superantropia

Até onde podemos chegar?

Wellington Freire

Profissional das Letras. Adora uma boa conversa. A escrita é apenas um plus.

A nau dos insensatos: uma alegoria cada vez mais familiar

A sociedade é um barco indo a pique. E nós, passageiros que rumam a lugar algum, estamos afundando com ele.


Nau dos Insensatos-John Alexander.jpg

Imagine a situação de um navio indo a pique sem que seus ocupantes percebam a catastrófica situação que lentamente se impõe. Esta imagem faz parte de uma alegoria medieval representada das mais distintas formas ao longo dos últimos quinhentos anos: A Nau dos insensatos. Não foram poucos os que (brilhantemente) trouxeram à luz todo o esplendor desta ideia. Destacaria, de memória, pelo menos sete importantes nomes: Sebastian Blant, Katherine Anne Porter e Erasmo de Roterdã na literatura, Hieronymus Bosch e John Alexander nas artes, e Federico Fellini no cinema.

Michel Foucault, em História da Loucura, relembra que na Narrenschiff "herois imaginários, modelos éticos ou tipos sociais, embarcam para uma grande viagem simbólica que lhes traz, senão a fortuna, pelo menos a figura de seus destinos ou suas verdades.” (FOUCAULT. 1972 - p.13). Em E la nave va — batizado como O Navio, em português — de Fellini, a alta classe artística e social italiana embarca em uma viagem de despedida da cantora de ópera Edmea Tetua. Lá, em meio ao caos instaurado pelo ego, pela morte e pela non-grata presença de refugiados sérvios no navio, afloram as facetas mais obscuras e egoísta do ser humano. Ao reproduzir com magistral destreza os aspectos mais perturbadores da individualidade sobre o meio, Fellini expõe a cara mais pobre da existência humana.

Pensar em um ícone concebido ainda no período do medievo, anterior a descoberta da América, em primeira instância poderia nos levar a crer que estamos tratando da representação de uma sociedade completamente distante. A má notícia é que grande parte dos elementos que compõem a Nau ainda se notam em nossa própria realidade. Não é preciso ser expert em psicologia social para perceber nuances de individualismo, avareza e pobreza de espírito presentificadas em gestos e no posicionamento crítico das pessoas. Refiro-me "às pessoas" pela simples razão de a autocrítica efetiva não ser um objetivo facilmente a se alcançar. Desse modo, vale recorrer ao lugar comum dizendo que se não somos a solução, possivelmente integramos parte do problema.

Embarcamos na mesma Nau que os personagens de Fellini e, não com rara frequência, evitamos compartilhar da dor do outro pelo simples fato de sequer conseguirmos carregar nossos fardos pessoais, que tão injustamente a vida nos impõe. Em meio a esta viagem rumo a lugar algum – ou rumo ao fim, se quisermos ser pessimistas – enfrentamos as mais terríveis tempestades, ventos fortes, intempéries naturais e acidentes de percurso. Frequentemente justificamos a ausência de uma postura altruísta pelo simples fato de os demais ocupantes do navio também não se importarem conosco. E assim, preocupados com o porvir, olhamos com obstinação para frente sem nos aperceber que a água já está tocando a cintura e que já não há mais como voltar atrás.


Wellington Freire

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