tertúlias

Pequenas reflexões artísticas que cabem num café a três

Mariana Morais

De espírito livre por própria natureza com um tantinho de nostalgia guardada no esboço. Amante dos poetas marginais e da poesia que nasce catada. Escrever é desafio da alma que lubrifica as engrenagens nos rumos que o coração orienta.

"Ela" (2013) - Tudo mora lá dentro (Sobre amor humano a dois)

Spike Jonze deixa aqui sua contribuição mais singela: o amor mora nos detalhes da vida dividida e mora, sobretudo, lá dentro do ser enquanto ser só. Não se apaixona pelo ser do outro, se apaixona por toda a vida e o universo que se desdobram da convivência. Um relacionamento pode durar um ano, um dia, três meses ou a vida inteira. Costumava dizer aos meus amigos que somos como pequenos pássaros, voamos e pousamos em janelas todos os dias, levando um pouco do que a vida nos tornou e trazendo um tanto daquilo que a vida fez com os outros.


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“Ela” (Spike Jonze) é um sopro que vem do infinito. Transborda como um rio caminhando seguro e perspicaz para o mar, cumprindo religiosamente sua rota. Observem num instante o fluir do rio: razoável, silencioso e profundo, ele percorre seu ofício que lhe coube por fadário. Assim como tudo o que há na natureza, o rio não reclama maior destaque do que a árvore (guarda uma voz diferente da árvore), nem maior proeza do que o solo; apenas caminha, viajante, até atingir seu objetivo final- abraça o mar, vira um mar-rio, encontra ali sua hora de estrela, testemunhando docemente sua personalidade.

O cinema é capaz de arrancar densas lágrimas dos olhos do mais duro dos homens, talvez porque a arte sirva pra que esgotemos tudo aquilo o que não conseguimos tocar. E o filme “Ela” (2013), em todo o seu conjunto harmônico, consegue liberar partes pequenas de infinitos eus comuns que se desdobram lentamente e se findam, unidos, numa explosão. O filme, à primeira visão, conta a história de Theodore (Joaquin Phoenix), escritor solitário que, entediado com a vida e com o término recente de seu casamento, compra um sistema operacional (“OS”) para computador cujo ganha, gradativamente, personalidade junto ao seu dono. Theodore, contudo, começa a subitamente se apaixonar pelo sistema operacional, passando a cultivar com ele uma relação amorosa controvertida e bastante peculiar.

Na maior parte dos sites onde postam os críticos de cinema mais requisitados (como o Rotten Tomatoes), as críticas se centralizam na ideia de que “Ela” é um filme para falar de tecnologia, superficialidade dos relacionamentos na era moderna e frustrações advindas da confusão da mente humana no mundo virtualizado. Essa é, de fato, a superfície que desarrola a película. O filme dá boas pitadas de crítica quanto à frieza das relações físicas interpessoais (aparecem sobretudo nas cenas em que as pessoas caminham em multidão rumo à estação de metrô, checando seus aparelhos eletrônicos como se estivessem completamente sozinhas), de maneira a fazer recortes tão próximos à realidade que, abruptamente, nos vemos retratados nos modelos comuns das personagens.

Me arrisco a dizer, porém, que muito mais do que uma velha crítica à sociedade ou uma ficção de seres não-humanos que ganham sentimentos (à la Tim Burton em Edward Scissorhands ou Lars and Real girl, de Gillespie), “Ela” é um filme pra falar do amor; e não é sobre o amor romântico ideal perpetuado pela arte literária: aqui se fala no sentido do amor contemporâneo, o amor das pessoas reais, dos universos frágeis que ligam e desligam os indivíduos, do sentido do “eu” e do estar no mundo. Dentro da sociedade líquida baumaniana, o homem respira, e recria conceitos para a infinitude do amor.

