superantropia

Até onde podemos chegar?

Wellington Freire

Profissional das Letras. Adora uma boa conversa e reflexões pertinentes. A escrita é apenas (mais) uma forma de expandir a sagrada filosofia de buteco nossa de cada dia.

Você sabe o que é o mashup literário?

Dom Casmurro e os discos voadores. Orgulho e preconceito e zumbis. O alienista caçador de mutantes. Escrava Isaura e o vampiro. Senhora, a bruxa. São títulos que lhe parecem familiar?


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Antes de qualquer coisa é preciso dizer que o mashup é uma mescla, uma mistura. É como misturar arroz com feijão, largar um pouco de queijo em cima, umas pitadas de tempero e tacar no forno. Tente pensar nisso aplicado à literatura. Há quem diga que o autor de um mashup literário é como um DJ, já que mistura duas coisas e forma uma terceira. Mas afinal como funciona isso?

O termo não é novo, apesar de sofrer resistência na crítica literária. Deve ter pelo menos cinco anos. A modinha surgiu nos Estados Unidos e prontamente se alastrou por diversos países. Hoje o mashup literário é uma realidade na estante das mais variadas livrarias do mundo, sobretudo nas sessões infanto-juvenis.

Na Espanha sucessos da literatura daquele país (e outros cânones anglófonos) foram transformados em versão “Z” (zombie) através da criativa imaginação dos autores: Dom Quixote “Z” (Házael G.), Sherlock Holmes e os zumbis de Camford (Alberto López Aroca), A ilha do tesouro Z (Alejandro De-Bernardi). Até o clássico venezuelano intitulado Dona Bárbara, a devoradora de homens, novela clássica de Romulo Gallegos se transformou em Dona Bárbara, a devoradora de zumbis. O clássico de Federico García Llorca não conseguiu escapar: recentemente foi publicado A casa de Bernarda Alba zumbi. O astuto Lazarilho de Tormes (personagem fundador de todo um gênero, o das novelas picarescas) ganhou o simples e sugestivo título de LaZarilho.

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Já no Brasil, os clássicos aos quais são obrigados a ler os alunos do ensino fundamental e médio (e que levam os leitores mais experientes ao delírio) também ganharam sua versão fantasiosa.

Dom Casmurro virou Dom Casmurro e os discos voadores (Lúcio Manfredi)

O Alienista em O Alienista caçador de mutantes (Natália Klein)

A Escrava Isaura em A Escrava Isaura e o Vampiro (Jovane Nunes)

Senhora se converteu em Senhora, a bruxa. (Angélica Lopes)

A imaginação destes [re]escritores não tem fim e insere gás no cânone literário brasileiro, sobretudo pela referência que estas atrativas histórias fazem às obras originais. Críticos do mashup literário com frequência sugerem que o leitor deve ter contato diretamente com o clássico, e não com obras ditas “facilitadoras”. Neste caso é preciso pensar (e respeitar) a etapa de leitura (e o amadurecimento intelectual) do leitor dos mashups.

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O ponto positivo fica a cargo da imaginação, que permite recriar e imaginar textos considerados sagrados em outros contextos e mundos (im)possíveis. Em Senhora, a bruxa (de Angélica Lopes), por exemplo, Aurélia Camargo conta com a ajuda das irmãs Blair, experientes bruxas na arte de separar casais. A recepção por parte dos leitores parece bastante calorosa, para comprovar basta consultar blogs, diários de leitura, skoob, e outras plataformas de compartilhamento de informação.

O grande entrave na aceitação dessas obras está diretamente ligado ao aspecto de construção delas, já que em muitos casos pouca coisa resta do texto original. Outro problema é a recepção por parte de multiplicadores (professores, oficineiros, formadores de opinião, etc). Geralmente as críticas são feitas por não-leitores agarrados ao cânone (também muito pouco lido e entendido, por estas mesmas pessoas). Com frequência opiniões são pautadas com base em achismos e concepções bastante tradicionais.

Como tampouco pretendo defender – e muito menos atacar – esta tendência literária, registro aqui um convite: que tal dedicar algumas horas para conhecer estas novas adaptações? O leitor pode se surpreender...


Wellington Freire

Profissional das Letras. Adora uma boa conversa e reflexões pertinentes. A escrita é apenas (mais) uma forma de expandir a sagrada filosofia de buteco nossa de cada dia..
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