sutilezas

Inauguração da vida

Thaísa Rochelle

Graduada em Letras-português, mestranda em Literatura, encontrou na poesia o seu lar. Contato:[email protected]

As dádivas do perdedor

Vencer, entre outras coisas, é ficar em paz consigo mesmo, é saber cair e levantar todos os dias, é querer o bem do outro, é saber sentir de verdade todas as oportunidades que a vida dá, é amar e chorar, e depois amar de novo e chorar outra vez e mesmo assim ter a dádiva de saber amar de novo.


o-vencedor-por-luyse-costa.jpg

Estamos expostos ao perigo de nos moldarmos, de sufocarmos quem somos de verdade para nos ajustar ao estereótipo de “vencedor”, construído pela sociedade. Tudo isso em prol de uma felicidade nem sempre real ou nem sempre aquela que queremos de verdade. Entramos em um círculo vicioso de competição, na escola, na faculdade, no trabalho e até no amor. Precisamos nos mostrar sempre “bons” ou sempre “melhores que alguém”. Não paramos muito para pensar sobre isso, mas o caminho que nos fizeram acreditar que era o mais fácil pode ser o mais doloroso, o mais sem sentido e o menos humano.

Não precisamos estar em eterno estado de competição, sempre atentos para a largada. Quando deixamos que esse sentimento se alastre em nós, corremos o risco de conviver com alguns distúrbios emocionais, como a ansiedade e o cansaço psicológico. Muitas vezes, damos por garantia a nossa própria vida, quem somos, o que queremos, só para entrar fervorosamente em uma corrida desgastante, em que todos os participantes almejam o primeiro lugar. Ainda é possível não seguir o grande rebanho e fazer as coisas porque sentimos que é bom ou porque sentimos que queremos e não porque precisamos ser melhores que outros. Também precisamos lembrar que somos humanos e que podemos “perder”, sempre que acharmos necessário.

Na competição que existe em torno dos relacionamentos amorosos, nos esforçamos sempre em deixar claro as nossas interessantes qualidades, mostrar que somos o melhor partido, que o nosso parceiro (a) fez a melhor escolha, que somos, muitas vezes, mais do que ele merece. E quem não conhece a velha história que nunca é bom demonstrar demais, que nunca devemos nos abrir demais ou dizer antes que o outro um “eu te amo”. Sim, nos sufocamos, colocamos uma armadura de batalha com o intuito de não deixar a dor nos alcançar, perfurar nosso coração e nos fazer sentir vivos, apesar de tudo. Muitos vivem com o peso da armadura até o fim. Não nos doamos, o outro também não se doa, e o placar nunca sai do 0x0, muitas vezes, até chegar o final. Quem é o vencedor de toda essa história então?

Perder pode ser algo genuinamente bonito, a dor é parte de quem somos e de quem um dia ainda iremos ser. Não há nada de errado em sentir algo muito forte por alguém, ainda que ao final, não sejamos retribuídos com a mesma intensidade, não há nada de errado em nos expor, em nos machucarmos, isso nos torna mais humanos e isso nos torna quem somos de verdade, sem fingimentos, sem máscaras, sem armaduras. O que perdemos em lágrimas, ganhamos em experiência, além disso, ter a capacidade de sentir algo grande por outro ser é sorte e, é a melhor parte de sermos humanos.

De vez em quando é importante sentir que estamos em paz com nós mesmos e que agimos conforme o que somos e não conforme um modelo que a sociedade nos impõe, não é necessário estar em vigilância acirrada o tempo todo e não precisamos nos esforçar tanto para parecer melhores do que somos.

É inegável o fato de que competimos desde que somos espermatozoides, mas o modo de produção capitalista usa a competição como mola propulsora e sem nos darmos conta fazemos da competição um estilo de vida ou nos tornamos competidores frios em praticamente todas as áreas de nossa vida.

Muitos sentem inveja daqueles que podem estar em um patamar considerado superior, outros amam de menos ou nem mesmo amam, com medo de sofrer, ferir o orgulho e assim perder a batalha, não percebem que, ao vencer, estão perdendo. Perdendo a vida, perdendo a paz, perdendo o amor e perdendo-se de si mesmo.

Viva, ame o quanto puder, até onde puder, chore, desacelere o ritmo, não precisa correr tanto assim, sem olhar para quem vem atrás, não importa o quanto te falem o contrário. Os sempre vencedores, no sentido do modelo contemporâneo, acabam por trilhar um caminho solitário, competem até com a sua própria sombra e constroem um castelo, e o cercam de grandes muros, para que ninguém, nunca, em hipótese alguma, tome seu posto de rei. Querer nunca perder é bobagem. É preciso perder e é preciso enxergar a vitória nas coisas mais simples da vida. Se colocar a salvo de tudo, inclusive da dor, se preocupar em sempre estar a um passo a frente do outro, não torna alguém melhor, torna alguém escravo, escravo de uma ideologia equivocada de vencedor.

E para aqueles que se assumem perdedores, sem nenhum problema, eu deixo um trecho de uma magnifica música, hino do “perdedor”, da banda Los Hermanos: “Eu que já não quero mais ser um vencedor, levo a vida devagar pra não faltar amor.”.


Thaísa Rochelle

Graduada em Letras-português, mestranda em Literatura, encontrou na poesia o seu lar. Contato:[email protected]
Saiba como escrever na obvious.
version 6/s/recortes// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Thaísa Rochelle