submundo do som

Eles não vão entender, não vão consumir

Jeff Ferreira

Eu sou um misto de ossadas indigentes
Ao lado do cadáver de Tim Lopes
Com fliperama violento de boteco
Informação para desviciar os olhos

A Sangueaudiência d'O F.UR.T.O.

Conheça a banda O F.UR.T.O, de Marcelo Yuka, ex-letrista e o fundador da banda O Rappa, conheça as ideias do grupo, a pegada musical viajando pelo primeiro e único disco dos caras, o Dangueaudiência, música, na concepção música e poesia musicada que faz os auto falantes explodirem!


9c4a84_a8bdab0cf48e4f3598748b53a50f1a64.jpg Capa do disco Sangueaudiência

O Furto, é uma banda que se você não conhece ta vacilando! O F.UR.T.O. é um projeto de Marcelo Yuka, ele mesmo, o cara que deu identidade a O Rappa, ex-baterista e ex-letrista da banda carioca. Yuka põem no F.UR.T.O. todo seu sentimento e poesia, num trabalho belíssimo de muita melodia e com aquela coisa de questão social característica do Marcelo.

Apesar de apenas um disco, o Sangueaudiência de 2005, lançado pela Sony BMG, a banda é referência pela qualidade do som e letra que a obra carrega. A sigla F.UR.T.O. prova a que questão social está no nome da banda: Frente Urbana de Trabalhos Organizados, bandeira que que Marcelo Yuka defendia desde O Rappa, é possível ver Falcão com a camiseta do O F.UR.T.O no clipe da música Me Deixa.

O disco é carregado de participações especiais também, como a do parceiro carioca de longa data B.Negão (Planet Hemp, The Funk Fuckers, Turbo Trio, e Seletores de Frequência) na faixa “Gente de Lá”, tem também presença internacional com o parisiense Manu Chao em “Todos de Baixo do Mesmo Sombreiro”, a conhecidíssima e queridíssima da MPB Marisa Monte deixa seu dom na canção “Desterro”. A música “Verbos a flor da Pele” é uma linda poesia em homenagem ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, onde teve participação de um dos integrantes o João Pedro Stédile.

Sangueaudiência começa com a faixa Terrorismo Cultural: “um atentado, contra golpe contra tudo que já se foi falado, jurado, esperado e prometido como solução”, iniciando numa pegada rock n roll, beirando a psicodélica porém sem as cordas. A próxima canção é Ego City: “Comprando de quase tudo, do orgulho à cocaína, de dólares a meninas. Passando em frente à réplica da Estátua da Liberdade, que nos prende ao consumo siliconizado e farpado urgente que diz bem-vindo a Ego City”. Amém Calibre 12 é porrada nos ouvidos: “Porque só bandido pobre morre cedo, só bandido pobre morre cedo e nunca é tão cedo pra morrer pobre só, mas é tarde demais para explicar”. Já Mental Combate se apresenta em tom mais moderado, mas de igual crítica social: “Nós intimidados somos as ruas que choraram na maior favela do Brasil, onde o soro caseiro é um abraço de mãe”. Manu Chao entra em cena na faixa Todos de Baixa do mesmo Sombreiro, cantando em espanhol, a música denuncia as ditaduras militares e lembra da lenda de Che Guevara: “Do AI 5 ao 11 de Setembro chileno, do Sendero Luminoso, aos filhos encapuzados de Sandino, depois de tantos planos tramados...”

Flores nas Encostas do Cimento, é uma baita poesia musica pelo O F.UR.TO, em um lirismo sem igual que fala sobre clarear tormentos: “Antes que o samba vire só um ruído de fundo, eu vou tocar mais alto para ouvir meu coração, porque não existe enredo do inferno que me tire a emoção”. Em seguida Cidades, canção que lembra o Hip Hop fala: “Quando a arte se torna maior que a criação, muitos a chamam de obra. Quando a obra se torna maior que o homem, ela se chama cidade. B.Negão vem reforçar a poesia de Yuka em Gente de Lá, música que inicia com dialogo real de traficantes, com áudio captado através de rádio amador nos morros do Rio de Janeiro: “...Comemorei na rua um título com alguém que só tinha a mesma camisa que eu. Contei minha vida pro cara da cerveja ao lado e no sábado encontrei alguém que me conhecia muito bem, mas eu não sabia o nome de quem. Mas há um cheiro de pneu queimado no ar...”

Coisas Tão Simples é a próxima música do disco, e essa narra um estereótipo pesado do local, melodia lindíssima: “Mães de leite lutando para alimentar a sua crença, como páginas de um livro xerocado à força, mas quando o básico do mundo fica raro é que vemos melhor nossas paixões”. Paradoxo, outra canção forte, tanto em letra como na musicalidade, que fala dos paradoxos da vida, principalmente do lado mais desfavorecido:

“Olhos negros de olhar azul ao lado dela

Mãe demais para ser jovem

No país do paradoxo o ilegal

Transmitido ainda não é cultural

Pois a maioria de nós como povo

Ainda possui poucas virtudes para o mal

Pois a maioria de nós como povo

Ainda possui poucas virtudes para o mal

Eu sou um misto de ossadas indigentes

Ao lado do cadáver de Tim Lopes

Com fliperama violento de boteco

Informação para desviciar os olhos

Versus a verdade como um bem caro demais

Narco-deputados e um religioso ex-viciado

Equações de um desastre previsível”

