para seu Grande Talvez, depositamos nossas expectativas de satisfação extrema com a vida em retornos que podem vir do cumprimento de nossas obrigações diárias. A rotina - esse constante empecilho frente à realização do que realmente queremos fazer em determinado momento -, é uma humilde amostra de nossa fé na possibilidade de dias melhores, e pode até mesmo ser nosso percurso ao Grande Talvez. No entanto, é preciso enxergar, como alertado por Alasca, quando esta não exerce tal papel, representando apenas um obstáculo em nossas vidas.

Às vezes, faz-se fundamental perceber, pelo bem de nossa saúde física e psicológica, que aquela profissão aspiramos desde a infância não está exatamente de acordo com o perfil que assumimos durante a vida adulta, ou que insistir em tentativas para ganhar aquele cargo que tanto queremos não vale exatamente o cansaço que este poderia nos dar em retorno. Se possível, temos que abrir nossos olhos e reconhecer que somos estranhos aos nossos próprios anseios.

Filhos, aluguel, aquela maldita conta de telefone que está para chegar... Há quem, mesmo em meio à incontáveis adversidades, consiga mudar. No entanto, também é primordial enxergar aqueles que, em função da maneira excruciante à qual estão presos por suas obrigações, infelizmente nem mesmo possuem a dádiva da escolha. Assim, o privilégio de poder optar por outra direção deveria ser motivação suficiente para não ficarmos parados, simplesmente imaginando mil possibilidades e nos contentando com o mais imediato. Optar pelo risco pode ser, em alguns momentos, nosso porto seguro.

Encontrar o Grande Talvez deve ser, conscientemente ou não, nossa missão. Tornar tal busca uma lástima apenas faz com que afundemos ainda mais dentro do labirinto, indo em direção à devaneios incertos acerca do futuro e nenhum ato realmente concreto na realidade. Desse modo, assim como Miles Halter, saio em busca do incerto, e espero que você também tenha essa oportunidade.

E que consigamos dar o primeiro passo.


Karol Azevedo

Apaixonada por palavras e pelos finais aos quais estas podem levar. Estudante, dezesseis anos e 100% adepta às letras - mesmo que às vezes acabe se atrapalhando um pouco com elas..
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