tertúlias

Pequenas reflexões artísticas que cabem num café a três

Mariana Morais

De espírito livre por própria natureza com um tantinho de nostalgia guardada no esboço. Amante dos poetas marginais e da poesia que nasce catada. Escrever é desafio da alma que lubrifica as engrenagens nos rumos que o coração orienta.

O velho e o mar da existência

Se conseguir prestar atenção no movimento das marés, é muito bem claro perceber a maturidade que as águas profundas revelam para o sábio homem. O mar é extenso e profundo como a imensidão da existência. O livro de Ernest Hemingway é quase uma espécie de meditação: a aceitação da própria condição humana, uma grande lucidez sobre a existência e uma homenagem ao estado de sabedoria que a velhice testemunha. É uma carta ao homem de seu potencial de grandeza. “Olhe ao seu redor, a vida respira por todos os lados! Ela te dá tudo! Basta que você queira ver”.


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Desde criança nutro uma relação bastante íntima com o mar. Quando nas férias, percorria a areia da praia contemplando-o sob suas mais diversas facetas: maré cheia/maré baixa; sutil/ violento; ardente/resignado. O mar segue a rotina das horas: religioso e paciente, tal como a vida daqueles que já viveram longos anos.

Há pouco mais de um mês meu avô faleceu, e a morte traz consigo a necessária pausa no cotidiano para meditar sobre o que todo mundo anda fazendo. Nesses bolsões de reflexão, um deles resgatou memórias muito bonitas de como ele costumava ser, (no decurso da vida e especialmente perto de sua morte) sempre bastante desperto e sereno com a existência. Teimamos em achar que a velhice retira-nos a percepção sobre o cotidiano que nos toca, mas talvez a terceira idade traga-nos o mais sublime estado de consciência, orçando a loucura ou a demência quando a dor da sabedoria não suporta a realidade.

Como lidar com a aproximação da morte – o mais estranho e intangível dos mistérios da humanidade? Quão difícil deve ser ver seus amigos próximos e familiares coevos irem embora, darem seu último adeus. Me perguntava se vovô, aos noventa anos, não passava cada um de seus dias como se fosse o último, sempre com um grande respeito pelo brilho de cada momento que pudesse restar do cotidiano.

A velhice traz a lucidez de prestar-se atenção às coisas mais simples. Quando assim, avôs conseguem ver mudanças nos netos que mais ninguém vê. Não têm pudor em fazer comentários vexaminosos em momentos delicados. Silenciam com suas próprias inquietações e se voltam com muita frequência a pensamentos de seu tempo.

post-3576-1127798302_thumb.jpg "O velho e o mar" (1999), Alexander Petrov

O que mais me encanta, porém, na velhice (e talvez tenha encantado Hemingway na obra que lhe rendeu tanto reconhecimento) é o profundo respeito que suas testemunhas nutrem pelo mundo, o tempo e a natureza com sua lei inefável. Já não há mais momento para as preocupações fúteis egocêntricas da juventude. Desassossegos com estética, beleza e status quo - parecem ser estes comportamentos tão inúteis! Anoitece e ninguém vê a lua aparecer com seu brilho de farol. O sol dá com a mão todos os dias e a pino quase implora por nossa reverência.

Da mesma forma, a natureza respira e nos dá a oportunidade de aprender com cada desabrochar de flor, enquanto quedamos mais preocupados com qualquer outra frustração cotidiana. Os velhos anciãos, caciques da sabedoria comum, entendem muito bem que os ciclos naturais reclamam por paciência. Nesse diapasão nasce Santiago, no romance do grande Ernest Hemingway “O velho e o mar” (1952) – um solitário consistente e cônscio. Um grande entendedor do ritmo vital do universo. Ou um velho.

Se conseguir prestar atenção no movimento das marés e no quebrar das ondas do oceano, é muito bem claro perceber a maturidade que as águas profundas revelam para o sábio homem. O mar é extenso e profundo como a imensidão da existência. Todos os dias ele se contrai e relaxa, em movimentos circulares como um respirar, subordinando à sua graça a pluralidade de seres e vidas em potencial que lá se reproduzem. E cada um daqueles pequenos e grandes seres marinhos tem papel crucial para a sobrevivência do ecossistema; cada parte componente da vida marinha, assim como ocorre na vida terrestre, contribui com seus instrumentos próprios para o todo.

Santiago sabia disso: o velho pescador dos mares límpidos caribenhos conhecia muito bem seu antigo amigo de estrada; pescava sozinho em seu barco e já houvera feito muitas viagens pelos além-mares. Havia oitenta e quatro dias, porém, que não conseguia pescar sequer um peixe, o que levou os demais pescadores a assegurarem-se de que o velho tornara-se salao (terrível azarento). Havia um garoto na Esplanada que costumava ajudar Santiago nas pescarias, mas após os primeiros quarenta dias sem qualquer resultado, os pais de Manolin transferiram-no para um barco de sorte. No entanto, o garoto sempre se prostrou fiel ao seu velho. O brilho nos olhos da pouca idade se funde à experiência da vetustez - a fé e a esperança dos dois extremos, uma mistura de ingenuidade e encanto pela vida que só cabe nos pólos.

