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Taís Kerche

Viciada em ver, interpretar, analisar e tagarelar sobre qualquer manifestação artística, cultural e social. Tagarelar e vivenciar é preciso!

BLACK MIRROR, uma série para tirar um pouco os seus olhos do celular

Esta série nos faz refletir sobre nossas relações com os espelhos negros da tecnologia. Nos faz encarar os nossos vícios e o quanto permitimos que a tecnologia nos invada individualmente ou em sociedade.


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A genial série inglesa BLACK MIRROR, de 2012, criada por Charlie Brooker, que aterrizou no Brasil pela Netflix em 2015, é umas das melhores que já vi. Ela nos mostra onde podemos chegar com tanta tecnologia e como podemos adoecer ainda mais com seus avanços. Sim, adoecer ainda mais, pois já somos uma sociedade doente e hipnotizada pelos ‘espelhos pretos’ das telas que estão por toda parte, em nossas mãos, na parede do nosso quarto, na sala e no trabalho. É só tirar os olhos do celular e observar.

Fora dos formatos tradicionais, Black Mirror tem duas temporadas de três episódios cada e um especial de Natal. São totalmente independentes, ou seja, com histórias distintas. Cada episódio traz realidades frias e duras da influência da tecnologia hoje e no futuro. Extremamente impactantes, eles colocam conflitos do nosso presente em ambientações futuras, ocasionando assim, identificações e reflexões imediatas a respeito de nossa relação com esses espelhos negros.

Dos sete incríveis episódios, considero quatro geniais e impactantes, são eles:

Atenção! Para quem não viu a série, aconselho não ler as próximas linhas. Não há como falar dos episódios sem estragar a descoberta e a surpresa do que eles são em sua totalidade.

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“The National Anthem”, primeiro episódio da primeira temporada, conta um dia aterrorizante na vida do primeiro ministro da Inglaterra Michael Callow. Acordado de madrugada por seus assessores, ele recebe a notícia de que um membro da família real, uma princesa, havia sido sequestrada e que o sequestrador havia disponibilizado no youtube um vídeo da garota desesperada informando o que precisará ser feito para ela ser libertada com vida. O sequestrador não quer dinheiro, quer que Michael Callow faça algo repugnante.

Desesperado, o primeiro ministro pede que isso seja sigiloso e questiona se o vídeo foi imediatamente retirado do youtube, mas mesmo que ele tenha ficado por meros 9 minutos na rede, foram feitos muitos downloads e já estava ultrapassando fronteiras e sendo assistido por todo o globo.

Este episódio vem mostrar a rapidez com que uma notícia pode alcançar todo o globo terrestre e quanto a opinião pública, que também pode ser compilada, analisada e quantificada na mesma velocidade, pode influenciar nas decisões das mais altas cúpulas do poder.

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O segundo episódio da primeira temporada é tão estarrecedor quanto este. “15 Millions Merits” mostra um futuro em que somos totalmente dominados por aplicativos. Eles saem da esfera celular e ganham as paredes do quarto, chegam nas máquinas de comprar comida e fazem parte do programa de geração de energia. Todos pedaladam em bicicletas ergométricas. Quanto mais se pedala, mais pontos são adquiridos. Eles servem como moeda de troca para compra de comida, roupas para o seu avatar e ingressos para participação de programas como “American Idol” e “Got Talent” que prometem sucesso e melhoria de vida, que significa, parar de pedalar.

Aqui, fica claro o quanto é difícil manter, dentro de um sistema, a sua essência, a sua verdade e autenticidade. Tudo isso é engolido de alguma forma pelo todo e mesmo que haja algum tipo de revolta, o sistema trata de absorvê-la e aplaca-la de alguma forma. Vale cada minuto!!

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O terceiro episódio, também da primeira temporada, “The Entire History of You”, mostra a possibilidade de um chip ser instalado atrás de sua orelha e que servirá de arquivo de memórias. Ele filma e grava tudo o que você vê e vivencia. Os olhos passam a ser câmeras de captação das imagens e também telas de visualização. Além disso, as mesmas imagens captadas, podem ser reproduzidas nas telas de TV e computador para todos poderem assistir às suas memórias.

Só que o que foi produzido para facilitar a vida, também pode destruí-la. É o que acontece com o casal protagonista. Ele desconfia que a mulher o está traindo e daí começa o fim do relacionamento. Ele enlouquece de ciúmes. Investiga o passado da mulher e tenta descobrir se há alguma coisa ainda no presente utilizando-se das imagens dele e dela, do terrorismo que é tentar jogar na cara do outro, imagens que podem evidenciar alguma traição. Uma risada, um olhar, um trejeito, tudo é motivo de justificar o ciúme doentio ou realmente a verdade de uma traição.

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E por fim, um dos mais impactantes é o segundo da segunda temporada, “White Bear”, pois ele começa sem que possamos entender exatamente o que se passa com uma mulher que acorda em sua casa, sem saber quem é. O mundo parece estar tomado por uma seita chamada “Urso Branco”, acusada de transformar todas as pessoas em filmadores obsessivos de atrocidades humanas. Se vê por toda parte pessoas filmando o desespero alheio de forma extremamente insensível, a única coisa que importa é filmar, com seus celulares. Ninguém é tocado pelo horror. Até que se descobre o que há por trás de tudo. O desfecho é inimaginável até para os mais criativos.

E assim, para finalizar, podemos dizer que Black Mirror potencializa os poderes da tecnologia em nossas vidas hoje com histórias do amanhã. Vale cada segundo!


Taís Kerche

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