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Péricles Carvalho

Mestre em Jornalismo, Mídia e Globalização pelas universidades de Aarhus (Dinamarca) e Swansea (Reino Unido). Escreve para libertar demônios e encontrar sentido à vida. Quer ler mais textos? Acesse: www.periclescarvalho.com

Descobrir-se gay em um meio evangélico

Por muito tempo, a vergonha e o julgamento fizeram deste caminho de aceitação uma via crucis solitária. Neste tempo em que vivemos, é preciso apagar, de uma vez por todas, a fogueira da inquisição que ainda arde e destrói psicologicamente jovens com potencial e uma vida toda pela frente. É urgente a revisão de dogmas, a aceitação e o amor ao próximo.


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Situação #1: Aos seis anos de idade, na Escola Dominical de uma Igreja Presbiteriana, escuta pela primeira vez sobre o pecado que levou Deus a destruir Sodoma e Gomorra. A educação religiosa tão presente na igreja e no colégio (também presbiteriano) esclarecia pela primeira vez uma palavra que não conhecia até então: abominação. A palavra, que soava como algo terrível aos ouvidos, veio acompanhada do termo “homossexualismo”. Naquele momento mesmo sem entender muito bem, já havia conectado os pontos: a ‘prática’ gay é abominação, deturpação do sentido maior para o qual o ser humano foi criado. Pecado passível de uma destruição sanguinária por parte do próprio Deus que deveria ser sinônimo de amor.

Situação #2: Influenciado pela família e pelo curso natural das coisas, veio o batismo e a profissão de fé, na Convenção Batista mais tradicional do Brasil. Já sabendo que era gay e enfrentando batalhas dentro de si mesmo [tentando compreender sua identidade], achava que era melhor seguir a vida. Os conselheiros diziam que era melhor matar aquele pecado e evitar o inferno, evitar a destruição iminente daqueles que praticavam tal pecado. Duvidava. “Sabe a AIDS? É um resultado mortal desta prática pecaminosa”, diziam eles.

Situação #3: Junto a milhares de outros cristãos – protestantes tradicionais, católicos, pentecostais – assiste ao show de uma banda famosa, dita gospel. No meio do show, ao som de gritos e guitarra, a cantora pede que uns imponham as mãos sobre os outros e tem início um episódio constrangedor de expulsão dos demônios que, entre outras coisas, seriam responsáveis pelo ‘homossexualismo’. O exorcismo e a cura gay são acompanhados de gritos de aleluia e ao deixar o local, o adolescente percebe que nada mudou. Disseram-lhe que faltava fé. Em outras palavras, a culpa por “ser gay” era toda dele.

As situações descritas acima não ocorreram apenas uma vez em minha jornada protestante, mas posso dizer que estes três episódios foram momentos marcantes que me levaram a uma profunda reflexão sobre minha própria identidade enquanto parte integral de uma comunidade cristã que causava dor a mim e a tantos outros que não se enquadravam nos preceitos morais que bradavam aos quatro ventos.

Cercado de hipocrisia por todos os lados, eu percebi que minha sanidade mental estava comprometida por ter crescido em tal ambiente – sempre tendo de me esconder, sempre tentando ser outra pessoa, o tempo todo. A única saída era ser melhor em outros aspectos, tentar compensar aquela falta ética e moral com os estudos, com projetos e com um comportamento sem falhas aparentes.

Deixo claro que este não é um texto teológico e não tem como objetivo discutir exegese bíblica. É, sobretudo, um relato para jovens que talvez estejam vivendo a contradição de se aceitarem como gays e continuarem acreditando no cristianismo enquanto religião. Ou para aqueles que não enxergam outra saída a não ser romper com toda aquela estrutura e forjarem uma nova existência: finalmente livre.

Para isso é preciso esclarecer: por mais óbvio que seja, que não existe cura gay. Não existe oração capaz de exaurir o fato de que você é atraído por pessoas do mesmo sexo. E me atento ao óbvio porque era algo que gostaria de ter lido quando adolescente, algo que eu precisava ter lido. Talvez tivesse poupado muitas noites sem dormir.

Em minha jornada de descobertas, acabei me deparando com histórias tristes de pessoas que desejavam colocar fim à própria vida, alguns jejuavam de modo intensivo como método autopunitivo, outros se enclausuravam em si mesmos. Todos tentavam, de uma maneira ou de outra, mortificar suas sexualidades a ponto de causarem rupturas psicológicas e traumas que se tornariam insustentáveis. Eu decidi refletir sobre tudo aquilo, peregrinar mundo afora em busca de respostas, saciar minha curiosidade em relação ao tema. Fazer perguntas, entrar em contato com outras visões, outras filosofias e religiões.

