Egydio Terziotti

Eu queria que as pessoas se identificassem com o que eu escrevo, que elas sentissem alguma coisa quando lessem. Eu queria fazer a diferença. Mentira. Eu quero.

Liberdade, segurança e...medo

Já dizia Drummond: “Provisoriamente não cantaremos o amor, / que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos. / Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços, / não cantaremos o ódio, porque este não existe, / existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro...”


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Assistindo novamente ao filme “V de Vingança” percebi uma discussão – já um pouco velha – que minha cabeça, mais imatura na época, não notou. Antes de entrar nessa discussão, acho válido fazer uma contextualização, porque nem todos devem ter visto a produção, o que é algo extremamente recomendável, ainda mais se já tiver tido uma pré-reflexão sobre o tema que irei desenvolver.

Em resumo, o filme se passa numa Londres futurística, em que seu governo totalitário elimina aqueles considerados perigosos para a sociedade. São esses os opositores políticos, homossexuais e outros grupos, que, segundo o Alto Chanceler – governante dessa Londres – devem ser eliminados para o bem da sociedade.

Criando medo em seus cidadãos, esse Alto Chanceler, cujo nome, no filme, é Adam Sutler, manipula o povo, dando-lhe uma falsa sensação de segurança. Segurança esta que veio em troca da liberdade. A população vivia sob toque de recolher, censura e informações manipuladas para que acreditassem que aquela era a melhor forma de se viver.

Até que, em certo ponto, “V”, a personagem responsável por mudar toda essa situação, aparece e deixa com o povo a vontade de ter mais liberdade. A vontade de ser livre numa cultura em que “livre” é apenas uma palavra abstrata à população.

E eis aqui o debate: os limites para a liberdade e segurança. No filme, a liberdade dá lugar à segurança, para que esta, em seguida, dê novamente o lugar à liberdade. Pra ser sincero, não sei se existe uma medida certa de liberdade e segurança que uma sociedade deva ter para que haja harmonia. Não sei nem se essa medida existe. Mas uma coisa é certa: liberdade demais é um perigo, assim como segurança exacerbada – que, no caso, o filme mostrou poder virar autoritarismo.

Liberdade total é um perigo porque nunca sabemos o que uma pessoa totalmente livre pode fazer. Na verdade, não existe liberdade total. Já somos delimitados pela lei. Existe uma série de ações que não podemos tomar – em tese – e que, se o fizermos, receberemos uma punição. Isso causa medo, já que não queremos ser punidos. E, quando se trata de punição, o medo nos governa. Ainda, somos delimitados pelos costumes de nossa cultura. Por exemplo, aqui no Brasil não comemos cachorros. Caso alguém faça isso, a sociedade, com certeza, não iria encarar tranquilamente, ao passo que, em outras culturas, isso é normal. No caso, também temos medo de ir contra a própria cultura. O medo, novamente, nos governa.

Já dizia Drummond: “Provisoriamente não cantaremos o amor, / que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos. / Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços, / não cantaremos o ódio, porque este não existe, / existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro...”

Medo, nosso pai e companheiro. Pai, porque é nosso protetor. Protege-nos de ir a algum lugar que pode ser perigoso demais, falar com alguém que pode nos causar algum dano ou qualquer outra coisa. Companheiro, porque está sempre ao nosso lado, querendo ou não. E, por isso, muitas vezes acabamos aceitando medidas que prejudicam nossa própria liberdade em troca de mais segurança. Afinal de contas, o diferente causa medo. E o medo nos governa.

Zygmunt Bauman, em seu livro “Amor Líquido”, defende exatamente isso: o diferente amedronta a população. O diferente pode ser uma onda de imigrantes, uma minoria que ganhou voz, um movimento que ganhou força... Ou seja, algo que não tinha visibilidade e que, agora, a tem. Quando isso acontece – o amedrontamento – surgem aqueles grupos de pessoas manipuladoras que defendem a eliminação esse tipo de minoria ou movimento, geralmente usando como pilares a segurança nacional, a integridade da população e a religião da maioria. Argumentos hábeis para manipular, mas que carregam consigo outra realidade: a imposição.

Quando pessoas desse tipo chegam ao poder, fazem de tudo para eliminar a liberdade e visibilidade conquistada por qualquer grupo que seja, deteriorar seus integrantes e fazer que o povo se vire contra essas pessoas. Depois de eliminados – a força - os “perigosos”, os governantes criam na população a falsa sensação de paz e segurança e que, sem eles, isso nunca teria acontecido. Dessa forma, se mantêm no poder. No fim, acaba sendo tudo um jogo de poder e manipulação. E o povo mal percebe que, na verdade, os verdadeiros “perigosos” são aqueles que governam.

Pois bem, vê-se aqui a aparente dicotomia entre liberdade e segurança. Até que medida a segurança é viável? A mesma pergunta é feita à liberdade. Como ser livre rodeado de medo? Como saber o momento em que a segurança se tornou censura e autoritarismo? O que faríamos se fôssemos livres para fazermos o que quiséssemos?

No fim das contas, alguns dirão que qualquer medida é válida quando se trata da segurança. Outros dirão que a liberdade deve ser priorizada acima de tudo. E, ainda, tem aqueles que vão dizer que isso tudo é bobagem. Estão todos errados – principalmente os que dizem ser bobagem -. Não há prioridades e nunca devemos validar quaisquer medidas em prol da segurança. Não sabemos quais os limites certos para se ter liberdade e segurança equilibradas. Isso porque não sabemos os limites do nosso medo. E, até onde deu pra ver, esse medo parece que só aumenta.


Egydio Terziotti

Eu queria que as pessoas se identificassem com o que eu escrevo, que elas sentissem alguma coisa quando lessem. Eu queria fazer a diferença. Mentira. Eu quero..
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