Raul Duarte

queria viajar.

geração mimimi: uma saída pela arte

Acusados de preguiçosos, vagabundos, distraídos... E somos mesmo! Mas, repara no mundo que recebemos, repara bem. O que restou é transformar em arte, como mostra as bandas Los Hermanos, Apanhador Só, O Terno e outras.


ApanhadorSó.jpg Capa do álbum do Apanhador Só: Antes que tu conte outra

A banda está cercada por barbas e tatuagens, bom sintoma de juventude: o querer ser diferente, parecendo alguém. No palco rodas de bicicletas, brinquedos, ralador de queijos e outras sucatas, disputam o som com as guitarras, violões e baterias. É um show do Apanhador só, banda gaúcha que vem ganhando espaço no indie rock nacional, ou alguma coisa assim. Junto com eles começa a despontar uma nova geração, na música popular brasileira, de alta qualidade.

Breve Brisa mimimi: que mundo é esse???

Ainda era 1865, quando um matemático inglês bizarro, achava que a Era Vitoriana, de motores a vapor e voltas ao mundo, ia depressa demais. Colocou na voz de uma lagarta fumando ópio sua crítica universal: “Quem é você?”, perguntou o projeto de borboleta para uma menininha de oito anos apressada e confusa: Alice. “Não estou bem certa senhora.”, respondeu a garota já cheia de padrões e solenidades; “Quando acordei eu sabia quem eu era, mas mudei tantas vezes desde então”. Se a mesma senhora lagarta fizesse a mesma pergunta em pleno séc. XXI, na Av. Paulista, depois de tanta ciência e psicologia, alguém poderia dar alguma resposta diferente da garotinha mimada?

lagarta alice.jpg Olha que brisa

A geração Y e Z das novas bandas, e como a imprensa e os departamentos de recursos humanos adoram denominar os nascidos na era da internet e informação, são acusados de distraídos, irresponsáveis, superficiais e claro, mimados, para não dizer, vagabundos. Nunca estamos satisfeitos com o trabalho, não nos dedicamos a projetos de longo prazo e sempre estamos conectados. Enfim, preferimos a praia (lógico!) ao escritório.

Antes de nos acusar de preguiçosos, cabe a reflexão: que tipo de mundo herdamos. Ora, a bomba atômica explodiu definitivamente as crenças e certezas da ciência e a “ordem e o progresso” já foram desmascaradas como instrumentos repressivos e padronizantes com seus relógios e pontos, fábricas e prisões, polícias e psiquiatras. Responder a pergunta da lagarta pelo “Penso, logo existo” de Descartes e pelas promessas da razão, tornou-se uma piada patética. Quem sabe o mundo fosse outro se o francês, menos lógico e chato, dissesse um: “crio, logo existo”, “me divirto, logo existo”, “transo, logo existo”.

E junto com a razão, as grandes narrativas se desmancharam no ar. Sem utopias e com a certeza de que a felicidade coletiva foi adiada para séculos posteriores, o futuro torna-se um lugar distante, sem perspectivas ou solidez. Resta um presentismo eterno entre mensagens de textos, conversas vazias e informações inúteis. Além disso, os séculos de guerras bem quentes e frias, de torturas vermelhas e azuis, deixaram na política uma sensação geral de desconfiança, de que não pode e não quer mudar sistema porra nenhuma. A política então, diminuiu-se em causas menores, pontuais e mais eficientes; a reciclagem, a bicicleta, a extinção das baleias.

geraçãoy.jpg Meu deus, quanta besteira

Gilles Deleuze, filósofo francês que também fumava ópio e também quase foi borboleta (suicidou-se por defenestramento), chamava tudo isso de “sociedade de controle”. Nela nossas opções de fuga estão muito bem delimitadas e mesmo no sonho da praia, do mar, do vento, um celular onipresente apita e vibra nos atualizando sobre o e-mail do chefe, ou a última grande tragédia que será esquecida na semana seguinte. A dívida do cartão de crédito, parcelada por toda a vida, garante que não vamos viajar pelo tempo necessário. E, além das “fibras moles do cérebro”, nossos corpos, desiludidos e fotografados, também se moldam com whey protein e academia.

Sem teogonia que nos dê apoio, famintos de seres e situações patéticas, nossa geração segue a deriva num mundo enfastiado que já não crê nos bichos e duvida das coisas, como diria Drummond. Como Alice então, nos resta fugir e tentar construir de uma nova maneira, própria, a resposta daquela velha pergunta feita pelas lagartas da vida, sem acreditar nas velhas promessas pelas quais a sociedade tenta nos guiar.

Mas e a música, e agora José?

