sub rosa

Porque há muito mais que um só par de olhos pode ver.

Karol Azevedo

Apaixonada por palavras e pelos finais aos quais estas podem levar. Estudante, dezesseis anos e 100% adepta às letras - mesmo que às vezes acabe se atrapalhando um pouco com elas.

Onde o mundo começa

“Prometo falhar. Sem hesitar. Prometo ser humano, aqui e ali ser incoerente, aqui e ali dizer uma palavra errada, a frase errada, até o texto errado, aqui e ali agir sem pensar, para que raios serve pensar quando te amo tão desalmadamente assim?” (Pedro Chagas Freitas)


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Pedro Chagas Freitas sabe retratar o ser humano. Durante sua vida, o autor português acabou por exercer ocupações um tanto díspares entre si, sendo algumas delas: redator, jogador de futebol, barman, operário fabril, publicitário, nadador salvador, guionista e jornalista. As outras, no entanto, Chagas Freitas nem se dá ao trabalho de mencionar.

Acredito que a abrangência de situações com as quais o autor lidou o tenham feito um grande observador de causos e sentimentos. A profundidade com que escreve, porém, faz com que um de seus livros, Prometo Falhar, seja mais que um conjunto de crônicas e textos diversos que falam sobre sentimentos e situações cotidianas, como se propõe a ser.

Prometo Falhar é uma genuína homenagem à diversidade da subjetividade humana, tendo tal afirmação justificada já no próprio título da obra, que deriva de uma das crônicas do livro. Nesta, “prometo falhar” figura como uma jura de amor de um casal enamorado. Chagas Freitas deixa claro que a possibilidade da perfeição é apenas uma utopia, e que desejar o irreal apenas conseguiria trazer tristeza; assim a mensagem da obra fica clara. Deve-se almejar - e aceitar - o imperfeito, as falhas que tanto caracterizam os seres humanos.

Apesar de acabar passando, em alguns momentos, um ar de incredulidade em relação à humanidade, Chagas Freitas ainda consegue direcionar os olhos do leitor para a enorme quantidade de íntimos a serem explorados como foco de sua obra, e como cada um consegue ser infinito somente por ter a ousadia de sentir. Determina-se, dessa maneira, o que nos define: somos restos de estrelas, uma partezinha insignificante do cosmos. Mas, ao mesmo tempo, nossas mentes fazem com que cada um de nós seja um universo inteiro.

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A ideia supracitada pode parecer intragável. Afinal, quem nunca sentiu-se um estranho, como se as demais pessoas fossem demasiado frias? Parece-nos impossível que todos sejam tão intensos. No entanto, o que Pedro Chagas Freitas retrata é uma realidade de difícil acesso. Acompanha-se, em Prometo Falhar, atitudes humanas durante estopins emocionais, e rapidamente é possível perceber que o outro talvez tenha uma profundidade tão grande quanto a nossa. Por mais inimaginável que possa parecer, encaramos o fato de que que assim como às vezes nos sentimos como se estivéssemos transbordando algo que não é passível de receber qualquer nomeação, a maioria das pessoas também o faz. E esse é um tapa na cara dos grandes.

Não falamos sobre nosso íntimo para não parecer piegas, mas desejamos intensamente que o outro seja o mais aberto possível. Nos chateamos por conflitos de orgulho, publicamos no Facebook que nossa geração é rasa, e que amores como os de antigamente não se fazem mais. Exigimos dos outros o que não conseguiríamos ser ou fazer, não doamos dinheiro para ONGs que ajudam a combater a fome, mas dizemos ter muita pena daquelas pobres criancinhas que morrem desnutridas. Sem perceber, somos tão cruéis quanto as pessoas que criticamos.

Máquinas realizam, atualmente, a maioria das atividades que demandam gastos energéticos. Não percebemos, mas sentimos uma falta danada delas quando o assunto é emoção. Quem dera existisse um robô que soubesse amar reciprocamente, dizer as coisas certas nos momentos difíceis e, quem sabe, ainda surpreender-nos com declarações de amor dignas de um daqueles romances clichês (e que todos adoram, mas não admitem). Mas a verdade é que - ainda bem - cometemos erros.

Fazemos besteira o tempo todo. Dia e noite. Se possível, mais de uma vez por minuto. A ideia de o outro ser melhor, porém, parece-nos imensamente agradável. Assim, entramos naquele território já tão alarmado por Chagas Freitas na crônica que dá título ao livro em questão: procurar a perfeição o tempo todo é caminho para insatisfação. Ao fazê-lo, secretamente, construímos a ideia de que o homem é um antônimo de humanidade.

Carlos Drummond de Andrade dizia-se gauche. Do francês, gauche significa esquerda, e pode-se dizer que o poeta queria expressar o fato de ser uma pessoa um tanto quanto deslocada no mundo. Ao terminar Prometo Falhar, essa foi a palavra que escolhi para definir o livro e sua profundidade em meio aos nossos olhos cegos frente à existência de um mundo à parte em cada um que passa por nossa vida.

“Vejo em você o começo do mundo.”

– Pedro Chagas Freitas


Karol Azevedo

Apaixonada por palavras e pelos finais aos quais estas podem levar. Estudante, dezesseis anos e 100% adepta às letras - mesmo que às vezes acabe se atrapalhando um pouco com elas..
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