tantas palavras

Um olhar aprofundado sobre as coisas e as pessoas do mundo

Bruno Lemos

É imprescindível sempre estar disposto a aprender mais com cada ser humano que cruza nosso caminho, pois a Estrada do Conhecimento é infinita.

Amores Hollywoodianos

Este artigo fala sobre como a magia do cinema americano influencia
diretamente as pessoas, (mal)acostumando-as cada vez mais a procurar parceiros amorosos
perfeitos, iguais aos personagens dos filmes, e não outros seres humanos comuns, com
qualidades e defeitos.


A cultura americana sempre exerceu forte influência sobre o Brasil, e o cinema é uma excelente e eficaz forma de propagá-la para o resto do mundo.

Ao tempo em que a audiência das novelas brasileiras despenca em queda livre, nosso povo procura formas mais consistentes de conteúdo para consumir. Ninguém mais se contenta com a mocinha frágil, com a vilã puramente má e com os clichês amorosos, tão previsíveis. Bebês trocados na maternidade, Prefeitos corruptos, ninguém aguenta mais esta mesmice. Nossos expectadores exigem hoje personagens com começo, meio e fim, além de tramas bem mais complexas. Isso é muito bom por um lado. Estamos ficando mais politizados e maduros, não nos satisfazem “mais produtos dos mesmos”, queremos “mais e melhor”.

Paradoxalmente, nossas relações interpessoais, nossos namoros e casamentos, ficaram fragilizados, e o time dos solteiros cresceu enormemente em nossa sociedade. E por que? Porque ficamos absurdamente exigentes com os outros. Porque atualmente, não queremos simplesmente um parceiro ou parceira, mas sim alguém que concorra em grau de qualidade com o ator ou a atriz principal daquele filme “blockbuster”, com todas as suas virtudes e com seus mínimos defeitos. Em tempos de TINDER (aplicativo para encontros entre pessoas, onde se mostra a foto de cada uma), é uma tendência inegável no mundo inteiro a de procurarmos “AMORES HOLLYWOODIANOS”, perfeitos, indefectíveis. Nunca, em nenhuma outra época, conhecemos tanta gente diferente. Em contrapartida, nunca descartamos tantos pretendentes pelos mínimos motivos ou defeitos, por ridículas diferenças pessoais. Nunca consumimos tantos romances perfeitos nos cinemas. E nunca estivemos tão sozinhos.

Os americanos devem sentir esta tendência também na pele, porque lá, como em nenhum outro lugar do mundo, o individualismo é avassalador. Acontece que ninguém paga um ingresso de cinema para ver a própria realidade. As pessoas querem FANTASIA, querem algo que as divirta e as faça esquecer a monótona rotina, ainda que momentaneamente. Para isto, o cinema americano conta com roteiristas e diretores talentosíssimos: para criarem personagens tão perfeitos, tão desejados, que passamos a sonhar com eles numa relação real, embora idealizada. Muitas vezes as pessoas preferem estar assistindo filmes ou séries americanas sozinhas em casa, comendo pipoca, do que estarem vivendo relações reais, de carne e osso.

Há uma gigantesca diferença entre as duas realidades.

Em filmes, não há diálogos comuns: todos os diálogos são inteligentes, interessantes, sedutores. Cada personagem fala a seu tempo, ninguém interrompe a fala de ninguém. Todos os atores, mesmo os mais belos, se preparam por longas horas antes de cada cena com maquiadores profissionais (ninguém aparece com cara limpa, de quem acabou de acordar). As roupas, os cabelos, os cenários, tudo conspira para uma obra sedutora. Não há partes chatas no filme, ou de longa tristeza, ou de longo tédio. Pessoas tristes, ou monótonas, ou depressivas, não dão público. Como já dito antes, ninguém vai ao cinema somente pra assistir a rotina da vida. As pessoas querem ver magia, enlevo, idílio.

Acontece, porém, que todas as relações amorosas são permeadas de altos e baixos: de brigas, de pazes, de infantilidade e maturidade, de companheirismo e de raiva, de chatice e monotonia. Ninguém fica com maquiagem ou vestidos de gala 24 horas por dia. A vida real é muito mais complexa do que um filme que dura 2, 3 ou 4 horas apenas. No tempo do filme, todas as questões levantadas devem ser resolvidas. Na vida real do casal, qualquer que seja ele, não há romantismo que dure tanto.

Relembre-se, para tanto, a história daquele casal de vampiros da série “Crepúsculo”, namorados também na vida real. Eram as pessoas mais famosas na face da Terra durante o sucesso do filme, levavam uma vida de conto de fadas. Mas foi só a notícia de que a moça teria traído o rapaz com um diretor de cinema sair nos tablóides que nunca mais se ouviu falar deles. É, certos tipos de problemas amorosos não cabem dentro da magia de Hollywood...

O que é preciso termos em mente é que aqueles personagens idealizados dos filmes resultam de longos ensaios, aliados ao talento espetacular dos atores. Ali, tudo é combinado: cada gesto, cada arqueamento de sobrancelha, cada tom de voz, cada silêncio, cada choro. Na vida real não temos ensaios: toda hora vivemos pra valer, escrevemos nossa história no Livro da Vida, com tinta indelével. Não possuímos script, não sabemos como nossa própria história vai terminar. Por isso, a relação amorosa entre dois seres humanos é a coisa mais rara de se dar certo.

Enfim, o que fazer? Tentar outra escola de dramaturgia? Optar por películas depressivas? Isto fica a cargo do cinéfilo. Há muito conteúdo, e conteúdo de qualidade indiscutível no cinema americano. Se não dá pra evitar sua influência nestas plagas brasileiras, há que se ter em mente, no que se refere a conquistas amorosas, que o nosso parceiro ou parceira, APESAR dos defeitos, pode ser sim uma pessoa maravilhosa e um excelente companheiro ou companheira. Que o nosso “controle de qualidade amorosa” pode sim ser modulado PARA MENOS, de sorte a que possamos encontrar uma PESSOA REAL, de atitudes reais, sem diálogos combinados.

Nada do que se escreva ou que se filme vai superar as infinitas e intrincadas combinações de pessoas e de histórias na vida. Mas se formos espertos, seremos atraídos pelas atitudes naturais de alguém. Alguém que chame a nossa atenção. Com atitudes simples, como nos convidar pra assistir um filme no cinema, por exemplo.WINSLET-DICAPRIO.jpg

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