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Depois de oitenta e quatro dias, o velho se põe sozinho a embarcar em alto mar, com o intuito de apanhar um bom peixe. E aí começa a aventura que percorre todo o livro: em certo ponto da pescaria, Santiago consegue apanhar um bom espadarte com sua isca, um peixe fabuloso de dimensões extraordinárias, de maneira que o próprio barco e os instrumentos usados por ele não conseguiam suportar seu peso com facilidade. Santiago, apesar de seu desgaste físico natural, dá uma lição de magnitude honrosa a todos aqueles que possuem contato com a obra: permanece por dias no mar, resistindo sob a força das ondas, do frio, da fome e de mãos machucadas pelas cortantes linhas de pesca, até que doma o espadarte e une o animal à embarcação, rebocando-o entre o mar até a costa.

Quando finalmente o velho consegue o feito e segue viagem para a Esplanada, os mais terríveis fatos se apresentam à sua visão. Hemingway consegue, com bastante precisão, descrever nessas linhas o que talvez mais doa e emocione aqueles que apreciam o livro. Tubarões, através de diversos ataques, vêm a devorar o espadarte até que não reste sequer um pedaço de sua carne. O velho luta com cada um dos tubarões, afastando-os de si com a coragem de um moço e a resistência de um guerreiro e consegue, após muito penar, chegar em casa. No outro dia, os pescadores da vila vêem o esqueleto do animal junto ao barco do velho: Santiago é um herói – disto não resta dúvida.

Mas os leitores do texto de Hemingway certamente contam ainda com uma segunda tomada de reflexão além daquela da persistência do velho em meio à dificuldade. Há uma linha que perpassa toda a história que deve ser observada, porque talvez seja esta a grande lição que o escritor norteamericano autor de “Por quem os sinos dobram” quis deixar. Em nenhum momento Santiago pôs-se a reclamar ou demonizar o mar e a vida. Santiago nutre com o mar uma relação fraternal – arriscaria dizer que são como um só, lutando com suas armas próprias, como tudo o que há na natureza. “Gostaria de poder alimentar o peixe”, diz o velho. “Ele é como se fosse meu irmão. Mas tenho que matá-lo e ganhar forças para fazê-lo”.

É muito claro o respeito que Santiago nutre pela natureza, ao mesmo tempo em que respeita sua condição e entende que precisa do peixe para sobrevivência. O ciclo da vida e da cadeia alimentar se completam como uma grande sinfonia: Amo-te peixe, mas a vida quer assim. Amo-te, mas o tempo dirá o que virá. Amo-te vida, mas a morte é meu fiel destino.

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O livro de Ernest Hemingway é quase uma espécie de meditação: a aceitação da própria condição humana, uma grande lucidez sobre a existência e uma homenagem ao estado de sabedoria que a velhice testemunha. É uma carta ao homem de seu potencial de grandeza. “Olhe ao seu redor, a vida respira por todos os lados! Ela te dá tudo! Basta que você queira ver”.

Um dia, na última festa de aniversário de vovô antes de partir para a eternidade, ele me disse que estava feliz pois ainda conseguia cantar e faria uma apresentação no palco. Lembro que filmamos o pequeno show com muita efervescência, pois nos era tão tocante enxergar a alegria juvenil que brotava dos olhos de um nonagenário. Santiago, assim como ele, transmite a ternura da persistência e do amor à vida. “Tudo o que nele existia era velho, com exceção dos olhos que eram da cor do mar, alegres e indomáveis”.

A grandeza do livro de Ernest Hemingway é tamanha que influenciou, pelas várias gerações, escritores e artistas de diversos gêneros. Gabriel García Marquez costumava dizer que Hemingway fora o escritor que mais lhe houvera influenciado, transmitindo-lhe “a disciplina da ciência da escrita”. Assim como os demais expoentes da chamada “Geração Perdida”, o escritor deixou um legado de inspiração imensa para as novas criações. A animação do russo Alexander Petrov de mesmo nome, vencedora do Oscar de Melhor Curta de Animação no ano 2000 e do Festival Internacional de Cinema de Animação de Annecy traz, em pinturas a óleo sequenciais, uma verdadeira louvação à obra de grande potencial artístico.

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O velho e o mar é, antes de tudo, o convite à vida. A vida, sob todas as formas. Perdemos muito tempo lamentando as frustrações dos sonhos não realizados, mal sabendo que durante esse mesmo tempo alguém se preocupou em laçar a isca no anzol depois de tentar pescar por oitenta e quatro vezes.

Hemingway nos convida a viver e a conhecer nossa própria força, capaz de suportar o peso da existência com glória e produzir uma história fantástica – afinal, também somos cocriadores da nossa realidade, e a felicidade é só uma maneira de enxergar o mundo. “Lança o barco contra o mar, venha o vento que houver... E, se virar, nada.”


Mariana Morais

De espírito livre por própria natureza com um tantinho de nostalgia guardada no esboço. Amante dos poetas marginais e da poesia que nasce catada. Escrever é desafio da alma que lubrifica as engrenagens nos rumos que o coração orienta..
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