tantas palavras

Um olhar aprofundado sobre as coisas e as pessoas do mundo

Bruno Lemos

É imprescindível sempre estar disposto a aprender mais com cada ser humano que cruza nosso caminho, pois a Estrada do Conhecimento é infinita.

A Sociedade dos Bebês

Tratamos neste artigo da questão que nossos adultos não querem crescer – pelo menos grande parte deles. Adiam dia após dia a saída da casa dos pais, bem como a entrada no primeiro emprego, esquivam-se de responsabilidades e só querem saber de curtir a vida. O fenômeno, cada vez mais observado na nossa sociedade, revela-se preocupante.


Em “A Sociedade que não quer crescer – Quando os adultos se negam a ser adultos”, que a Editora Guarda-chuva lançou no Brasil, o jornalista, psicólogo e sociólogo argentino Sergio Sinay aborda este fenômeno social profundo e extenso que já resulta em uma perigosa “pandemia de jovialismo”. Tomando emprestado da filósofa Simone de Beauvoir a expressão “Crianças Infladas”, o autor mostra que está cada dia mais comum hoje se encontrar um número significativo de jovens adultos que prolongam sua adolescência, influenciados pela sociedade, com a tolerância ou até incentivo da família. Para tanto, foi cunhado o termo a "Adultescência" da Geração X.

Esta é também uma triste realidade do nosso Brasil: Pessoas que crescem em tamanho, dirigem automóveis mas nunca amadurecem, nem assumem os compromissos da vida adulta.

No campo das relações amorosas, as mesmas nunca chegam a durar, porque cada um só quer fazer o que lhe dá na cabeça, sem consideração ao outro, num egoísmo tipicamente pueril (só criança faz o que quer na hora que quer). Quantos adultos na carteira de identidade acham natural estar casados e continuar saindo com pessoas do sexo oposto, mesmo que apenas "por amizade". Lembram de sua infância, onde estudaram no mesmo colégio e iam pras mesmas festinhas juntos. Comportam-se o tempo todo como adolescentes, que precisam dos grupinhos, das turmas, pra se sentirem seguros. É "A Maria vai com as outras", dependentes da opinião alheia pra gerir suas vidas.

Quando conseguem algum parceiro ou parceira que lhes tolere as infantilidades, exigem trazer todos os amigos para os círculos íntimos: não querem perder ninguém, todos tem que vir. Em qualquer escolha que façamos na vida, há perdas e ganhos. Sempre. Sempre. É a dualidade íntrínseca a tudo que existe no Universo. É uma Lei da Natureza. Tentar manter estes dois mundos tão distantes, a vida adulta e a vida adolescente, traz imensos sofrimentos tanto para a pessoa infantil quanto para quem quer se relacionar amorosamente com ela. Se algumas pessoas entram na sua vida, outras precisam sair. Ex-namorados, por exemplo. Ou aquela amiga que vive dando em cima de seu marido. Isso é básico na nossa sociedade. Infringir esta regra não-escrita só acarreta torrentes de problemas.

Mas a infantilidade aqui tratada se espraia para outras áreas.

São condutas que ultrapassam a questão de se vestirem inadequadamente, e atingem também a linguagem falada e escrita, normalmente cheia de gírias e erros de português.

São pessoas que não dão um passo sequer sem contarem com a concordância dos pais ou amigos.

Um povo que não lê livros de qualidade (quando os lê!), que acha o hábito da leitura “um saco”, que só consome porcarias literárias referentes a novelas, futebol e a revistas de nu feminino e de carros. Que não sabe criticar com fundamento porque não lê livros, além de aceitar qualquer produto artístico pronto para consumo rápido. Que endeusa astros e estrelas transitórios da TV e do esporte, mas sequer sabe citar o nome de um cientista que criou vacinas contra doenças ou que melhorou a vida da humanidade.

Um público que paga horrores numa calça jeans, num vestido ou num ingresso de teatro, mas acha que “fazer terapia é coisa de doido”. E o curioso neste preconceito é que normalmente quem opta por fazer terapia é quem está mais saudável e amadurecido que a maioria!

São multidões que ouvem o pior lixo musical que já se produziu no país, que lotam shows país afora (enricando produtores e artistas medíocres), que enchem a cara de álcool até caírem no chão mas estão longe de conhecer música de qualidade, posto que ignoram nossos maiores ícones da MPB dos anos 80 e que nunca tiveram o raro privilégio de escutar a obra de Mozart, Beethoven, Chopin, Bach, Vivaldi, Tom Jobim, Dire Straits, Elton John e Billie Holiday.

São pessoas que estão todos os dias na Academia de Ginástica, mas que juram por Deus que é pela saúde, que aparência não importa. E logo em seguida postam dezenas de fotos em que estão “malhando para ficar saudáveis”. Se o Facebook desabilitasse a função de postar fotos, o perfil destas pessoas ficaria sempre vazio, igual a elas.

Estas pessoas “pesam” na sociedade, porque influenciam outras mais com seu modo de viver. Sempre estão exigindo direitos, mas se esquivam dos deveres (vale exemplificar as populações de países totalitários, que acreditam em cada mentira contada por seus Governos, acreditam que sempre devam receber favores sem o necessário esforço pessoal). Têm dificuldades de cumprir horários no trabalho, querem fazer com que o emprego se adapte às suas rotinas (normalmente fazemos o contrário), sempre acham que ganham pouco mas pouco ou nada fazem para melhorarem de vida e de renda.

Elas apresentam dificuldades (ou mesmo incapacidade) de manterem uma conversa mais profunda com interlocutores maduros, até mesmo por falta de conteúdo literário ou de maturidade emocional.

Por outro lado, há muito a indústria do entretenimento eletrônico deixou de ser algo que atrai somente a atenção das crianças. Segundo o Pew Internet & American Life Project, nos EUA, jogam games 53% dos adultos com 18 anos ou mais. Entre os entrevistados na faixa etária 18-29, 81% jogam, enquando que aqueles na casa dos 30-49, 60% é adepta aos games. (Pesquisa realizada no ano de 2013, citada em http://tudoparahomens.com.br/videogame-e-coisa-de-gente-grande/).

No texto “Adolescência prolongada: o tempo que não se quer deixar passar”, os autores Martial de Magalhães Câmara e Amadeu Roselli Cruz afirmam que há necessidade de maior reflexão sobre o assunto para criação de condições de mudanças sociais e psicológicas, que só serão possíveis com a aceitação do fato de que todos temos de envelhecer e morrer, abandonando posições infantis.

Assumir que tudo tem fim, que tudo se transforma com o tempo, que até nosso corpo lindo despenca com a força da gravidade, não é ser pessimista ou eterno arauto de más notícias: é estar finalmente entendendo a dinâmica e o sentido da Vida. Precisamos pagar nossas contas, criarmos nosso filhos, darmos contas de nossos empregos e enfrentarmos as dificuldades inerentes à vida.

Nada de material podemos possuir. Precisamos cumprir nossos papéis e ciclos, tudo passa com o tempo, inclusive nós e nossa tola vontade de sermos eternamente bebês emocionais.

O normal na vida, quando ganhamos experiência, é irmos nos afastando das dores. Tentar evitar a marcha inexorável do amadurecimento e da vida pra evitarmos o sofrer só adia um grave problema.

Sofrimento na vida é inevitável, para todos nós. Mas amadurecer continua sendo opcional.

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