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Péricles Carvalho

Mestre em Jornalismo, Mídia e Globalização pelas universidades de Aarhus (Dinamarca) e Swansea (Reino Unido). Escreve para libertar demônios e encontrar sentido à vida. Quer ler mais textos? Acesse: www.periclescarvalho.com

Em busca do trabalho dos sonhos

A atriz e roteirista Lena Dunham criou em Girls o arquétipo perfeito para os dramas das gerações Y e Z em relação ao mundo do trabalho. Será que somos mesmo parecidos com Hannah Horvath? Será que estamos dispostos a repetir fórmulas do passado e viver a vida toda dentro do mesmo escritório?


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Já faz tempo que eu quero escrever sobre as gerações Y e Z e suas respectivas relações com o mundo do trabalho. Recentemente tive a oportunidade de explorar o tema de maneira mais profunda ao fazer uma pesquisa sobre a badalada Geração Z, que chega mostrando que os tais Millenials (como eu) estão ficando velhos e que agora é a vez deles mostrarem a que vieram.

Todas as pesquisas de comportamento mostram um diagnóstico semelhante para ambas gerações: tanto os jovens Y quanto os Z buscam carreiras que correspondam a seus sonhos. Para eles não há tempo a perder e é preciso trabalhar em algo que tenha um significado maior para suas vidas — seja montando uma start-up ou decidindo blogar enquanto viajam mundo afora. Os jovens de hoje, dos 18 aos 30 anos perderam o medo de arriscar e têm repulsa à monotonia. Hannah e seus dramas

Em GIRLS, Hannah (vivida por Lena Dunham) deixa claro logo nos primeiros episódios da série que ela pode vir a ser “a voz da sua geração” e, de frustração em frustração, ela tenta emplacar sua escrita e construir uma “carreira” em Nova York.

Mas é na terceira temporada que o tema “trabalho” parece ter mais impacto na vida de Hannah. Nessa altura da série, ela (quase) chega onde queria e descolou um trabalho como escritora de encartes publicitários para a GQ. O salário? Provavelmente o dobro do que ela ganhava trabalhando em uma cafeteria do Brooklyn.

O que deu realmente errado para Hannah foi perceber que trabalhando uma média de 6 ou 8 horas por dia, ela não conseguiria se dedicar ao que realmente queria fazer: escrever seu tão sonhado livro! Além disso, ela se depara com vários colegas de trabalho que se tornaram escritores e poetas frustrados, e estão ali meramente pelo dinheiro e comodidade. E assim, ela surta em uma reunião de pauta e resolve conclamar seus amigos a seguirem seus sonhos… é claro que a situação, por si só, é extremamente embaraçosa (afinal de contas, é GIRLS!). Mas mesmo sendo demitida ela consegue dizer o que pensa:

“Eu espero mais da vida. Quero que cada dia seja excitante, uma montanha russa criativa.”

O mais interessante do episódio é perceber como Lena Dunham conseguiu captar o sentimento de uma geração. Assistindo o episódio da demissão com amigos acabou dissipando o clima bom das cervejas, cidras e pipocas espalhadas pelo sofá. Como bons millenials, cada um queria falar mais de si do que ouvir, mas ao mesmo tempo para a maioria daqueles jovens de vários lugares do mundo, os dramas eram tão semelhantes. Muitos estão estagnados e uma mudança radical exige mais do que simplesmente coragem de ligar o “foda-se”, uma vez que o estômago e as contas falam mais alto do que a vontade própria.

Jovens mimados ou reflexivos?

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Eis ai uma realidade da juventude no Brasil, na América do Norte, Europa e Ásia. Ao ouvir tantos relatos de diversos lugares eu tentei chegar a conclusões e percebi que não é tão fácil obter respostas para a insatisfação que muitas pessoas têm em relação ao que fazem da vida. “No caso da série é fácil, quero ver isso acontecer na vida real”, me disse um amigo enquanto assistíamos o episódio em questão.

