sutilezas

Inauguração da vida

Thaísa Rochelle

Graduada em Letras-português, mestranda em Literatura, encontrou na poesia o seu lar. Contato:[email protected]

La délicatesse: o encantamento e a singeleza de apaixonar-se

Pense por um momento em todas as definições de amor já ouvidas ou formuladas por você, pense na sensação de estar apaixonado. Agora conheça Nathalie e Markus e pense outra vez.


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Uma "flor que rompe o asfalto", assim é possível definir o amor e todas as suas nuances no mundo no qual vivemos. Essa expressão, marcante no poema A flor e a náusea, de Drummond, não se refere especificamente ao amor, mas pode ser usada muito bem para expressá-lo. O amor é uma flor delicada, mas, geralmente, quando pensamos nesse sentimento, algo de complexo parece nos invadir a mente (e as ideologias dominantes parecem nos incutir mais ainda essa complexidade), porém, o amor é bem mais simples e sutil; como o cheiro misturado das roupas de duas pessoas que se abraçaram forte ou como olhos que sorriem ao encontrar, por puro acaso, alguém que se ama andando pela rua em pleno entardecer de sábado. O terreno íngreme, o asfalto no qual esse amor nasce é a própria sociedade.

Essa visão sobre esse amor é tema do filme francês La délicatesse, com direção de David Foenkinos e Stéphane Foenkinos e lançado no Brasil em maio de 2012, com o título A delicadeza do amor. A adorável atriz francesa Audrey Tautou, dá vida a Nathalie, uma jovem que tem uma vida estável e feliz até o seu marido falecer em um acidente. A partir desse acontecimento, a vida de Nathalie sofre várias mudanças, sobretudo a própria maneira de a personagem encarar a vida e o amor. A jovem, tomada pela melancolia da perda do seu amado, passa a manter uma distância confortável em relação ao amor, procurando não se envolver com nenhum homem. Até que conhece Markus (François Damiens) e começa a viver uma incrível redescoberta do amor, com todas as suas singularidades.

Estranho e súbito, assim é o primeiro beijo entre Markus e Nathalie que, ao contrário do homem, logo de início, não sente nada demais ao beijá-lo. O beijo mais parece apenas um reflexo, um simples impulso de Nathalie, que não beijava alguém há muito tempo e talvez quisesse experimentar outra vez a sensação. As ações se desenrolam e, ao longo do filme, é possível construir a imagem de Markus a partir do ângulo da singularidade. O rapaz parece estranho à primeira vista, é tímido e inquieto, muito educado e com um senso de humor invejável, porém, nem sempre compreendido. É colega de trabalho de Nathalie, mas praticamente invisível para os outros personagens e para o próprio chefe.

A personalidade peculiar de Markus vai se revelando aos poucos para Nathalie, como uma flor com medo ou preguiça de se abrir, e assim também é que o amor vai sendo configurado no filme, como algo sutil, imperceptível a olhos apressados. A delicadeza que ronda o nascimento e a consolidação do amor é delineada no filme de várias maneiras: pelo deslumbramento de Markus ao observar a nuca e os fios de cabelos soltos de Nathalie, em uma noite de relâmpagos, quando a luz desse fenômeno natural evidencia muito mais a nuca da amada, como também a expressão do seu rosto ao olhar para Markus de perfil; pela poeticidade que faz parte da própria personalidade de Markus e da sua maneira de encarar a vida, quase de forma espontânea, infantil e distraída com o próprio mundo.

O primeiro presente que Nathalie recebe de Markus também demonstra toda a delicadeza e simplicidade do sentimento que começara a nascer entre os dois: nada de jóias, chocolates caros ou buquês de flores gigantes, apenas um porta balas com a tampa de formato engraçado, e isso parece ser mais do que suficiente para Nathalie. A palavra “beijo” no final da carta escrita pela personagem também se revela como um detalhe de extrema importância para a sustância do sentimento que se delineia em Markus, já que o rapaz abre um grato sorriso ao ler a palavra e ainda a repete algumas vezes, antes de ser interrompido pelo Garçom.

É através dessas ações que o olhar singelo sobre o amor vai se clarificando no enredo do filme. O amor não é, de início, arrebatador e desvairado, ele se assemelha a chuva fininha no final da tarde, ao pólen de uma flor carregado pelo vento em uma noite escura. Esse amor é tímido, quase imperceptível, ele não “grita por cima dos telhados”, ele “deixa em paz os passarinhos” e acontece bem devagarinho, assim como deseja o eu – lírico do poema Bilhete, de Mário Quintana.

Ao mesmo tempo em que nasce através dos pequenos gestos, esse amor vai sendo julgado e até rejeitado pelos amigos de Nathalie, que veem em Markus um partido inferior, um pouco feio e atrapalhado demais para a moça. Essa parte do filme nos permite refletir sobre a concepção de amor que, muitas vezes, é construída na sociedade e o estereótipo de pessoa que “dizem” que precisamos encontrar para amar. Dessa forma, na sociedade contemporânea, o amor romântico acaba por ser apresentado como algo complicado, idealizado e, por isso, “de difícil acesso.”

A simplicidade e as coisas delicadas rodeiam o amor, ele não precisa ser necessariamente um sentimento arrebatador, que incendeia o peito logo de primeira, nem tampouco algo tão idealizado e inalcançável. Ele também pode brotar, timidamente, das coisas mais sutis, daquelas que passam despercebidas na agitação do cotidiano. Precisamos estar abertos para recebê-lo, assim como precisamos de sensibilidade para percebê-lo. Por isso, às vezes, é necessário nos despirmos de concepções preestabelecidas sobre os sentimentos e sobre pessoas. Arquitetar uma fuga de opiniões limitantes e vivenciar o simples, o delicado, pode nos levar para algo bem maior e para um lugar bem mais longe.

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Thaísa Rochelle

Graduada em Letras-português, mestranda em Literatura, encontrou na poesia o seu lar. Contato:[email protected]
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