Egydio Terziotti

Eu queria que as pessoas se identificassem com o que eu escrevo, que elas sentissem alguma coisa quando lessem. Eu queria fazer a diferença. Mentira. Eu quero.

Vamos falar de amor

Façam um favor, não sejam escravos de suas paixões. Não se contentem com migalhas dadas pela vida. Não se acorrentem. Não se prendam. Amem, mas não brinquem com isso. Amem, mas não deixem com que a pomba voe antes de se alimentar. Amem, mas não deixem com que a pomba se farte.


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Este texto tem por objetivo falar de amor. “Ah! Mas há tantos textos, poemas, cartas, músicas e outros tantos gêneros dedicados a falar deste tópico.” Peço paciência nesse sentido, pois o amor de que irei falar não é o amor idealizado na poesia, nem o amor amaldiçoado de muitos textos, nem o amor lírico das músicas. Irei falar apenas do amor, da forma que deve ser falado. Serei, assim, um cientista que busca imparcialidade em suas pesquisas. É claro que não serei de todo imparcial, afinal de contas, se o fosse, não escreveria textos.

Para exemplificar aquilo em que o amor pode ser dividido, darei o seguinte contexto: uma dupla de jogadores de vôlei de areia. Agora, darei três situações distintas:

Na primeira, os jogadores irão jogar esperando apenas o prêmio que os aguarda no final do torneio e as honrarias da vitória. Dessa forma, os jogadores não desenvolverão um laço entre si e muito menos formarão uma boa equipe, já que estão apenas em busca de algo em troca pelo seu desempenho. Isso pode, ainda, ocasionar conflitos entre ambos, haja vista um dos jogadores poder receber algo que o outro não receberá, o que acarretará em situações, no mínimo, desgastantes. Assim é um dos tipos de amor, aquele em que se ama esperando ser amado de volta. Um amor que necessita de apoio, de encosto. Um amor que não se basta, que não sustenta. Esse tipo de amor decepciona, desgasta e causa conflitos que, em muitos casos, podem levar a consequências totalmente desnecessárias, como o rompimento de um laço que antes existia entre as partes.

Na segunda, um dos jogadores só fará aquilo que deve ser feito caso o outro faça também. Ou seja, o jogador irá corresponder às expectativas geradas pela partida apenas se seu parceiro assim o fizer. Dessa forma, o time terá grandes chances de perder. Assim é o segundo tipo de amar: responde-se com amor àquele que oferece o amor. Não se ama, na verdade, apenas deixa-se levar pelo amor do outro. Isso, no caso daquele que ama realmente, é muito triste, afinal de contas, não se é amado verdadeiramente, se é apenas uma fonte de recebimento de amor e de atenção. Para quem ama alguém desse tipo, há uma grande decepção, já que não se é amado de fato. Por outro lado, aquele que apenas oferece o amor em situações propícias quase nunca sairá decepcionado desse tipo de relação, porque nunca amou de fato a outra pessoa, apenas deu a ela o amor que julgava ser necessário para a situação.

Deram migalhas à pomba, e a pomba comeu-as como se fossem a última refeição de sua vida.

Agora, antes de entrar na terceira situação, desconsiderem o que foi dito a respeito de “amor” até este ponto do texto, ou seja, desconsidere que a primeira e a segunda situação dizem respeito a amar. Na verdade, aquilo que foi referido nessas situações está longe do que é, realmente, o verdadeiro amor. Nas situações acima, não existe sentimento ou, se existe, é algo compulsivo, extremo, violento e que machuca. Nesses casos já citados, o amor deve ser compreendido como uma paixão ou um “gostar”. Aquilo que preferirem. De qualquer maneira, a verdadeira situação daquilo que vem a ser amar será dada a partir de agora.

Na terceira, o que já deve ser esperado por parte de vocês é a completa harmonia entre as partes da equipe. Nesse caso, os jogadores entendem-se e construíram suas táticas com base nas forças de cada um, de modo que um pudesse suprir as fraquezas do outro. Essa equipe não busca jogar apenas para obter sucesso ou não se prende ao que o outro jogador fará. Nesse caso, os jogadores cooperam um com o outro e não se deixam ferir por desavenças que venham a surgir. Assim deve ser amar! Amor constrói-se. Amor é um edifício sólido, construído com base em pessoas que se compreendem. Quando se ama, não apenas escuta-se aquilo que o outro diz, mas sim, entende-se. Muitas vezes, entretanto, confunde-se esse “entende-se” com “aconselha-se”. Quando se é capaz de entender alguém – algo tão em falta nos dias de hoje – já se pode ajudar. De qualquer forma, não tenho por objetivo definir as características sociais e psicológicas do mundo atual, apenas gostaria de passar para vocês, caros leitores, o que, de fato, é amar (pelo menos em minha própria concepção):

Amar é dar à pomba uma fatia inteira do pão que se come, para que ela saiba que alguém não deseja que aquele seja seu último dia próxima a esse alguém.

Façam um favor, não sejam escravos de suas paixões. Não se contentem com migalhas dadas pela vida. Não se acorrentem. Não se prendam. Amem, mas não brinquem com isso. Amem, mas não deixem com que a pomba voe antes de se alimentar. Amem, mas não deixem com que a pomba se farte.

Peço desculpas, pois não consegui ser tão imparcial quanto desejava neste texto. Não consegui cumprir o objetivo que visava, mas consegui definir, talvez de um modo um pouco abstrato, aquilo que vem a ser amor. Infelizmente, muitas vezes encontra-se a definição daquilo que se procura quando já não há mais tempo. Nesse caso, pergunto: enquanto você lê este texto, onde está a pomba que você quer alimentar?


Egydio Terziotti

Eu queria que as pessoas se identificassem com o que eu escrevo, que elas sentissem alguma coisa quando lessem. Eu queria fazer a diferença. Mentira. Eu quero..
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