Por mais que estivesse ali, sentado no banco de madeira da igreja cantando as palavras de Lutero no hino Castelo Forte, sempre tive a convicção de que minha experiência pessoal com a divindade era mais importante do que qualquer dogma. Essa convicção foi importante para que – apesar das dúvidas e questionamentos – eu permanecesse são e não surtasse durante a adolescência.

Desde que comecei a questionar toda aquela organização religiosa, sempre vinha à minha cabeça que para muitos, os dogmas, as tradições, são mais importantes do que as pessoas. E para estes, fingir enquadrar-se nos dogmas era interessante e necessário para evitar o julgamento que viria de todos os lados. A tal “graça”, nesta perspectiva, não valeria de nada.

Foi um pouco depois da adolescência, ao entrar em contato com igrejas cristãs chamadas ‘inclusivas’, em países como o Canadá e a Dinamarca, que pude ampliar um pouco minha percepção sobre o tema e me reconciliar com a fé à minha maneira.

Foi lendo histórias como a de Vicky Beeching, por exemplo, que pude compreender a importância de falar sobre o tema e de se posicionar como ‘gay e cristão’, ainda que tenhamos que enfrentar instituições poderosas e ideologias absolutamente retrógradas.Na foto abaixo, ela é recepcionada nos Estados Unidos por militantes batistas que seguram cartazes de ódio a gays.

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O caso da britânica Beeching é interessante: cantora gospel com agenda de shows lotada no cinturão do cristianismo [republicano] norte-americano, ela teve suas músicas traduzidas para diversas línguas (inclusive para o português). Pregava, cantava e por décadas tentava extirpar de si própria sua sexualidade. O resultado dessa contradição foi uma doença autoimune que quase a matou e que a fez repensar sua vida e sair do armário.

Hoje, de volta à Inglaterra, ela, que é doutora em Teologia pela Universidade de Oxford, prega sobre uma mudança paradigmática na igreja cristã e escreve sua biografia narrando experiências sobre fé e ativismo. Sua honestidade em se abrir para o mundo resultou na quebra de contratos com gravadoras e uma total exclusão dos meios evangélicos que outrora a tinham como porta-voz de um modo de vida ‘exemplar’. Suas músicas antes entoadas nos cultos e reuniões, foram deixadas de lado e ao falar ao vivo em uma rede de televisão sobre ter saído do armário, um pastor a atacou dizendo que ela iria para o inferno.

Por mais bizarro que seja, isso ocorre porque falar sobre sexualidade no meio cristão sempre resulta em exclusão. Ainda hoje no Brasil centenas de igrejas protestantes históricas excluem seus membros por “escândalos” do tipo, ou os tira de posições de liderança por estarem “em pecado”. Não há lugar para quem pensa diferente, na verdade não há margem para que alguém “discuta as leis de Deus”.

O mais curioso do discurso “amo o pecador e não o pecado” [tão utilizado ao falar sobre gays], é que ele tenta criar uma classe diferente de pessoas que se julgam mais santas, mais corretas e guardiãs de uma verdade imutável que não é passível de questionamento. Para essas pessoas que julgam os outros alegando um olhar de amor, os textos sagrados precisam ser compreendidos em sua literalidade, sem nenhuma reflexão contextualizada.

Essas mesmas pessoas talvez nunca tenham refletido sobre as mudanças socioculturais ocorridas dentro das próprias igrejas: se outrora escravidão era aceita e legal, ou o papel da mulher na sociedade, família e igreja era absolutamente humilhante, hoje já é possível notar mudanças. Ainda que não possamos falar por todo o cristianismo, há – na grande maioria das denominações – algum tipo de progresso; ainda que muito precise ser conquistado.

A igreja que mais condena gays adota uma teologia perigosa, que deturpa e engana as pessoas com uma visão maniqueísta do capitalismo e certo misticismo com curas e atos proféticos. É neste contexto que se multiplicam os retiros espirituais que se ocupam de “tratar homossexuais”. Ora, se você é gay e passou por sessões de “cura”, será liberto. Caso a cura não ocorra, a culpa é sua por não ter fé suficiente para se salvar. É assim que a multidão neopentecostal e os telepastores enxergam a questão.

Este fanatismo exaltado e barulhento deixa marcas sérias nas pessoas que, de coração aberto, buscam tais pregações. Não é a gritaria que irá te regenerar e te libertar do tal “homossexualismo”. Na verdade nenhuma gritaria te fará livre, simplesmente porque você não precisa de libertação.

Muitos gays que cresceram em famílias cristãs atuantes acabam abandonando a religião. Como vão continuar suas vidas em uma comunidade religiosa se não há aceitação em relação a quem realmente são?

Uma das saídas propostas por igrejas históricas (que não comungam de práticas de cura do pentecostalismo) é o celibato voluntário. Minha pergunta é: porque alguém que sente atração por pessoas do mesmo sexo deveriam se privar da beleza de se apaixonar, de ter relações sexuais e de, porventura, se casar?

