sub rosa

Porque há muito mais que um só par de olhos pode ver.

Karol Azevedo

Apaixonada por palavras e pelos finais aos quais estas podem levar. Estudante, dezesseis anos e 100% adepta às letras - mesmo que às vezes acabe se atrapalhando um pouco com elas.

o começo de tudo

Um livro que fala sobre recomeços, o papel daqueles que nos cercam na construção de quem somos, e a profundidade do que presumimos ser simples.


o começo 1.jpg

Ezra Faulkner é o protagonista de O Começo de Tudo, de Robyn Schneider. Nascido e criado na fictícia Eastwood, o garoto se vê muito feliz com tudo que possui: notas satisfatórias, o posto de capitão do time de tênis da escola, uma namorada e amigos populares. A vida é boa, e no auge de sua adolescência, Ezra se mostra longe de querer que esta tome outros rumos.

O projeto de futuro do protagonista basicamente se apoia na comodidade: ao contrário do que fazem muitos jovens ao idealizarem seus sonhos, Ezra não vê problemas na possibilidade de um dia acabar em um emprego que não transpareça suas paixões, desde que este supra suas necessidades financeiras. Ir embora de sua pequena e pacata cidade também não é uma opção, visto que Faulkner não deseja se distanciar do brilhante mundinho que foi sua adolescência em Eastwood. O acaso, no entanto, tinha planos um tanto quanto díspares.

Segundo Ezra Faulkner, todos temos um momento extraordinário durante nossa existência. Este pequeno catalisador de mudanças em nossas vidas pode não ser, em primeira instância, uma situação que encaramos com bons olhos. Recomeço, porém, é seu sinônimo. No caso de Ezra, seu momento extraordinário veio de carro - e este lhe acertou em cheio, em um acidente que acabou causando transformações físicas e psicológicas irreversíveis.

Robyn Schneider impõe à Ezra Faulkner uma realidade cruel. Jogar tênis, que é a mais adorada atividade do protagonista, passa a ser impossível após ao acidente devido aos danos permanentes em seu joelho. Voltar para o convívio de seu grupo de amigos também não é uma opção, já que Ezra os ressente pelo descaso mostrado em relação ao seu estado de saúde quando ainda hospitalizado. Desse modo, a autora molda cuidadosamente um cenário ideal para que a saída da zona de conforto seja a única alternativa plausível.

A obra de Schneider foca-se no autoconhecimento. É interessante acompanhar as várias dimensões que Ezra mostra ao leitor ao longo da trama, uma vez que não apenas de acertos constrói-se a personagem em questão; na verdade, Ezra erra, e muito. Assistimos, também, ao seu crescimento pessoal: inicialmente negativo ao extremo, Ezra mostra-se um tanto resiliente ao gradualmente usar as dificuldades como combustível para gerar diversas reflexões sobre quem é e quem deseja ser, descobrindo-se uma pessoa totalmente diferente daquela que pensava que era antes do acidente.

É um engano pensar, porém, que Ezra conseguiu extrair tantas vantagens de um momento desastroso de sua vida sem ajuda. O pilar para o recomeço do garoto são suas novas amizades, que o ajudam a descobrir novas habilidades e faces de si próprio. Cassidy Thorpe, a garota por quem Ezra se vê apaixonado, também é uma peça importante na trama por ter o poder de desencadear algumas benéficas modificações que certamente demorariam em demasia para acontecer caso estivesse ausente.

Cassidy é nova na cidade de Eastwood. Não é à toa - muito menos surpreendente - que Ezra se veja rapidamente atraído por ela, que certamente é uma figura interessante em função de sua inteligência e imposição. Acredito, no entanto, que Schneider inseriu Cassidy na trama de modo a fazer com que Ezra e o leitor se permitissem enxergar a realidade, considerando que Thorpe e suas ocasionais atitudes não muito convencionais (respostas ignorantes, atitudes impensadas e incompreensíveis são apenas o começo), retratem com sucesso um ser humano verídico, não a mocinha ideal que estamos tão cansados de encontrar em livros do gênero.

Ezra Faulkner lutou para aceitar que Cassidy não era perfeita. Às vezes, também insistimos na falsa impressão para dar credibilidade àquilo que idealizamos, relutando em admitir que aquela pessoa que tanto amamos talvez não seja tão perfeita quanto anteriormente pregamos. Há quem se sinta muito melhor ao mentir somente para proteger, mesmo que injustamente, a imagem de alguém com quem mantém certo afeto. O objetivo da autora em sua escrita, contudo, parece gritar sobre nossa autossuficiência e a necessidade deixar algumas idealizações de lado a fim de evitar decepções.

O Começo de Tudo fez com que um sorriso bobo se abrisse em meu rosto inúmeras vezes. A escrita clara de Robyn Schneider, aliada a um enredo que transforma muitas situações cotidianas em um conteúdo válido para leitura, nos faz vibrar diante da beleza na simplicidade, mostrando o quanto somos tolos ao não dar o devido crédito às variações de nossa própria realidade. Logo, assim como Ezra, ao finalizar essa leitura, vejo-me no começo de tudo, pronta para o que der e vier - e muito, muito longe do Panóptico*.

*O Panóptico foi um projeto arquitetônico de Jeremy Bentham, que idealizava um modelo prisional onde o encarcerado não sabia se estava efetivamente sendo observado. Segundo Michel Foucault, tal controle poderia também estender-se às mais diversas esferas sociais, como escolas e hospitais, fazendo com que os indivíduos agissem corretamente em função da intimidação. Em O Começo de Tudo, Cassidy Thorpe utiliza tal concepção para referir-se à sociedade em que vive como uma espécie de prisão.


Karol Azevedo

Apaixonada por palavras e pelos finais aos quais estas podem levar. Estudante, dezesseis anos e 100% adepta às letras - mesmo que às vezes acabe se atrapalhando um pouco com elas..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Karol Azevedo
Site Meter