Egydio Terziotti

Eu queria que as pessoas se identificassem com o que eu escrevo, que elas sentissem alguma coisa quando lessem. Eu queria fazer a diferença. Mentira. Eu quero.

O caminho, a verdade e a crise

A crise de refugiados que atinge a Europa é a prova concreta e visível de como o respeito à dignidade humana - e, assim, o cultivo do amor - se tornou algo distante da contemporaneidade. É a prova da crise de valores que afeta cada ser humano habitante deste planeta. (...) É a prova da decadência, não de um sistema, como o capitalista, mas da espécie humana como um todo.


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"Eu sou o caminho, a verdade e a vida" diria um dos profetas mais conhecidos: Jesus Cristo*. Sua presença é marcante na fé cristã, na qual a máxima "Amai a todos como a ti mesmo" é guia da doutrina. Porém, a máxima não precisa necessariamente ser aplicada apenas para e pelos cristãos; todos deveriam segui-la, mas não é o que acontece.

Zygmunt Bauman, em seu livro "Amor Líquido", faz uma reflexão a respeito desse pensamento. Parafraseando o sociólogo: se devo amar a todos como amo a mim mesmo, como ter, antes de tudo, amor próprio? Afinal de contas, não é possível seguir tal corrente de pensamento se o amor próprio não se faz uma constante presente em nossas vidas.

Antes de definir a maneira de se chegar ao amor por si mesmo, acho necessário que se defina o que é, para Bauman, o próprio amor. No mesmo livro em que faz a reflexão a respeito da máxima cristã, o autor diz que "amar é contribuir para o mundo, cada contribuição sendo o traço vivo do eu que ama". Sendo assim, é simples entender o exemplo contido no próprio livro sobre como amar a si mesmo:

Quando sua opinião é considerada relevante no meio em que você está inserido; quando aquilo que você fala é levado em consideração, você se sente importante e, consequentemente, sente que pode contribuir para alguma coisa. Você não se sente um nada e muito menos deslocado, porque o simples fato de sua opinião ser relevante o torna algo mais do que isso. Nesse momento você se sente amado e, quanto mais importante você é para o meio em que está, mais amado se sente e, assim, o amor próprio pode florescer. Isso tudo porque as pessoas que o levam em consideração respeitam aquilo que é dito por você.

Portanto, chega-se a conclusão de que para amar ao próximo como amo a mim mesmo, é necessário que meu próximo seja respeitado. Apenas isso: é necessário respeitar a dignidade humana de meu próximo e, assim, o amarei como amo a mim mesmo. Parece simples e fácil de acontecer, não é?

Infelizmente, isso é, ao que pode-se concluir, o oposto.

Repetem-se ao longo dos anos inúmeros exemplos de como a dignidade humana pode ser atacada. Poucos sabem, mas os campos de concentração surgiram na antiga União Soviética, e um homem em particular parece ter gostado muito da ideia. Adolf Hitler era seu nome; seu apelido, em minha opinião, deveria ser caçador de judeus. Um dos maiores -se não o maior - genocídio da história da humanidade dizimou um enorme contingente populacional de, não apenas judeus, mas negros, deficientes, ciganas e homossexuais.

"Os responsáveis pela miséria humana".

Outro exemplo marcante foram as bombas de Hiroshima e Nagasaki, que dizimaram duas cidades, duas populações, e trouxeram consigo o desenvolvimento de câncer em milhares de pessoas no Japão.

Esses fatos, apesar de distantes - são das recordações da década de 30 e 40, durante a Segunda Grande Guerra - são marcas de como o respeito à dignidade humana e, consequentemente, a falta de amor entre os seres humanos, se faz presente. Agora, para mostrar que esses exemplos não são apenas parte da memória, existe um outro mais atual:

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A crise de refugiados na Europa. Viralizou na internet a imagem de um garoto imigrante - que, inclusive, usei neste post - morto nas areias de uma praia da Turquia. Havia outras fotos, de outros imigrantes em outras praias também. O garoto, contudo, chamou a atenção do mundo para a crueldade presente nas barreiras que visam conter o avanço de imigrantes nas fronteiras europeias. A maior tristeza é que ele teve de morrer para que isso acontecesse.

