sub rosa

Porque há muito mais que um só par de olhos pode ver.

Karol Azevedo

Apaixonada por palavras e pelos finais aos quais estas podem levar. Estudante, dezesseis anos e 100% adepta às letras - mesmo que às vezes acabe se atrapalhando um pouco com elas.

as garotas: charles manson e o machismo

As Garotas, de Emma Cline, apresenta um olhar apurado sobre as relações que culminaram no assassinato de Sharon Tate e outras seis pessoas. O caráter é ficcional; as situações apresentadas, porém, merecem um olhar mais atencioso de todos nós.


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As Garotas, de Emma Cline, foi lançado no Brasil no ano de 2016. O livro retrata ficcionalmente o cotidiano de uma seita autora de um famoso caso de assassinatos em série ocorrido nos Estados Unidos em 1969, sendo tal grupo identificado como Família Manson. Enquanto o líder do grupo, Charles Manson, teve sua figura incansavelmente explorada em outros livros sobre o assunto, Cline o relegou à segundo plano em seu livro - aqui, as protagonistas são os membros femininos da Família.

A Família Manson vivia em um rancho no estado da Califórnia, e aos olhos mais desatentos não diferia muito das comunidades hippies em franca ascensão no período. Charles Manson - chamado no livro de Russell - possuía boa retórica, clamava pela liberdade e oferecia experiências psicodélicas a quem o recorresse. A seita era composta quase majoritariamente por mulheres de diferentes origens que enxergavam em seu líder uma opção às imposições sociais que lhes eram feitas, embora não reagissem frente à constatação de que o estilo Manson de ser fosse muito distante de "paz e amor". Assim, no final do ano de 1969, Manson, motivado por sua ridícula crença em ser capaz de governar o mundo e em convicções um tanto racistas, organizou uma série de assassinatos nos Estados Unidos. Não sujou as mãos; suas garotas o fizeram.

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Apesar de a maioria das pessoas acabar atraído por As Garotas de modo a acompanhar a dinâmica do grupo que culminou em sete assassinatos, os crimes da Família são assuntos um tanto quanto ofuscados no livro. Emma Cline dá destaque ao modo como algumas meninas sequer percebem a manipulação de Russell, enquanto outras tentam ignorar a certeza de que este é um homem racista e que seu modo de agir não é certo, colocando em prática toda a naturalização de preconceitos ainda em vigor na sociedade. Deixa em aberto, também, o julgamento do leitor quando à culpabilidade das garotas pelos homicídios cometidos.

Ao passo que os assassinatos foram responsáveis pelo que pode ser tido como o "início do fim" da Família Manson, o livro de Emma Cline recria acontecimentos fictícios que se deram antes e depois de tais acontecimentos. A protagonista é Evie Boyd, uma personagem criada pela autora. Com catorze anos de idade, Evie é uma menina normal - normal até demais. Sua vida social é quase nula, ela não teve a "sorte" de nascer tão bonita quanto as meninas das revistas, e sua melhor amiga é o sinônimo de tédio. Evie almeja viver as emoções que os filmes prometem, dos amores às decepções. Um paradoxo ao seu estilo monótono de viver é a Família Manson, e a menina rapidamente torna-se membro da seita.

"Eu ficava à espera de que me dissessem o que eu tinha de bom. [...] Todo aquele tempo que eu gastara me preparando, os artigos que me ensinavam que a vida era, na verdade, só uma sala de espera até que alguém reparasse em você - os rapazes haviam gastado esse tempo tornando-se eles mesmos." (Emma Cline)

Na Família Manson, Evie vive a influência de Russell e suas garotas. O líder da seita é persuasivo, fazendo com que aquelas que o seguem simplesmente naturalizem e confundam com amor seu caráter abusivo. Os eventos narrados podem ser tidos como extremos, embora carreguem um quê de realidade: sem ao menos se dar conta, Evie Boyd passa a enxergar os abusos como um direito de Russell, perpetua comportamentos misóginos e a ditadura da beleza que tanto odeia. Feministas ou não, acredito que qualquer mulher acabe identificando alguns deslizes cometidos por Evie como comuns à si. O rosto ruboriza, nos questionamos sobre o por quê diabos nós, assim como Evie, já ouvimos comentários machistas sem retrucar, e a leitura continua.

A autora dá conta, em As Garotas, de que a necessidade de uma consciência feminista está justamente no fato de as mulheres não poderem se desenvolver sem que sofram consequências de pensamentos misóginos. As inseguranças da protagonistas são comuns, indo de complexos com o corpo até o medo em desagradar terceiros quando expondo opiniões próprias. Ainda que se passe em 1969, a obra retrata uma realidade terrivelmente atual: como mulheres, ainda sofremos com aqueles que se imaginam na posição de nos definir. Use esse batom, faça academia, seja delicada.

Dadas as circunstâncias, percebe-se a dificuldade que é... ser. Ao invés da liberdade em agir, estamos constantemente aceitando construções ou tentando nos sobrepor à estas. Assim, com nossa subjetividade condenada à repressão, nos tornamos nós mesmas, mas também produtos de um irracional pensamento que coloca volume nas calças como indicativo de superioridade.

“Naquela idade, eu me sentia, antes de mais nada, uma coisa a ser julgada, e isso transferia o poder para a outra pessoa em toda interação.” – Emma Cline


Karol Azevedo

Apaixonada por palavras e pelos finais aos quais estas podem levar. Estudante, dezesseis anos e 100% adepta às letras - mesmo que às vezes acabe se atrapalhando um pouco com elas..
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