sutilezas

Inauguração da vida

Thaísa Rochelle

Graduada em Letras-português, mestra em Literatura, encontrou na poesia o seu lar. Contato:[email protected]

Tempo, idade e amor sob o olhar de um pescador

A literatura tem mania de transformar em poesia os problemas humanos, de aclarar a nossa visão sobre o cotidiano, sobre as coisas invisíveis que guardamos no peito sem perceber. Refletir sobre a beleza estética de uma obra é fundamental para o nosso crescimento humano, por isso, este artigo pretende discutir, sobretudo, o tempo na visão de um personagem peculiar construído por Mia Couto.


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O livro Mar me quer, de Mia Couto, publicado em 2000, conta a história do velho ex- pescador Zeca e sua paixão por sua Luarmina, uma mulata que nunca se casou ou teve filhos, que já foi muito bonita na sua mocidade, despertava os desejos e atenções de todos os homens, mas que acabou se enclausurando em um convento logo após a morte de sua mãe.

Logo ao início, Zeca nos é apresentado como um personagem quase boêmio, preguiçoso, de alma jovial e de pontos de vista peculiares sobre a vida. É nas conversas e nas histórias contadas por Zeca a Luarmina, que transparece a visão de mundo desse personagem. Pescador desde cedo, o personagem aprendeu sobre o tempo com o próprio mar: “o tempo anda por ondas. A gente tem é que ficar levezinho e sempre apanha boleia numa dessas ondeações.” (p.4). O tempo é um mar, ás vezes calmo, ás vezes turbulento e nós somos um pequeno grão a boiar nesse tempo. É mais fácil boiar e se deixar ser apanhado pela imprevisão das ondas, que nadar e escolher as ondas que se quer apanhar. “Deixar ser levado pelo tempo, aceitar e nadar a onda que vier”, é nisso que Zeca acredita. Com isso, ele leva uma vida leve, sem muitas preocupações com o passado ou com o futuro, na verdade, considerando apenas o agora, o exato momento em que a onda acontece.

O passado é um borrão que não precisa ficar legível e o futuro nunca chega, é assim que o ex- pescador toma o tempo para si e navega em sua onda presente: Luarmina. A mulher rejeita todas as investidas de Zeca por se considerar velha demais para viver um amor, velha demais para apanhar a onda da paixão. Zeca, apenas um pouco mais novo que a vizinha, pensa diferente sobre idade e paixão. A paixão é que determina nosso estágio de vida, “estamos morrendo a partir do momento que não mais nos apaixonamos." Por isso, Zeca procura fugir desse futuro sem gosto através da paixão, sempre lhe negada, por Luarmina. Um jovem pode ser velho e pode estar morrendo por não ter nenhuma paixão. São as paixões que colocamos nas coisas e nas pessoas que medem a idade de nossa alma. E Zeca, como um homem entregue ao mar, sabe muito bem dessas coisas.

Apenas a confusão com o tempo lhe atormenta. Enquanto que Luarmina, aceita mal o seu presente, a sua velhice, Zeca tenta fugir veemente do seu passado, chegando até a desconhecer a saudade: “Saudades, em mim, nunca têm pressa. Demoram tanto que nunca chegam.” (p.7). Isso porque a infância do pescador morreu cedo, junto com seu pai e sua mãe, e sua mocidade junto com a mulher que fora casado e que empurrou de penhasco a baixo. Esses são alguns episódios traumáticos, retratados com muita dificuldade por Zeca, o que lhe fez tentar matar o passado. Tentar matar até com arma de fogo, como acontece no capítulo em que é relatado que o personagem tem prazer em matar gaivotas, aves que gritaram quando sua mulher estava caindo do penhasco. Zeca mata lembranças o tempo todo e nega o que passou em sua vida.

O passado para Zeca é como o futuro: não existe. Ele é cheio de cicatrizes de feridas que nunca foram sentidas. Até que o passado explode do seu corpo, o que culmina com o final da história.

Toda essa confusão do tempo, vivida pelos personagens, é uma das situações mais constantes da vida do homem. Ignorar a história passada, incluindo traumas e desventuras, faz do sujeito um poço de dores não vividas. Fingir que algo nunca existiu, não é a melhor maneira de esquecer. O passado se torna cada vez maior quando escondido, até que um dia ele explode, explode dentro da gente, e as feridas que nunca doeram sangram tanto que fica difícil estancar a dor. É como um armário, se colocamos tudo dentro dele, de qualquer jeito, um dia, quando o abrirmos, vai sair toda a bagunça de lá de dentro e irá dar muito trabalho juntar tudo aquilo.

O melhor é o organizarmos e, com muita calma, o abrirmos de vez em quando, para entendermos o que foi e o que é agora. Viver o agora, como tentava Zeca, consiste também em perdoar o passado e aceitá-lo como parte do que fomos um dia. Luarmina parecia viver em um tempo quase paralelo, dizia que não tinha passado, não vivia o agora e nem falava no futuro, por isso parecia não viver. E por isso mesmo Zeca lhe deu o seguinte conselho uma vez: “Pois, lhe digo, minha Dona. É uma pena a senhora andar por aí fatigando seus olhos pelo mundo. Devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga.” (p. 10). Os sonhos, coisas que ainda vão ser, é algo que impulsiona a vida, e Zeca, mesmo dizendo muitas vezes que o futuro é o agora e que por isso nunca havia de chegar, sabia no fundo que o futuro era outra coisa: é o que queremos um dia, e que é necessário pensá-lo, faz bem, adia ou anula um fim trágico.

Harmonizar o tempo não é tarefa fácil, nem o próprio Zeca consegue, mas talvez o tempo seja mesmo como um mar, nunca conseguimos ver o fim, ás vezes ficamos levinhos e deixamos as ondas nos acertarem, ás vezes nos afogamos no tempo e ás vezes conseguimos voltar para a superfície novamente. Passamos por uma onda grande e furiosa, sonhamos com a próxima que será mansa, mas não esquecemos da ruim pela qual passamos, só lembramos que não estamos mais nela e, nesse exato momento, ficamos felizes, e pegamos uma ou várias paixões, colocamos no barco e saímos pescando.

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Thaísa Rochelle

Graduada em Letras-português, mestra em Literatura, encontrou na poesia o seu lar. Contato:[email protected]
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