Theodore é mais um dos homens comuns que, ao fim do expediente, chegam em casa e se remediam de suas frustações passando horas ao videogame. Ou que fazem sexo virtual (ou casual) para evitarem a difícil realidade que é reconstruir a vida quando se acaba um grande relacionamento. Após muito relutar contra a realidade angustiante da solidão que já não lhe era comum há algum tempo, encontra em um sistema operacional para computadores a fuga da realidade e a procura pelo sentido de seu passar de dias: Samantha (“OS”) ganha personalidade conforme se conflitua com o próprio Theodore, adquirindo sentimentos como um legítimo indivíduo humano.

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Samantha é a tela em branco que significa nossa vida quando temos por volta dos dois anos de idade. Tudo é fantástico e novo. Talvez nenhuma palavra possa traduzir a emoção de uma criança de três anos que descobre uma pequena lagartixa subindo pela parede, ou quando entende que a mistura de três cores dá origem a infinitas possibilidades de tons. Para Samantha, toda e qualquer emoção é fantástica; alegria, contentamento, dor, receio, confusão, tristeza: tudo é tão incrivelmente humano. E ela quer testar todas as partes que puder explorar de Theodore, afinal ele é um mundo inteiro; ela quer tocar cada fração desse universo colorido e absurdamente mágico.

Seu operador, movido pelo ânimo e encantamento do OS pelas coisas mais simples da vida, começa a se envolver intensamente com pequenas práticas: ir à praia, correr na rua de olhos fechados, liberar emoções presas, gritar em meio a uma multidão. Sua vida vai se tornando muito mais do que um cotidiano viciado pelo hábito, de maneira que passa a se permitir cultivar sensações múltiplas, passando por grandes aventuras ao lado do “OS”, e contemplando cada elemento de vida que pudesse brotar do cotidiano. Até que, passado um curto convívio sutil e rotineiro com Samantha, depois de muito protelar pensar sobre o que vinha acontecendo ao seu corpo e mente, Theodore finalmente reconhece: estava apaixonado.

Problemático é pensar que seria possível cultivar sentimentos passionais por um ente virtual sem personalidade criativa. Psicólogos entendem que a febre platônica, o amor idealizado e inatingível por artistas famosos, figuras inanimadas e pessoas com quem nunca se manteve diálogo faz sofrer tanto quanto um amor vivido concretamente, torneado pelas vivências rotineiras. Isso porque a nossa mente não diferencia, para produzir sentimentos, o imaginário do real. Contudo, Theodore não se apaixonara por Samantha. Talvez ninguém se apaixone mesmo assim (quando do momento em que fraquejam as pernas e o coração bate mais forte) pela pessoa em si, mas por uma ideia ou sensação que de alguma maneira se liga à pessoa. Theo se apaixonara pela vida, e por todas as pequenas partículas de amor contidas no céu, na sombra, na água. O movimento corporal e o sorriso de alguém apaixonado é capaz de abraçar o mundo inteiro, de maneira a contagiar qualquer pessoa que esteja por perto. E tudo dentro dele era festa, de maneira que iluminava-lhe o amanhecer.

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Em muitos momentos da película, Theodore lembra-se com frequência da sua ex-mulher e de tudo o que já sentira na vida a dois- cenas suaves que mostram um assistindo o outro enquanto acorda, o pequeno gesto de retirar o cílio caído do rosto do companheiro, as boas risadas em festas de família. Recortes do cotidiano de um casal apaixonado comum. Theodore tenta, vivendo um relacionamento incomum com Samantha, reconstruir o amor, a vida a dois e as boas emoções que são características de um relacionamento.

Todavia, quando encontra sua ex-esposa para assinarem os documentos do divórcio, o ato simbólico da separação liberta lembranças do passado. Esse passado que, apesar de ser “uma roupa que não nos serve mais”, é absolutamente tudo o que temos. E é ele a nossa personalidade; o que somos, o que esperamos. Quando olhamos pra trás é que vemos o porquê de agirmos e de sermos o que, no presente, somos. Mas “o passado é só uma história que contamos a nós mesmos”, diz Samantha: por mais que Proust tenha tentado agarrá-lo, o que nos sobra dele são as pequenas lembranças viciadas pelos desgates das experiências, transformadas naquilo que acreditamos (ou que queremos acreditar).