Algo que me chamou muito a atenção foi a repórter húngara chutando imigrantes que fugiam da polícia e derrubando, com uma rasteira, um senhor, também imigrante, que corria. Esse comportamento, contudo, não parece ser algo individual. No país dessa repórter, ao invés de distribuir pães, policiais resolveram arremessá-los para a multidão de refugiados. Fazendo uma analogia, a cena se assemelhava a um zoológico, onde as pessoas jogam grãos para macacos, elefantes, zebras, girafas... mas os animais, no caso, são os refugiados.

Nesse contexto da imigração, os "invasores" são submetidos a tratamentos sub-humanos - diga-se de passagem, que aniquilam sua dignidade. Ficam atrás de grades para contê-los, quando, não obstante, são obrigados a ficar nas ruas a mercê das condições climáticas e da "bondade" da população local. Isso quando são permitidos dentro do país.

A culpa, entretanto, não é só da Europa, como argumentam alguns. A culpa é de regimes ditatoriais dentro dos países dos imigrantes. A culpa é dos extremistas religiosos que causam o terror ao redor do mundo - esses, também, não têm amor algum para oferecer. A culpa é de todos os países - não só os europeus  - que fecham seus olhos para as condições dessas pessoas. A culpa é de países que financiam a guerra dentro de outros países. A culpa é nossa, por olharmos tudo isso e encararmos como algo distante de nós, como algo que não nos atinge.

A crise de refugiados que atinge o Velho Continente é a prova concreta e visível de como o respeito à dignidade humana - e, assim, o cultivo do amor - se tornou algo distante da contemporaneidade. É a prova da crise de valores que afeta cada ser humano habitante deste planeta. É a prova de como a mudança é necessária e de como muitos choram por essa mudança. É a prova da decadência, não de um sistema, como o capitalista, mas da espécie humana como um todo. Enquanto uma parte de indivíduos viver sob situação decadente, toda a espécie humana assim viverá. Gregório de Matos diria que "O todo sem a parte não é todo". Ou, nas palavras de Ludwig Wittgenstein: o planeta inteiro não pode sofrer tormento maior do que o de uma única alma.

"Eu sou o caminho, a verdade e a vida", disse Jesus Cristo. Isso porque a verdade, implícita, é a máxima "Amai a todos como a ti mesmo" e seu significado. Jesus, dessa forma, vivia a verdade e, assim, deveríamos nós fazer - o caminho. Assim, seria propagada de maneira digna a vida.

Contudo, amar a todos como a si mesmo é muito distante da natureza humana e, assim, é muito difícil de ser seguida. Atente-se para difícil, não impossível. Somos humanos, somos falhos, mas se algo arde dentro de nós quando vemos algo como essa crise é porque temos a vontade de mudar. Devemos nos apoiar nessa vontade. Podemos mudar; já conhecemos o caminho e já sabemos como segui-lo, basta segui-lo.

Talvez a Europa e o mundo precisem, no fim das contas, de um pouco de amor próprio para que, assim, esse amor possa ser transmitido para outras pessoas; outros povos.

* Faço aqui uma ressalva: apesar de Jesus Cristo  - e alguns aspectos da doutrina cristã - terem sido a base para a criação deste texto, ser cristão não faz de você, automaticamente, uma pessoa melhor. Acreditar ou não acreditar em Jesus é uma escolha sua. O que quis ressaltar foi a filosofia presente nos aspectos relativos à doutrina cristã. Ser cristão, mas propagar o ódio faz de você uma das causas da crise de valores do mundo atual. Assim é válido para qualquer outra religião. O que deve ser buscado - por todos! - é o respeito e o zelo pela dignidade pessoal e inerente a cada ser humano. Essa, sim, é a máxima que deveria nortear a vida de cada um.


Egydio Terziotti

Eu queria que as pessoas se identificassem com o que eu escrevo, que elas sentissem alguma coisa quando lessem. Eu queria fazer a diferença. Mentira. Eu quero..
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