Egydio Terziotti

Eu queria que as pessoas se identificassem com o que eu escrevo, que elas sentissem alguma coisa quando lessem. Eu queria fazer a diferença. Mentira. Eu quero.

Quem está morto?

Li, há algum tempo, uma frase que dizia mais ou menos assim (não recordo quem a escreveu): “No mundo de hoje ouve-se muito; mas escuta-se pouco”. Não apenas no mundo de hoje. Sempre foi assim.


nietzsche-friedrich-portrait-1860.gif

Disse o Padre Antônio Vieira – isso mesmo, aquele que estudamos no colégio; barroco ele era – que a culpa de os cristãos se afastarem da Igreja não era dos cristãos em si, mas dos pregadores, que, no caso, não sabiam pregar. Ao sustentar esse argumento, o Padre defende que toda a palavra pode “nascer” quando ouvida pelas pessoas, mas nem sempre frutifica. A alegoria usada por ele diz respeito àquele que semeia o trigo e joga-o em diferentes terrenos a fim de que nasça a planta. No caso, o trigo frutifica apenas em terra boa, mas nasce em qualquer terreno – mesmo que para morrer em seguida.

Assim seriam os corações humanos. Alguns seriam pedras, outros espinhos, porém capazes de assemelhar a palavra recebida pelos pregadores. Dessa forma, caberia aos clérigos uma homilia que “compadecesse”, de certa forma, os corações das pessoas. Diria Antônio Vieira que o que estava a ser pregado deveria condizer com a vida daquele que pregava, pois “(...) as palavras ouvem-se, as obras veem-se; as palavras entram pelos ouvidos, as obras entram pelos olhos, e a nossa alma rende-se muito mais pelos olhos que pelos ouvidos”.

Contudo, estaria o padre correto? Digo, seriam os corações humanos realmente preparados para, ao menos, fazer nascer a palavra recebida? Ou, em outros termos, seríamos nós pessoas que sabem escutar e, assim, semear a palavra? Li, há algum tempo, uma frase que dizia mais ou menos assim (não recordo quem a escreveu): “No mundo de hoje ouve-se muito; mas escuta-se pouco”. Não apenas no mundo de hoje. Sempre foi assim.

Definindo, antes de tudo, a diferença entre ouvir e escutar: ouvir é o processo de “entra por um ouvido e sai pelo outro”, não existe muita atenção envolvida, nem muita importância. Agora, quando se escuta, dá-se atenção, importância e amizade.

Talvez o egocentrismo característico dos tempos modernos tenha corroborado – e muito! – para a disseminação do ouvir em detrimento do escutar. Claro, queremos o tempo todo contar como estamos bem, ou mostrar uma foto, vídeo ou qualquer outra coisa. Queremos ter a atenção, mas não queremos ser atenciosos. Isso tudo seria, de certa forma, até razoável no que se refere ao respeito. Queremos ser escutados, queremos mostrar nossas conquistas. O problema mesmo é quando queremos impor uma opinião. Aí muitas vezes ficamos até mesmo surdos.

Vejo muitos comentários, principalmente no Facebook, mais em sites de notícia ou de opinião, em que as pessoas chegam ao ponto de se ameaçar de morte para que suas opiniões sejam acatadas. As ameaças incluem palavras mais brandas e vão até xingamentos mais ofensivos. Muitas vezes essas pessoas nem se conhecem. E, em todos casos, nenhuma das partes soube escutar.

Muitas vezes, não se sabe como lidar com a opinião do outro – e, consequentemente o outro não será escutado – já que ninguém quer ter a opinião contrariada. Nesse contexto, o discurso de ódio acaba sendo propagado – no caso, são aquelas frases prontas ditas quando não se sabe mais o que discutir, ou aqueles xingamentos , porque, é claro, ao ofender o outro você contribui para que a sua própria opinião seja respeitada. Às vezes, nem a opinião própria existe. Simplesmente se pega o que é dado pelas mídias e isso é “vomitado” nas redes sociais sem qualquer senso crítico e pesquisa prévios. Diria o filósofo, sem nenhum conhecimento a priori.

Opiniões não são impostas, são discutidas. Não existe opinião certa ou opinião errada. Cada um tem a sua. Respeite. Gotthold Lessing diz “Que cada homem diga o que considera verdade, e que a própria verdade seja confiada a Deus”. Em palavras mais cruas, que cada um diga sua opinião, porque não existe uma verdade universal, única para todos. É necessário, contudo, saber dialogar e discutir, e isso, infelizmente, está em falta hoje em dia.

No caso, essa verdade a que Lessing diz respeito estaria em um campo mais metafísico. Uma verdade platônica, pode-se dizer. Mas um filósofo muito conhecido – e, às vezes, muito mal interpretado – diria que “Deus está morto”. Nietzsche é o nome dele e, com essa frase, estava tentando mostrar que a metafísica estava morta. Acabava ali a teoria platônica das ideias. O mundo inteligível foi por água abaixo. Será?

Não acredito que a metafísica esteja morta. Muito pelo contrário. Acredito que ela vive e está entre nós, está em nós. O que morre é a humanidade. A humanidade torna-se defunta e cava sua própria cova. Claro, metaforicamente. Paramos de escutar o outro, não respeitamo-lo. Propagamos o ódio. Onde estão os valores? Onde está o “saber ouvir” que seria inerente a nós? Isolamo-nos do mundo e construímos um reino onde nossa opinião prevalece sobre as outras.

Parem com isso.

Não existem reinos. Não existe espaço para tantos. O que existe é um planeta, que carece de pessoas preparadas para escutar e satura-se de pessoas prontas para tornarem-se surdas e destilarem o ódio.

Deus vive, e a intolerância também. Quem morre somos nós.


Egydio Terziotti

Eu queria que as pessoas se identificassem com o que eu escrevo, que elas sentissem alguma coisa quando lessem. Eu queria fazer a diferença. Mentira. Eu quero..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Egydio Terziotti