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Taís Kerche

Viciada em ver, interpretar, analisar e tagarelar sobre qualquer manifestação artística, cultural e social. Tagarelar e vivenciar é preciso!

O Casamento, de Nelson Rodrigues, nunca foi tão atual

Na década de 60 do século passado, havia a moral dos bons costumes em plena ditadura militar, o que proibiu a publicação do livro O CASAMENTO, de Nelson Rodrigues, por difamar a "organização familiar". Hoje, ainda há discussões a respeito da mesma organização e, ainda, há um grupo hipócrita querendo promulgar leis em nosso congresso. O Casamento nunca foi tão atual.


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A literatura rodriguiana nunca havia chegado em minhas mãos até há pouco mais de um mês, quando me foi indicada a leitura de O CASAMENTO. Nunca fui atrás das obras de Nelson Rodrigues e não sei explicar o porquê. Fui deixando passar. Com o romance em mãos, devorei as 256 páginas da edição de 1992 da Companhia das Letras. Descobri que o livro foi publicado em setembro de 1966, em plena ditadura militar, que lógico, censurou a obra no mês seguinte, em outubro, com a justificativa de que a história era uma afronta à "organização da família". Só em abril de 1967, o Tribunal Federal de Recursos liberou o livro.

Estamos em 2015 e o tema "organização familiar" continua em pauta. E a hipocrisia de alguns setores da sociedade atual continuam tão latentes quanto a hipocrisia da burguesia da década de 60, descrita por Nelson. Entre uma hipocrisia e outra, se passaram 48 anos. Já o livro, utiliza-se apenas de 48 horas de narrativa para escancarar e dilacerar as verdades e cruezas de uma autêntica família “bem-sucedida” da época.

A personagem principal é Sabino Uchoa Maranhão, dono da Imobiliária Santa Teresinha, casado com Eudóxia e pai de Glorinha, a caçula de quatro meninas, por quem ele tem verdadeira adoração. A maior parte da narrativa se passa na véspera do casamento da caçula, dia em que ele recebe em seu escritório o Dr. Camarinha, ginecologista de sua mulher e filhas, que vem lhe contar um fato que presenciou em seu consultório, o que deixa Sabino atordoado. O Dr. pegou Teófilo, o futuro genro de Sabino, noivo de Glorinha, aos beijos com seu assistente. Seria o noivo da sua princesa homossexual? Contar ou não contar à Glorinha? Será que Glorinha é mesmo a princesinha do papai?

A partir deste momento, instala-se uma avalanche de pensamentos, memórias, revelações e acontecimentos nas vidas de Sabino, Glorinha e Eudóxia e que vão revelando o que há de mais cru da natureza humana, como desejos sexuais dos mais diversos, egoísmos, chantagens, violência, falsidade, taras e os assuntos mais sórdidos que podem se passar dentro e fora das mentes e vidas dessas pessoas tão aparentemente cristãs, tão aparentemente dentro da moral e dos bons costumes.

Essa mesma “moral” e esses mesmos “bons costumes” que lá em Brasília, na câmara dos deputados, estão querendo impor. A mesma hipocrisia que está criando projetos de lei esdrúxulos por parte de um grupo que se acha dono da verdade absoluta. Uma verdade, que na verdade, não existe!

Abaixo, recorto um trecho do momento em que Sabino vai à Igreja, pela segunda vez, consultar o Monsenhor Bernardo e um dos diálogos entre os dois. Este recorte mostra um pouco do conflito interno de Sabino com a verdade, o que deve ser mostrado à sociedade, o que ele realmente é e o que aparenta ser. A culpa por ser diferente do que deveria ser segundo as leis sociais, ser um "homem de bem". Além disso, mostra também o Monsenhor não se importando muito com os sentimento de Sabino e que adora fumar um cigarrinho:

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"(...) Resolvera passar no monsenhor Bernardo. Mas perguntava a si mesmo: "Por que e para quê?". A rigor, a rigor, não tinha nenhum motivo preciso, concreto.

(...) Eis a verdade: não sabia de nada. Sabia apenas que, na véspera do casamento da filha, acordava com um brutal sentimento de culpa. (...)

Salta [do carro]. Fez o caminho por dentro da igreja. Caminhava, de fronte erguida, por entre alas de santos seminus (os santos estavam vestidos, mas ele os imagina seminus). (...)

Caminhava para a sala do monsenhor e pensava que tudo ia se repetir, palavras, mímica e atos.

Monsenhor estendia-lhe as duas mãos (gesto repetido):

- Alguma novidade?

Disse, confuso:

- Propriamente, novidade, não."Falo na pederastia?", pensava Sabino.

Puxa a cadeira e senta-se. O genro, o genro. Começa:

- Vim aqui porque...

O outro interrompe:

- Sentindo alguma coisa?

Fica com o riso parado:

- Por quê?

- Está pálido.

Engole em seco:

- Não, absolutamente. Apenas calor.

Realmente, transpirava. Passou o lenço no rosto e, depois, na nuca. Guardando o lenço, lembrou-se que ainda não almoçara. Monsenhor levanta-se e vai fechar a porta.

Volta, de mão estendida:

- Sabino, me dá outro cigarro.

- Pois não.

Monsenhor suspira:

- Caso sério. Estou fumando pra burro. Engraçado. Te vejo e me dá vontade de fumar.

- Não faça cerimônia. Sabino acende o cigarro. E, então, puxando a primeira tragada, monsenhor nota:

- Sua mão está tremendo. Sabino ergue-se:

- Pois é. Não estou me sentindo bem. Não sei se é o calor. Está quente, hoje.

Na sua angústia, repetiu:

- Quente.

Mas o padre, entretido com o prazer do fumo, disse:

- Esse é o terceiro. Interessante é que o cigarro me dá um sentimento de culpa. - Isso! Isso! O senhor me tirou a palavra da boca. Sentimento de culpa! Exatamente o que eu tenho, exatamente o que eu sinto.

Parou, ofegante. Monsenhor interessou-se:

- Está com sentimento de culpa?

Disse, com euforia:

- Estou.

Monsenhor recostou-se na cadeira:

- Então, ótimo, ótimo. Sabino, só não estamos de quatro, urrando no bosque, porque o sentimento de culpa nos salva. (...)

- Monsenhor, ainda agora, ao vir para cá, eu tive uma vertigem, uma espécie de vertigem. Não almocei ainda.

- Estômago vazio.

Protestou:

- Não, não, e aí é que está. Não foi uma causa física, entende? É o sentimento de culpa.

Com um esgar de choro, faz uma pausa. Está decidido: não falaria na homossexualidade do genro. Poderia falar talvez no final. (...)

O padre ergueu-se, abrindo os braços. Encheu a sala, até o teto, com a sua voz de barítono:

- Nada de ficar de joelhos. Ande, caminhe. Aqui dentro mesmo. Se é confissão, melhor. (...)

Sabino estava dizendo:

- Quando eu fiz anos, no mês passado, o pessoal da imobiliária me deu um presente. Então, o doutor Barone, chefe do nosso Departamento Jurídico, fez um discurso. Bonito, discurso muito bonito. Entre outras coisas, ele disse que eu era um homem de bem. Homem de bem.(...)"

Referência: RODRIGUES, Nelson. O Casamento. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p. 166 a 170.


Taís Kerche

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