tertúlias

Pequenas reflexões artísticas que cabem num café a três

Mariana Morais

De espírito livre por própria natureza com um tantinho de nostalgia guardada no esboço. Amante dos poetas marginais e da poesia que nasce catada. Escrever é desafio da alma que lubrifica as engrenagens nos rumos que o coração orienta.

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    E o que você vai fazer? (2016-2017)

    A numerologia está aí pra nos dizer que 2017 será ano de ciclo energético a trazer novidades e grandes iniciativas. Respirar aliviado compreendendo que as energias do novo ano serão diferentes e trarão novas oportunidades é bem mais do que desejável, como também necessário e revitalizante, mas é importante saber que os primeiros ventos de 2017 estão levando as mesmas partículas de poeira de uma localização para outra, e que os dragões das placas tectônicas não dançam sabendo que hoje estão em novo ano.

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    O ponto de crescer

    Ninguém tem certeza de absolutamente nada, e nem o absolutamente nada significa algo. Estamos a todo custo apenas lidando com esses monstros dágua que a vida nos dá. O ponto de crescer pode se testemunhar em qualquer experiência. O que ele não pode e nem vai fazer é dizer exatamente quando e como construir a vivência que queremos.

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    A crise dos vinte anos é cinza (mas o amor é verde)

    De certa vez conversando com uma amiga que há muito não via, a história da crise dos vinte anos apareceu e puxamos logo duas cadeiras pra atualizar dos acontecimentos. As discussões giraram em torno de faculdade, falta de dinheiro, estresse. Antes, podiam pintar um papel de parede verde vivo e dizer que aquilo era minha mente. Mas detalhes cotidianos se perderam em meio a um tempo que corre mais feroz, e cada minuto do andar de ponteiros passou a fazer uma diferença danada no fim das contas. Parece até que o verde foi ficando cinza. Apagaram tudo, tudo, tudo.

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    Um movimento sinestésico: O conto de Lygia Fagundes Telles

    A escritora paulista de “Ciranda de Pedra” e “As Meninas”, que ganhara diversos prêmios nacionais e internacionais não era, contudo, pra mim, assaz encantadora em seus livros de prosa; me agradava muito mais os seus tantos livros de contos. Aliás, apesar de gostar demais dos contos de Drummond (que me ganha mais pela poesia), Rubem Alves e Paulo Mendes Campos, Lygia verdadeiramente conquistou o espaço de minha contista preferida – porque sim, nasceu para ser contista, acima de tudo.

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    Complexo moderno sobre a obsessão pela perfeição, gnosticismo, Whiplash e Louis Althusser

    Uma vez li uma frase que dizia “Nenhuma forma da natureza é completamente reta”. Todos os movimentos são curvados; não formam trajeto perfeito, mas um caminhar árduo que conta com muitas quedas e forças naturais contrárias em suspensão. Me parece, contudo, que andamos de mal com o ritmo da natureza e com nossos próprios processos pessoais. A perfeição, historicamente, fez parte das vidas humanas: morrer para atingir o orgasmo da escrita, da pintura, do canto, em forminhas tão abstratas como pudesse o hermetismo tocar uma manta outrora inviolável e expressar um vício insanável da mente que perturba o sono.

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    O velho e o mar da existência

    Se conseguir prestar atenção no movimento das marés, é muito bem claro perceber a maturidade que as águas profundas revelam para o sábio homem. O mar é extenso e profundo como a imensidão da existência. O livro de Ernest Hemingway é quase uma espécie de meditação: a aceitação da própria condição humana, uma grande lucidez sobre a existência e uma homenagem ao estado de sabedoria que a velhice testemunha. É uma carta ao homem de seu potencial de grandeza. “Olhe ao seu redor, a vida respira por todos os lados! Ela te dá tudo! Basta que você queira ver”.

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    "Ela" (2013) - Tudo mora lá dentro (Sobre amor humano a dois)

    Spike Jonze deixa aqui sua contribuição mais singela: o amor mora nos detalhes da vida dividida e mora, sobretudo, lá dentro do ser enquanto ser só. Não se apaixona pelo ser do outro, se apaixona por toda a vida e o universo que se desdobram da convivência. Um relacionamento pode durar um ano, um dia, três meses ou a vida inteira. Costumava dizer aos meus amigos que somos como pequenos pássaros, voamos e pousamos em janelas todos os dias, levando um pouco do que a vida nos tornou e trazendo um tanto daquilo que a vida fez com os outros.

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