sutilezas

Inauguração da vida

Thaísa Rochelle

Graduada em Letras-português, mestranda em Literatura, encontrou na poesia o seu lar. Contato:[email protected]

Os amores inventados

Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal. [...]

(Fernando Pessoa)


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Faz alguns anos que eu vi em algum lugar na internet a frase: “apaixone-se quando estiver pronto, não quando estiver solitário”; alguns atribuem a Caio Fernando de Abreu a autoria dessa frase, outros a escrevem colocando na autoria nomes de outras pessoas, eu não sei ao certo quem a escreveu, mas isso não vem ao caso agora. Na época em que li essa frase não a enxerguei com tanto significado como a enxergo hoje, depois de tantos tumultos, inconstâncias, e depois de ser jogada de um lado para o outro pelo meu próprio coração.

Quando estudei Freud na faculdade eu conheci um mecanismo psicológico chamado projeção. A projeção acontece quando enxergamos nossos próprios ideais, pensamentos, desejos, sonhos e até sentimentos indesejáveis em outras pessoas. Praticamos a projeção rotineiramente, sem nos darmos conta. Quando realmente compreendi esse conceito, percebi que eu era mestra em projeções na área amorosa da vida, foi ai que a frase que citei acima passou também a fazer um sentido enorme para mim.

Solidão e tédio, duas coisas que parecem nos sufocar devagar. Sábado à noite, duas comédias românticas assistidas, comida descongelando no fogão, moletom surrado, e você decide ligar para aquela pessoa, ela tinha um papo desinteressante logo na primeira conversa, mas quem sabe, você precisa falar com alguém. Três semanas depois essa pessoa vira o único ser humano que te entende no mundo e o único que consegue te tirar do fosso da solidão quando você, sem querer, cai nele. Talvez você tenha projetado o que queria momentaneamente naquela pessoa; talvez ela seja incrível, goste de te ouvir, tenha um abraço aconchegante, olhar apaixonado e talvez não, talvez seja um amor inventado, fruto da monotonia e da solidão.

Há quem pense que essa é uma visão extremamente pessimista do amor, mas o amor inventado, a paixão inventada, tem lá suas belezas também. Como já dizia Cazuza, “adoro um amor inventado”. Gostamos, gostamos de achar justamente o que procuramos naquele momento, só há um ponto negativo: a parte em que nos damos conta, ás vezes inconscientemente, que nosso amor está encharcado de projeções, que a pessoa por quem nos apaixonamos não existe de acordo com todas aquelas características pensadas. Descobrimos assim, de repente, como se fosse uma certa epifania, levamos um tombo, os pensamentos se embaralham, um nó é feito. A parte boa é que degustamos a ilusão, que, quando está pré-fabricada, pode ser doce. Com a parte amarga, crescemos. Foi com a parte amarga da ilusão que eu fiquei sabendo sobre amores inventados e, assim, estou escrevendo este texto agora.

Minha fase de amores inventados foi uma montanha russa, uma aventura cega. Seguramente, quero agora me aventurar em amores de verdade, e com a expressão “amores verdadeiros” quero dizer “apaixonar-se por alguém não porque quero me apaixonar, não porque disseram que tenho que me apaixonar, porque me sinto solitária todos os finais de semana. Quero me apaixonar involuntariamente, sem ficar sabendo antecipadamente”. Desejo isso pelo bem do meu coração e pelo bem do coração de quem me “apaixono”. Gostar de alguém porque ele te completa ou porque ele te vira do avesso e você nem sabe, gostar sem querer, sem ter nenhuma razão, em um primeiro momento. Um amor inconsciente, isso é loucura? Acredito que no momento em que a solidão é aceita e vista até de um ângulo positivo, quando somos libertos das amarras sociais, de opiniões alheias, quando aceitamos nossa vida e nossa maneira de estar no mundo, os amores idealizados e cortantes param de aparecer com tanta frequência.

Mas impossível é fugir a vida inteira dos amores inventados, você nunca sabe quando irá encontrar um na próxima esquina, no barzinho em uma sexta de tédio, na internet, mesmo que ele more do outro lado do mundo. Eles são iminentes, a única maneira de sobreviver a eles é encontrar um ganho pessoal ou uma beleza em cada um. Não há como escapar porque a vida inventada e a vida real sempre se esbarram dentro da gente. Parafraseando o poema Tenho tanto sentimento, de Fernando Pessoa, “todos temos duas vidas, uma que é pensada e outra que é vivida, qual a certa e qual a errada, ninguém nos saberá explicar”.


Thaísa Rochelle

Graduada em Letras-português, mestranda em Literatura, encontrou na poesia o seu lar. Contato:[email protected]
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