“Tô te explicando pra te confundir/ tô te confundindo pra te esclarecer” (Tô- Tom Zé)

tomze.jpg O rosto de um gênio, gravem

O verso de Tom Zé é o modo como se define Rodrigo Amarante do Los Hermanos, que surgiu no final dos anos 90 na esteira de um pop rock romântico, oh ana juliaaaaaaa, mais complexo do que aparentava. Ao longo da década, a banda abandonou as formas do rádio e adotou procedimentos mais erráticos. Com menor definição estrutural, criando efeitos de deriva que José Miguel Wisnik definiu como “canção expandida”, com inesperadas “lagoas sonoras” (passagens de metais, por exemplo, que duram mais de um minuto) e com uma temporalidade finalmente emancipada (ou que quer se emancipar) da urgência do presente, como disse nas baboseiras lá de cima.  

Por exemplo, em “Cara estranho”, música do Ventura de 2005:

Exibe à frente o coração Que não divide com ninguém Tem tudo sempre às suas mãos Mas leva a cruz um pouco além Talhando feito um artesão A imagem de um rapaz de bem (Cara Estranho - Ventura)

O personagem da música necessita se enquadrar, gasta suas energias nisso e ainda falha. O mundo “anda hostil. O mundo todo é hostil” (De Onde Vem a Calma - Los Hermanos). As canções dos Hermanos expressam constantemente um desejo de “ser deixado em paz”, há algo de errado com o mundo externo, mas a solução é só no mundo interno. Tentam recuperar uma calma perdida, “um horizonte distante”:

Junto as mãos ao meu redor, faço o melhor que sou capaz só pra viver em paz (O Vencedor - Los Hermanos)

Isolamento, nostalgia, fuga, descredito no sucesso que vem de fora - do mundo exterior - são os temas majoritários de suas letras. Nessa mesma estética e influências estão as bandas O Terno (2009) e Apanhador Só (2005), para não ficar citando até o infinito. A rebeldia urbana d'O Terno lembra as d'Os Mutantes:

Essa não, ai meu Deus Que tragédia, eu não posso viver sendo igual a ninguém E eu pensei que era inteligente mas de nada eu sei Minha mãe me falou que bonito era eu, mais ninguém Como pode a mãe dele ter dito pra ele também? (Eu Confesso - O Terno, 2014)

A ironia critica a individualidade banal e não a que é própria, que vem de dentro; a sonoridade é psicodélica, particular.Já o hit do último disco do Apanhador Só chama Despirocar. A música descreve a rotina de alguém que trabalha com o que não gosta (para a nova geração Y, que nasceu nos anos 80 e 90, trabalhos que não expressam a subjetividade são torturantes), onde a cidade é hostil, o tempo é desperdiçado e o que resta é despirocar:

Então eu me pergunto, quando sobra algum segundo Em que eu reflito sobre o mundo, se funciona e coisa e tal Concluo que tá preta a situação, pra lá de azeda O leite que ainda sai da teta nem sequer é integral

Desesperado eu penso em gargalhar Mas decido respeitar a minha dor Talvez seja melhor despirocar De vez, talvez, de vez Talvez, de vez (Despirocar – Apanhador Só)

A música é acompanhada por gargalhadas desesperadas e guitarras e percussão carregadas. Mas o que é “despirocar” fica a critério do ouvinte. Assim como nas outras bandas, não há projeto de futuro, o humor é uma vertente para o desespero, no fundo.

Os shows de Acústico-Sucateiro (um acústico do primeiro álbum de 2005) incluíram interferências com objetos como gaiolas, talheres, walkie talkies e um ralador de queijo, criando uma sonoridade particular. O segundo disco, financiado por crowdfunding, arrecadou pouco mais de R$ 55 mil na plataforma Catarse. O álbum, Antes que Tu Conte Outra (2014), recebeu o prêmio de álbum do ano pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), é bom pra cacete.

Outro ponto em comum é que a falta de um projeto de futuro, trouxe a necessidade de uma contemplação e do amor como libertação, a última. São inúmeras as referências a paisagens de vento, mar, oceano, viagens e um romantismo contemplativo.

Do nosso amor A gente é quem sabe, pequena Ah, vai me diz o que é o sufoco que eu te mostro alguém A fim de te acompanhar E se o caso for de ir a praia Eu levo essa casa numa sacola (Último Romance - Los Hermanos, Ventura, 2003)

Isolamento, desilusão com o presente, nostalgia, subjetividade, humor, ironia, contemplação, mimimi, entre outras. São características que podem ser notadas, com muitas particularidades, em Banda do Mar, Mallu Magalhães, Emicída, Céu, Criolo, Tiê, Tulipa Ruiz, Marcelo Jenecci, Cícero, um monte... Uma geração de sujeitos talentosos e melancólicos, que estão à deriva, sem se enquadrar em velhos padrões e tentando se libertar do Império do Agora.

Instituiu o fim da pressa Decretou o deixa pra lá Em seu peito mais amores Sem bandeira e sem fuzil Confortável mãe gentil (Reinação - Apanhador Só 2014)


Raul Duarte

queria viajar. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/artes e ideias// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Raul Duarte