sutilezas

Inauguração da vida

Thaísa Rochelle

Graduada em Letras-português, mestra em Literatura, encontrou na poesia o seu lar. Contato:[email protected]

Arte e dor em Vincent Van Gogh

Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra.

Paulo Leminski


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O trecho do poema de Paulo Leminski, escolhido para resumir o teor desse artigo, incita-nos a refletir sobre a relação entre a experiência da dor e a arte. Inúmeros artistas exaltaram o sofrimento em suas obras ou transpuseram a sua dor para aquilo que produziam artisticamente, seja para encontrar uma porta de fuga, uma expiação do seu estado ou simplesmente para provar (para si mesmo e/ou para o mundo) que algo terrivelmente doloroso poderia ser transformado em algo esteticamente belo. Um desses artistas foi Vincent Willem Van Gogh, pintor holandês nascido em 30 de março de 1853. Assim como muitos do mundo da arte, Van Gogh estava bem à frente do seu tempo e suas ideias, traduzidas a partir da pintura, foram incompreendidas.

O que nos chama a atenção na vida e obra de Van Gogh é descobrir como a construção da sua arte está relacionada ao seu modo de ser e pensar sobre a vida, como seus constantes conflitos internos e seu sofrimento psicológico fizeram nascer obras com traços singulares, que trazem uma visão singela sobre a existência. Na infância, o pintor já demonstrava ser uma criança peculiar, tomou para si a responsabilidade de ocupar o lugar do seu irmão que morreu ainda muito jovem, o que deixou em seus pais um grande rastro de melancolia. Sua biografia passa a impressão de que Van Gogh, na sua juventude, se mostra dividido entre cumprir as expectativas do pai (e da sociedade, de forma geral) e seguir seus próprios impulsos para a vida artística. Por isso, o pintor não consegue manter êxito em nenhuma das muitas profissões. Até que, após a morte do seu pai, Van Gogh muda-se para Paris, onde tem contato com diversos pintores impressionistas, sobretudo com Paul Gauguin. A partir daí, ele decide passar seus dias pintando e em certa ocasião escreve para o irmão, Theo: "Eu não quero pintar quadros, eu quero pintar a vida”. E assim Van Gogh sela seus laços com a arte. A partir de pinceladas soltas e cores fortes, ele retratava a forma como sentia a vida. Abaixo, um autorretrato pintado em 1887. É possível perceber um homem ainda jovem, mas com um olhar perdido, aliás, é esse mesmo olhar divagador um traço dos seus muitos autorretratos.

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O "olhar perdido" de Van Gogh pode ilustrar sua confusão mental, mas contrasta com as cores fortes e alegres, usadas na maior parte de suas obras. É como se esperança e pessimismo estivessem travando uma contínua luta dentro de si. O pintor nunca conseguiu o reconhecimento por seu trabalho, tinha dificuldade nas relações sociais e mal conseguia expressar-se por meio de palavras. O pincel era seu companheiro fiel, aquele que conseguia lhe dar a voz, que mostrava quem era ele; inclusive, esse último deve ter sido um dos motivos que levou Van Gogh a pintar tantos autorretratos durante toda a sua vida: tentar conhecer a si mesmo a partir da arte.

A hipersensibilidade de Van Gogh e a relação que queria estabelecer com o mundo nunca foi entendida, o que só fez aumentar suas constantes crises de depressão e ansiedade.No entanto, isso não impediu seu deslumbramento pela vida. Em uma das suas cartas a Theo, o pintor expressa: "Quando sinto uma necessidade de religião, saio à noite para pintar as estrelas.” A sua ligação com as estrelas é perceptível, tornando-se mesmo quase uma religião. A pintura abaixo, Noite estrelada, de 1889, é uma das mais famosas e belas composições do artista. Percebemos que as pinceladas dão a movimentação do céu, movimento este que perpassa toda a sua produção. Quando pinta a natureza, Van Gogh quer assimilar o movimento natural, o efeito do vento, a liberdade da vida. Estrelas_vangogh3.jpg

Enquanto continuava a retratar a natureza de uma forma intimista, suas constantes crises e a falta de um tratamento médico adequado faziam dele um homem solitário e sem respostas para as suas perguntas. Foi nesse terreno íngreme que sua arte floresceu. Apesar de nunca ter sido reconhecido em vida, Van Gogh sabia a importância da arte para o ser humano, reconhecia que ela é sentimento, seja a dor ou alegria, é dela que emana as emoções do âmago humano. Seja a partir do céus estrelados, dos girassóis ou dos campos de trigo, vemos um artista que não deixou que toda a sua dor deturpasse sua maneira sensível de perceber a vida. É a arte como porta de fuga da dor ou talvez o ponto comum que une as duas: o peso de todos os sentimento em um peito apenas, em uma tela só.

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Thaísa Rochelle

Graduada em Letras-português, mestra em Literatura, encontrou na poesia o seu lar. Contato:[email protected]
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