Theodore fala de seu casamento em uma das passagens: “Nós crescemos juntos. Era emocionante vê-la crescer, nós crescemos e mudamos juntos. Mas essa é a parte difícil, crescer com ela se afastando.” Aí talvez more o grande clímax do filme, e o centro de toda a problemática do amor e de suas implicações no cotidiano. Onde está aquele amor? “O amor acaba”, diria Bukowski, e Paulo Mendes Campos numa de suas obras mais flexíveis. Onde foi, afinal, morar o amor que uniu duas pessoas em uma só, que prometeu mares distantes, que dividiu a cama e o ombro?

Spike Jonze deixa aqui sua contribuição mais singela: o amor mora nos detalhes da vida dividida e mora, sobretudo, lá dentro do ser enquanto ser só. Não se apaixona pelo ser do outro, se apaixona por toda a vida e o universo que se desdobram da convivência. Tudo acontece lá dentro, de maneira que cada palavra ouvida se transforma em realidade de acordo com o que cada um crê, espera e pensa de si próprio: quanto mais solidão a dois, mais compreensão, amor mútuo e respeito à esfera individual do outro- cessam as tentativas de extrair qualquer parte do ser amado, senão aquelas que ele, de bom grado e voluntariamente, queira dar.

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Porém, o amor, grande tema da novela da vida real, é desesperadamente humano. E é, por esse motivo, imperfeito e laborioso. Dividir a vida com alguém, por mais estabilidade emocional e paz interior que se busque, é transmutar para o outro características suas, e encontrar emoções conflituosas que te fazem desafiar suas partes mais íntimas. A visceralidade humana faz-nos projetar partes nossas no parceiro amado. Samantha, ainda sendo um sistema operacional, ganha características de seu operador. Passa a sentir ciúme, passa a sentir medo e insegurança (ou a representação do que seria sentir medo e insegurança). E, como em toda relação, se transforma – a verdade é que estamos a todo momento mudando: muitas vezes não mudamos na mesma direção que quem está ao nosso lado. Como é difícil “mudar sem assustar o outro”, diz Theodore. Como é difícil aceitar que as pessoas são pequenos seres de luz que compartilham momentos conosco e assumem suas novas rotas em direção a si mesmas. E que o único instante de um abraço pode mudar toda a trajetória da vida de alguém.

A produção singela, as atuações impecáveis e sutis, qual um leve movimento aveludado (com destaque para Joaquin Phoenix e a voz de Scarlett Johansson como “Samantha”), além do jogo de cores e tons pastel bastante suaves, trazem em conjunto uma sensação de ternura e nostalgia para o filme. Tal qual o tema sob o qual constrói sua homenagem: o amor é, dentro de tudo aquilo o que pode ocupar espaço, um mar róseo de descanso e alento. “Ela” é um filme para, sobretudo, sentir com o corpo inteiro.

A impermanência, tema das discussões cotidianas e dos consultórios de psicoterapia, é imanente ao homem. Nada é, tudo apenas está – até mesmo as relações. Um relacionamento pode durar um ano, um dia, três meses ou a vida inteira. Mas absolutamente tudo está em movimento, e a cada momento as experiências transformam tudo aquilo o que queremos, acreditamos e sentimos. Costumava dizer aos meus amigos em conversas de bar que somos como pequenos pássaros, voamos e pousamos em janelas todos os dias, levando um pouco do que a vida nos tornou e trazendo um tanto daquilo que a vida fez com os outros. A verdade é que vivemos uma grande ciranda humana: somos frágeis, temos medos, partilhamos nossos pequenos eus que se esforçam para serem aceitos.

Mas, sobretudo, somos um: o que somos é resultado de todos os pequenos universos humanos que passaram por nosso caminho, e o amor é apenas o desenho real da confusão e da intensa vontade de extrair beleza da vida que guardamos no íntimo. Tudo mora lá dentro.

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Mariana Morais

De espírito livre por própria natureza com um tantinho de nostalgia guardada no esboço. Amante dos poetas marginais e da poesia que nasce catada. Escrever é desafio da alma que lubrifica as engrenagens nos rumos que o coração orienta..
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