É neste contexto que trabalhos como o de Matthew Vines, que deixou a Universidade de Harvard para estudar teologia e sexualidade, lançam um olhar de esperança em relação ao futuro da igreja cristã. Atualmente, ele dirige uma organização importante chamada The Reformation Project, cujo objetivo é diálogo com denominações evangélicas nos Estados Unidos.

Se realmente desejar que mudanças ocorram, a comunidade gay precisa se colocar à frente das discussões sobre religião. Engana-se quem pensa que esse ativismo seja apenas para quem deseja continuar “cristão”. Na verdade esta é uma luta de todos para que jovens LGBTs não se matem, para que políticas públicas sejam garantidas a todos e para que haja menos crimes de homofobia que são institucionalizados nos púlpitos e altares religiosos. Se gays merecem morrer em uma chuva de fogo, porque mereceriam o respeito da sociedade?

Em seu livro “Boy Erased”, Garrard Conley narra sua experiência em conferências e retiros espirituais de cura gay nos Estados Unidos e mostra o quão perversa uma religião pode ser com pessoas tão jovens. O mais interessante é que ele não escreveu seus relatos durante a Idade Média, seus textos são de 10, no máximo 15 anos atrás. Questionado sobre qual conselho daria para ele próprio aos 16 anos, quando era submetido aos tais rituais e vivia uma batalha entre fé e sexualidade, ele diz:

“Hold on. Keep reading. Keep learning. Some day you will make it out. But don't forget where you came from. There are people like you who haven't made it out, and these people need your help.”

Outro exemplo dessa contradição é Randy R. Potts. Seu avô é Oral Roberts, o primeiro evangelista pentecostal da televisão americana. Ele é fundador da Universidade Oral Roberts, a instituição que talvez seja o maior centro contemporâneo de profusão do modo americano de viver o pentecostalismo: focado em prosperidade e absolutamente fundamentalista.

Randy Potts é gay e se dedica a estudar seu tio (filho de Oral), Richard Roberts, uma incógnita em sua família, um membro apagado e que morreu sem que sua história fosse contada – ele também era gay, provavelmente uma vergonha para sua família e, por isso mesmo, um segredo guardado a sete chaves pelo pastor que pregava curas e vivia de doações vindas do mundo inteiro.

Escrevo aqui alguns exemplos de pessoas que cresceram em um ambiente opressivo e decidiram se posicionar a respeito e questionar as instituições religiosas. São pessoas que resolveram contar ao mundo suas próprias contradições entre fé e sexualidade, a maioria deles o fazem por acreditar que é possível uma mudança no cristianismo contemporâneo.

O quão difícil é para uma criança deparar-se com Sodoma e Gomorra e, aos 12 anos de idade, sentir que deveria ser destruído pelo fogo por ser diferente dos colegas?

Até quando pastores de instituições que pregam amor incondicional sujarão suas mãos de sangue de jovens LGBTs que se matam por não conseguirem exorcizar os demônios do “homossexualismo”?

Até quando essas instituições vão excluir de suas comunidades membros que são gays, são felizes como gays, e desejam continuar professando a fé cristã?

Quando nós, gays, somos obrigados a refletir sobre todas essas questões no início da adolescência, não há outros caminhos que não sejam a negação de toda e qualquer fé, ou uma jornada própria de autoconhecimento e espiritualidade em busca de respostas. Alguns sofrem a ponto de darem cabo de suas próprias vidas. Eu escolhi peregrinar em busca de uma compreensão sobre quem sou e sobre como posso fazer a diferença em um mundo marcado por radicalismo e injustiças.

Nenhuma das decisões sobrepostas sob as costas de gays evangélicos (em especial adolescentes) são fáceis. É um caminho doloroso. É sofrido. Eles são muitas vezes incompreendidos pela família que está submersa em uma visão deturpada da fé.

Por muito tempo, a vergonha e o julgamento fizeram deste caminho de aceitação uma via crucis solitária. Neste tempo em que vivemos, é preciso apagar, de uma vez por todas, a fogueira da inquisição que ainda arde e destrói psicologicamente jovens com potencial e uma vida toda pela frente.

A boa notícia é que hoje, com a internet e o acesso à informação, todos podem ler sobre as experiências de outros muitos que venceram os dogmas impostos e partiram em busca de suas próprias jornadas de fé.

Quando adolescente, queria ter ouvido as seguintes palavras enquanto passava noites em claro tentando entender porque eu era diferente dos outros:

“Você não está sozinho. Acalme-se e siga em frente. A sua jornada está apenas começando e suas respostas virão de muito longe daqui”.

Yahweh, me diga agora: Porque é sempre escuro antes do amanhecer? (Yahweh – U2)

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