the notebook

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Péricles Carvalho

Mestre em Jornalismo, Mídia e Globalização pelas universidades de Aarhus (Dinamarca) e Swansea (Reino Unido). Escreve para libertar demônios e encontrar sentido à vida. Quer ler mais textos? Acesse: www.periclescarvalho.com

Cidades que curam

No futuro, médicos receitarão viagens ao invés de ansiolítico. As viagens curam, lugares são como ritos de passagem que nos ajudam a compreender o passado, aproveitar ao máximo o presente e forjar um futuro diferente.


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“Volta, que o sorriso dessa dor me atravessa…”

O Recife das ruas antigas, das construções imponentes que resistem ao tempo, da música que toma conta dos ambientes e circula por entre os bares e inferninhos da noite. O Recife do verão, das manhãs que começam às 5h da manhã com o sol invadindo as janelas, das pontes que se multiplicam na paisagem, do Capibaribe sempre gigante que me faz duvidar por um segundo da seca no agreste. Recife das pessoas cativantes que encontramos a cada esquina e que se multiplicam à medida em que permitimos viver a efervescência cultural que o cerca.

Não há palavras fáceis e certeiras para descrever os lugares, as exposições, as pessoas e a cultura local. É como se, de repente, as cidades invisíveis* se condensassem em um lugar apenas e a cidade se tornasse uma entidade da qual não é possível se desvencilhar.

O Recife é sedutor, flerta com o moderno e o antigo e conseguiu capturar toda a minha atenção e o meu afeto. Dormir? Jamais! Sair pelas ruas desconhecidas sempre foi um convite irrecusável para mim — uma benesse dos viajantes de verdade, que não se apegam somente aos pontos turísticos e querem mais, querem capturar a alma do lugar no qual estão inseridos.

Das coisas que mais me marcaram naquela cidade: o encontro do rio com o mar, os mangues que vão se multiplicando a cada curva, as ruas pequenas do vuco-vuco, o pôr-do-sol inigualável e o riso fácil dos pernambucanos que conheci.

Eu precisava do Recife como um doente terminal precisa de morfina para aliviar suas dores e confesso que as surpresas da cidade renovaram meus ânimos e me fizeram sonhar com mais dias nas ladeiras de Olinda ou nas praias paradisíacas dos arredores.

Neste momento é o Recife que me diz na voz de Jhonny Hooker:

“Volta, que sem você eu já não posso viver. É impossível ter de escolher entre teu cheiro e nada mais”

E o Recife sussurra essas palavras logo para mim… um desapegado por natureza, um ser de raízes aéreas que não enxerga nenhuma dificuldade em desbravar mundos desconhecidos.

A lista das coisas que certamente sentirei falta é enorme e inclui, entre outras coisas, a força da cultura popular e a alegria dos recifenses em ocupar as ruas da cidade. As pessoas são as ruas, elas não existem sem a cidade e nem a cidade sem elas. Longe da frágil — e recente — história do centro-oeste brasileiro, o Pernambuco é um daqueles estados brasileiros em que as pessoas se confundem com o lugar onde vivem, onde a história é marcante e presente no cotidiano. E o sotaque… ah, o sotaque!

Beber uma cerveja no Bar Central ou na Rua da Moeda, conferir as (muitas!) exposições e galerias e comer uma torre de camarão frito no Bar Frontal. O cheiro e os sons ainda continuam comigo, e a ideia que eu tenho é de que a cidade ainda ecoa aspectos da casa grande e senzala, porém se vale de movimentos sociais e jovens aguerridos e prontos para qualquer combate. Meu Recife é romantizado, eu sei. “Ah, é só uma cidade como outra qualquer”, dizem alguns. Pode até ser, mas foi a cidade certa, na hora certa.

Eu cheguei ao Pernambuco pedindo que o mar levasse as tristezas de um ano terrível e me desse, em troca, esperança. Eu acredito que um dia chegaremos ao médico, descreveremos nossos sintomas e em troca eles receitarão viagens. Ainda não chegamos lá, mas o Recife só confirmou o que eu já sabia de antemão: as viagens curam, lugares são como ritos de passagem que nos ajudam a compreender o passado, aproveitar ao máximo o presente e forjar um futuro diferente. O que digo ao Recife é que volto sem demora. Volto talvez de mala pronta, como o personagem da música do Jhonny Hooker que aceita seu amante e topa até carregá-lo de volta do bar. Recife, saiba que a nossa relação é passional, nosso amor não é uma mentira e qualquer hora eu apareço por ai para te ver, me embrenhar em sua umidade e beber mais uma Heineken ouvindo Roberto Carlos, ou o que quer que esteja tocando.

Cidades Invisíveis* — referência ao livro de literatura fantástica do escritor Ítalo Calvino.

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Péricles Carvalho

Mestre em Jornalismo, Mídia e Globalização pelas universidades de Aarhus (Dinamarca) e Swansea (Reino Unido). Escreve para libertar demônios e encontrar sentido à vida. Quer ler mais textos? Acesse: www.periclescarvalho.com.
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