A faixa Caio para Dentro de Mim, mostra os fantasmas de Yuka, em relação ao seu “acidente”, quando o músico, ainda no papel de baterista do O Rappa foi baleado, durante um assalto, o que o deixa paraplégico: “...Só aos poucos me traz a minha lucidez, passado o tempo do baque. Superar, me religar com voz que vem de dentro e grita, que depois de tanto tempo, sangue, sirenes, quartos surdos enfim todas as transformações e é ela que cresce pra eu continuar a ser quem sou que o filme da vida passou e eu fiquei pra ver o fim...”. Sombra Liquida é a faixa que mais gosto, sou suspeito pra falar dela, por isso... Vamos pular esse poema, e lê-lo na integra no final desse artigo!

Marissa Monte aparece para agraciar a música Desterro, que fala em âmbito internacional das diferenças sociais: “Turcos na Alemanha. Um Palestino servindo café em Israel. Afro-asiáticos nas ruas de Seatle. E mesmo assim ainda é difícil Vê um beijo multiracial em Hollywood...O mundo migra e dá de cara com fronteiras, as chaves são as mesmas...”. A Canção Não se Preocupe Comigo, é a mais swingada do álbum, é faixa mais rock n’ roll, não em atitute, mas em estilo musical propriamente dito: “O sal da lágrima fica no gosto que é o costume da língua... em duas falas diferentes. Mães de Acari na praça de Maio e outras tantas por ai...Entre o conflito e a indecisão...entre o conflito e a indecisão...”.

O emblemático álbum, e um dos melhores da música e poesia brasileira, sem exagero nenhum, chega ao fim com a música Verbos a Flor da Pele, que homenageia o MST e traz participação de um dos integrantes do movimento que discurta no final da faixa, fechando assim o disco, a música belíssima que diz: “Latifundiário escravagista ou os dois ao mesmo tempo, de norte a sul como pragas, alastrando a fome que acampa em quilombos ambulantes”.

furto2.png Banda O FURTO

A banda de Yuka é formada pelo próprio maluco que além das letras, foi responsável pelos samplers, percussão eletrônica, baixo sintetizado e programação de bateria, e vocal toca sua bateria eletrônica, do recife veio o conhecido Garnizé (Faces do Subúrbio), na bateria e percussão, e o Jam da Silva na percussão (Orquestra Santa Massa do Dj Dolores). O vocal ficou por conta de Mauricio Pacheco, que também vez guitarra e teclados em Sangueaudiência. Antes de O F.UR.TO, Mauricio Pacheco era membro da banda Mulheres Q Dizem Sim, de samba rock, e foi fundador do Stereo Maracanã.

"E como prometido, vamos ver a poesia de Sombra Liquida:

O suor das costas que se apresenta

Como poesia trêmula de pai pra filho

E quando meu esforço quase não me convence

Privatizando a corrente sanguínea

E ela me persegue mais rápida

Que o nosso entendimento

Tão lenta quanto nosso perdão

Visto de cima, meu bairro é torto e glorioso

E se parece com o que nos transformamos em nossa fuga

Porque a sombra líquida, se te ganha

Te escurece os olhos, faz a honestidade vulnerável

E aí fica fácil nos tornar quem odiamos

Sob o céu vermelho das traçantes

O mesmo passado que nos caça nos salvou

E pouco antes do meu futuro enfatizar em convulsão

Eu entendi que caminhar para o fim do túnel

É ouvir um silêncio sem permissão

Essa é minha busca e minha intenção

Porque lá em casa

Mesmo quando não tinha trabalho"

Só tinha trabalhador

Dados Técnicos do Sangueaudiência:

Gravadora: Sony BMG

Produção: Chico Neves • Marcelo Yuka • Maurício Pacheco

Projeto Gráfico: Não Consta

Duração: 74 min

Gênero: Rock

Idioma: Português

01 Terrorismo Cultural (Marcelo Yuka) 4:44

02 Ego City (Marcelo Yuka) 4:38

03 Amém Calibre 12 (Marcelo Yuka) 4:28

04 Mental Combate (Marcelo Yuka) 5:36

05 Todos Debaixo do Mesmo Sombrero (Marcelo Yuka) 5:21

06 Flores Nas Encostas de Cimento (Marcelo Yuka) 5:06

07 Cidades (Marcelo Yuka) 5:27

08 Gente de Lá (Marcelo Yuka) 4:54

09 Coisas Tão Simples (Marcelo Yuka) 4:08

10 Paradoxo (Marcelo Yuka) 4:17

11 Caio Pra Dentro de Mim (Marcelo Yuka) 4:33

12 Sombra Líquida (Marcelo Yuka) 4:54

13 Desterro (Marcelo Yuka) 4:36

14 Não Se Preocupe Comigo (Marcelo Yuka) 4:44

15 Verbos À Flor da Pele (Marcelo Yuka) 7:32


Jeff Ferreira

Eu sou um misto de ossadas indigentes Ao lado do cadáver de Tim Lopes Com fliperama violento de boteco Informação para desviciar os olhos.
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