Egydio Terziotti

Eu queria que as pessoas se identificassem com o que eu escrevo, que elas sentissem alguma coisa quando lessem. Eu queria fazer a diferença. Mentira. Eu quero.

Sobre aquele amor que está fadado a não durar

Dos bonsais que a gente carrega ao longo da vida.


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Alejandro Zambra. Chileno, 40 anos, escritor. Pra ser sincero, não sei muito da vida dele. Eu sei mesmo do livro que ele escreveu. “Bonsai” é o nome do livro. Não vou dizer que encontrei esse livro em uma busca literária. O que aconteceu foi que eu ouvi uma pessoa indicando esse livro pra outra e captei a mensagem. Sim, eu sou daqueles que ouve conversas alheias quando não têm nada pra fazer e, sim, também sou daqueles que compram livros sem nem ter ideia do que estão comprando.

No caso, a compra dele foi adiada por muito tempo até a Black Friday e, olha, eu não posso dizer que me arrependi. Muito pelo contrário. Esse livro foi a melhor compra “às cegas” que eu já fiz em toda a minha vida. Ouvi o nome, olhei a capa e cliquei em “comprar”. 10 dias depois o tesouro de papel estava em minhas mãos. De leitura rápida, o romance não chega nem a ter 100 páginas e, em cada uma delas, os textos são curtos e rápidos de ler. Uma leitura que se faz em questão de horas, porém uma mensagem que se leva pra vida toda. Bem, o livro foi escrito de tal maneira direta que já é exposta pelo autor desde o início da história:

“No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes da morte dela [...] O resto é literatura”.

Ainda sobre o livro, Emilio Fraia escreveu: “Cortar, podar, até que o romance se torne uma miniatura, um resumo, uma narrativa sobre a qual ainda se possa afirmar “é um romance”, mas que ao mesmo tempo deixe à mostra uma instabilidade, certa insuficiência do gênero e, no limite, da própria literatura. É este o procedimento (alguns dizem jardinagem) que está no centro e na origem de Bonsai...”

A história já começa contando o que acontece no final, mas o autor faz que fiquemos presos na narrativa para saber como esta se deu. No fim das contas, ela morre e ele não morre, mas os dois se separaram muito antes disso. Era uma história de amor fadada a não ter final feliz desde o início. Uma história que se inicia com a literatura e se acaba com a morte. Cada um segue seu caminho e o amor de cada um segue solitário. Os corações ainda se pertencem, mas nem sempre uma história de amor está destinada a seguir em frente.

Todo mundo – no mínimo – já ficou sabendo de alguma história em que as partes se gostavam – se amavam! – mas não podiam, ou não faziam esforço, ou tinham medo, ou qualquer outra coisa, enfim; todo mundo já ficou sabendo de alguma história de pessoas que queriam, mas não entravam em uma relação - ou entravam mas já tinham, praticamente, um prazo de validade. No mínimo. É triste. É a vida. Sempre começa bem; um paraíso: um jardim em plena época de primavera. E sempre acaba mal: os amados não ficam juntos; “não era pra dar certo” geralmente é a resposta. O pior é que é verdade, têm amores que não são feitos pra darem certo. Têm amores que são feitos apenas pra durar um momento, um tempo, mas não pra sempre. Nem todos os amores são eternos. A distopia dos contos de fadas; a vida como ela é.

Não existem motivos específicos pra isso acontecer. Acontece, é assim e ponto final. Um bonsai, como no livro de Alejandro. Uma arvorezinha que vai estar lá, na sua casa, mas que não vai crescer, não vai dar frutos. O bonsai não vai pra frente, mesmo parecendo muito maduro. Ele precisa ser cuidado, contudo, caso contrário fica feio – amargo. Regar com água limpa, trocar a terra. Ou, em outras palavras, guardar o que foi bom e jogar fora o que fez mal. É preciso aceitar que, às vezes, o que a gente queria que virasse árvore vira apenas um bonsai. É bom guardar o bonsai, entretanto, assim ele pode viver com a gente, na nossa memória.

Alguns amores foram feitos apenas pra viver na memória.

É claro que não falo pra desistir na primeira tempestade. Deve-se lutar pelo amor. Se você o sente, lute pra fazê-lo dar frutos. Mas aceite caso não dê. Alguns amores são árvores, outros são bonsais, e insistir em transformar um bonsai em uma árvore só irá trazer desgaste. Não desista do seu amor, mas tenha noção pra não querer transformá-lo em algo que ele não é.

No mais, às vezes, podemos chegar a ter dois, três, quatro ou até mais bonsais junto de nós. Guardemos todos. Cada bonsai traz uma história que fica guardada na memória. E, no fim das contas, nem se comparando a ter um amor, porém bem melhor do que nunca ter tido um sequer, é carregar um sorriso pelas lembranças daqueles que se teve.

Obrigado pelo bonsai, Alejandro.


Egydio Terziotti

Eu queria que as pessoas se identificassem com o que eu escrevo, que elas sentissem alguma coisa quando lessem. Eu queria fazer a diferença. Mentira. Eu quero..
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