sub rosa

Porque há muito mais que um só par de olhos pode ver.

Karol Azevedo

Apaixonada por palavras e pelos finais aos quais estas podem levar. Estudante, dezesseis anos e 100% adepta às letras - mesmo que às vezes acabe se atrapalhando um pouco com elas.

errar é humano - e muito benéfico

Erramos muito. E isso é maravilhoso!


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Emma Morley e Dexter Mayhew são os protagonistas de Um Dia, de David Nicholls. Eu ficaria muito contente em poder discorrer sobre o quão insana e surpreendente é a trajetória dessas duas personagens, a não ser por um único fato: caracterizar a história de tal maneira levaria aqueles que não a conhecem a acreditar que, nessas páginas, a vida de Em e Dex teve como marca acontecimentos mirabolantes e totalmente impossíveis. Assim, desprezaria todo o trabalho do autor ao tecer personagens possuidores de defeitos e falhas suficientes para parecerem reais.

Emma e Dexter estudavam na mesma universidade. Apesar de não manterem nenhum tipo de laço durante os tempos de estudos, é no dia da formatura que os dois se tornam amigos, sendo a vida de ambos acompanhada pelo leitor à partir de uma narração feita de modo a representar-se, em cada um dos vinte e três capítulos, um único dia nos anos subsequentes ao início da amizade de Em e Dex.

A grande sacada de David Nicholls ao escrever Um Dia foi utilizar-se da subjetividade de protagonista comuns - não há nada de extremamente especial em nenhum deles, e pode-se muito bem encontrar por aí pessoas que tenham personalidades parecidas com as descritas no livro. Ao conquistar a identificação do leitor para com alguns atos realizado por Emma e Dexter, o autor insere também os erros destes. E que grande presente, os tais erros!

Obras que usam da idealização demasiada do próximo me irritam. Nem preciso comentar, então, o quanto me vi satisfeita ao ver Emma e Dexter cometendo falhas à toda velocidade. Dizeres inconvenientes nos momentos incertos, frases que acabam por insultar intencionalmente o outro e escolhas equivocadas de empregos são apenas alguns dos inúmeros deslizes retratados na obra, e que muitas vezes nos fazem interromper a leitura para rir - ou chorar - ao lembrar de acontecimentos semelhantes pelos quais passamos.

E são nesses momentos que, assim como Em e Dex, tanto tentamos evitar, que Nicholls repousa uma das mais importantes mensagens de seu livro: pessoas boas erram. E vida que segue.

Dizem por aí que errar é humano. Escolhas incertas são nosso principal talento, e não muito raramente somos visitados por aquela senhora dor de cabeça advinda por um problema causado por nossas próprias atitudes. Usamos o recomeço como desculpa, dizendo que o importante mesmo é aprender com a situação vivida. Acreditamos que o erro é anulado pelo aprendizado e, apesar de sermos tão errantes em todos aspectos de nossa existência, não temos a mínima noção do quanto estamos certos ao afirmar que, depois de tropeçar, o certo mesmo é fazer um belo curativo na ferida adquirida e lembrar da pedra que nos fez cair para poder evitá-la caso esta apareça novamente em nossas vidas.

Ver Emma Morley e Dexter Mayhew errarem não foi fácil. Revirei os olhos inúmeras vezes frente às burradas que os dois insistiam em cometer, e me vi bastante irritada quando estes precisavam lidar com as consequências de seus atos errôneos. Inesperadas - e infinitamente belas - foram algumas das situações que estes puderam contornar por conta da bagagem adquirida ao longo dos anos.

Um Dia é um livro sobre pessoas. Não se apegue às personagens como se estas fossem inalcançáveis: elas estão por todo lado. Eu sou um pouquinho de Emma, um pouquinho de Dexter, e você também. Às vezes, acabamos por fazer coisas ruins - e nem por isso deixamos de ser bons. As besteiras que cometemos somente nos encaixam na categoria de aprendizes.


Karol Azevedo

Apaixonada por palavras e pelos finais aos quais estas podem levar. Estudante, dezesseis anos e 100% adepta às letras - mesmo que às vezes acabe se atrapalhando um pouco com elas..
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