the binóculo review

É só mais um livro na estante, é livro pra caramba. É só mais um disco também.

Ligia Gielamo Oliveira

Jornalista, redatora e revisora que trabalha com comunicação institucional, estuda marketing digital na FGV e acha que falta espaço para pelo menos uns dez mil livros na estante. É autora do blog "Comecei a ler um livro e nunca mais tive descanso". http://comeceialerumlivro.wordpress.com.

A noite em que Billie Holiday ergueu a voz - e a mão - no Café Society

Billie Holiday, para alguns, é sinônimo de música romântica. Ou apenas de mais uma história entre as lendas do jazz. A narração de uma briga entre a cantora e um homem depois de um show no café Society mostra como Lay Day foi muito mais do que romance e tragédia.


holiday-billie-5377d1e3426ff.jpg

Associar Billie Holiday com romance é inevitável. A voz um tanto rouca, sensual e profunda de canções como “Don’t be late”, “Forget if you can”, “Love me or leave me” alimentam a aura sentimental, com letras que evocam a saudade, o desencontro e o encontro, a alegria e a dor dos relacionamentos. O amor, aquele mesmo amor que é exaustivamente cantado nas letras de hoje e o será nas letras de amanhã, era na verdade um dos temas preferidos de Lady Day, nome que recebeu do saxofonista Lester Young.

Não muito afeita a mergulhos literários profundos, sua leitura preferida eram romances simples e baratos sobre homens e mulheres que acabavam se dando bem na vida e no amor. Romances próximos aos memoráveis Sabrina e Julia que ainda perduram em bancas de jornal, fáceis, cuja única pretensão é reavivar a crença em príncipes encantados e fazer sonhar as mulheres. A parte inicial de sua obra, que pode ser conferida no álbum The Quintessential Billie Holiday Vol. 1 trazendo faixas por ela interpretadas entre 1933 e 1935, é mais do que romântica e sensual: é alegre e viva; contrastante com uma época de intensa segregação racial e com os anos mal saídos da Grande Depressão. Contrasta, afinal, com a garota por trás daquela voz.

Apenas três anos antes, em 1930, sob ameaça de ver a si e a mãe despejadas de casa por falta de pagamento, a menina de 15 anos havia se tornado cantora praticamente por acidente, oferecendo­se para cantar num bar do Harlem. Eleanora Fagan Gough ­ seu nome de batismo ­ é por uns lembrada com base no caráter romântico de boa parte de suas canções. Para outros, a prostituição na adolescência, o vício em heroína, depois em álcool, a doença e finalmente sua morte em 1959, trazem à memória uma carreira de letras e contornos com perfume mais melancólico. Entretanto, a despeito dos romances água com açúcar que lia, das canções líricas e dramáticas que cantava e de um anunciado triste fim, é possível encontrar nessa história muito mais do que foi, como pensava e como agia (e reagia!) Billie Holiday. Há um episódio, em especial, que traz à tona uma persona combativa e defensora de seu espaço, honra, identidade e liberdade de gênero e raça. Houve uma noite em que, após um show, o Café Society de Nova York viu Lady Day quase abrir a cabeça de um homem com uma cadeira. Quem presenciou e conta a cena, descrita em “Strange Fruit ­ Billie Holiday e a biografia de uma canção”, de David Margolick, foi a compositora Irene Wilson. Ela descreve:

“E lá veio ela saindo (do Café Society), gritando: ‘Renie, eu tentei matar ele, tentei matar, eu tentei...’. E eu falei: ‘O que foi, Lady?’ E ela me contou que tinha um sujeito, um branco da Georgia, sabe? Um daqueles crackers da Georgia, que estava sentado na primeira fila bebendo enquanto ela cantava ‘Strange Fruit’. E quando a Lady estava saindo da boate, ele gritou: ‘Venha cá, Billie”. Ela foi, pensando que ele ia pagar uma bebida para ela, mas ele disse: ‘Vou te mostrar um ‘fruto estranho’, e… bom, digamos que ele fez um desenho muito indecente no guardanapo. E ela pegou a cadeira e bateu na cabeça dele, e antes da coisa acabar, ela arrebentou com ele, ficou maluca. É sério, ela estava acabando com o sujeito. O dono e o segurança do Café Society falaram: ‘Pode ir, Lady. A gente cuida dele”, e levaram ele pra fora, carregado pelas orelhas.”

Strange Fruit é uma canção poética de protesto contra o racismo. É com ela que Holiday levava aos palcos o horror da segregação e dos linchamentos no Sul dos Estados Unidos. Apenas para dar uma amostra de como Strange Fruit mexia com as pessoas, à época muitas rádios se recusaram a tocá-la. Em apresentações ao vivo, não era raro que pessoas se levantassem durante sua execução.

Billie Holiday - Strange Fruit from seres on Vimeo.

Talvez seja esta a parte mais interessante e viva de se aprofundar em biografias, a oportunidade de explorar facetas que ao mesmo tempo em que humanizam o ídolo, o mostram como um agente de transformação em épocas mais do que difíceis ­ pois já se viveu neste mundo sob desígnios ainda mais inclementes. E a história daquela noite no Café Society, um pequeno recorte no tempo de uma das maiores lendas do jazz, mostra como a mesma voz que canta o romance e vive a tragédia pessoal ­ se ergue e reage, de cadeira em punho, contra preconceitos do tipo que ainda hoje estão à espreita, mas que desde o início encontraram quem os encarasse e combatesse.

Strange Fruit

Southern trees bear a strange fruit

Blood on the leaves and blood at the root

Black bodies swinging in the southern breeze

Strange fruit hanging from the poplar trees

Pastoral scene of the gallant south

The bulging eyes and the twisted mouth

Scent of magnolias, sweet and fresh

Then the sudden smell of burning flesh

Here is fruit for the crows to pluck

For the rain to gather, for the wind to suck

For the sun to rot, for the trees to drop

Here is a strange and bitter crop


Ligia Gielamo Oliveira

Jornalista, redatora e revisora que trabalha com comunicação institucional, estuda marketing digital na FGV e acha que falta espaço para pelo menos uns dez mil livros na estante. É autora do blog "Comecei a ler um livro e nunca mais tive descanso". http://comeceialerumlivro.wordpress.com..
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 1/s/musica// @destaque, @hplounge, @hp, @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Ligia Gielamo Oliveira