Será que a juventude atual é mimada ao ponto de querer escolher demais onde trabalhar? Ou será que somos mais reflexivos a ponto de buscarmos fazer algo que realmente nos satisfaça?

Eu acredito que na intersecção entre ambas as respostas exista um ponto em comum que defina a juventude atual. Pode até não oferecer a melhor resposta, mas é sem dúvidas um caminho.

No caso de Hannah, pode ser que ela nunca chegue a ser uma escritora de sucesso , aliás, o decorrer da série deixa isso claro. Ao mesmo tempo, ela precisa tentar realizar seu sonho até que não reste mais esperança. Ai então, mesmo com o fracasso, a personagem pode dizer que tentou ao máximo.

A grande sacada de GIRLS é capturar a essência de uma geração que muito quer e que se vê obrigada a submeter-se a um mercado de trabalho imerso no contexto de crise. E a série acerta ao mostrar o quanto os empregadores atuais não conseguiram se adaptar aos anseios da nova geração.

...

De modo geral, as gerações Y e Z não se importam com o prestígio da sua empresa — o importante mesmo é fazer algo significativo. Esqueça as velhas perguntas de RH sobre uma “longa carreira dentro da empresa”, isso é coisa da década de 1970 quando as pessoas ainda perseguiam um emprego estável pelo resto da vida, festas na firma no final do ano e uma casa no subúrbio. Os jovens de hoje querem trabalhar em projetos que os desafiem e, mais do que isso, que não estão fadados à monotonia.

Há muitas críticas a Lena Dunham por ai, e sim: ela é controversa, adora ficar nua em cena e não está muito preocupada com o que os outros pensam. Mas no final das contas, sua série de televisão e seu livro que se tornou best-seller instantâneo são retratos fiéis de nós mesmos, sobreviventes da Geração Y e os recém-chegados da Geração Z.

Há um tempo o El País publicou uma matéria sobre o tema, com foco específico nos adolescentes que chegam agora ao mercado de trabalho. Sobre eles, o doutor em comunicação Dado Schneider disse: “Mas não os considero arrogantes, eles apenas sabem o que querem. Diferentemente da Geração X (nascidos entre o fim de 1960 e 1980), que aceita as normas de trabalho, e da Geração Y (nascidos entre 1980 e 1995), que finge que aceita, eles são questionadores e possuem bons argumentos. A verdade é que eles são bastante maduros, assertivos e vão ser os chefes da geração Y em poucos anos”

Acredito que esse anseio em dedicar-se a algo que realmente faça sentido explica o boom das start-ups e a busca por “autoconhecimento” que move a juventude atual, levando muitos a realizarem longas viagens e tentar encontrar equilíbrio em meio à loucura do mundo contemporâneo. Não sei se a minha geração se encontrou ou se a próxima conseguirá realizar seus desejos. Infelizmente a vida não é um conto de fadas em que só fazemos o que queremos.

Porém, acho que estamos mais próximos de sermos quem realmente queremos ser. Nesse caso a jornada pode ser mais importante do que o fim, por si só. E se a jornada está legal, com dificuldades financeiras, mas com alguma alegria, talvez seja mesmo a hora de largar o emprego chato e fazer uma viagem, ou então simplesmente começar a procurar outro. Virou clichê andar perdido por ai, sem saber com o que fazer com o diploma da universidade… No final das contas estamos todos meio perdidos, com aspirações gigantescas e vidas medíocres. Será que nos tornamos um pouco “Hannah” ou foi ela que se apropriou de nós?

Ainda assim, o que nos resta é sair por ai com nossa grana contada e rir um pouco dos nossos, hmmm, 20 e poucos/muitos anos. Ou fazer como Hannah e ingressar em um programa acadêmico para escritores em Iowa ou em qualquer cidade distante, apenas para inventar alguma coisa nova.

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Péricles Carvalho

Mestre em Jornalismo, Mídia e Globalização pelas universidades de Aarhus (Dinamarca) e Swansea (Reino Unido). Escreve para libertar demônios e encontrar sentido à vida. Quer ler mais textos? Acesse: www.periclescarvalho.com.
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