the notebook

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Péricles Carvalho

Mestre em Jornalismo, Mídia e Globalização pelas universidades de Aarhus (Dinamarca) e Swansea (Reino Unido). Escreve para libertar demônios e encontrar sentido à vida. Quer ler mais textos? Acesse: www.periclescarvalho.com

Os 27 anos chegaram sem pedir licença

Aos 27 eu quero correr por ruas desconhecidas, quero conhecer gente nova, quero fazer coisas que nunca fiz. Quero me apaixonar como nunca me apaixonei e, quem sabe, mudar o curso da minha existência. Quero me reinventar, reparar as rachaduras que já começam a aparecer. Eu quero a leveza de encontrar um velho amigo e a alegria de bater um papo e tomar uma cerveja em uma esquina qualquer da cidade.


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Babe, there's something tragic about you. Something so magic about you. Don't you agree? (Hozier - From Eden)

Não sei decifrar o peso dos 27 — afinal de contas, não sou mais tão jovem, mas ainda não sou velho. Estou no limbo, na incerteza, ainda em busca de uma cidade, uma identidade e um lugar seguro para reclinar a cabeça.

Confesso que não dei boas vindas ao novo ano, sou péssimo nisso. Eles chegaram de fininho e eu até gostaria de me esquivar e continuar vivendo como se nada estivesse acontecendo. A verdade é que não posso conter os pensamentos e as ideias malucas que vão brotando do nada e, deste modo, meus aniversários pós-25 anos vão criando contornos próprios, nem sempre tão festivos.

Esclareço: me considero adulto, mas aquele adulto com um pouco de maluquice na cabeça, um adulto que ri de tudo e tenta abstrair as mazelas da vida. Um adulto tentando viver por conta própria e tentando achar uma saída de emergência, um bote em meio ao naufrágio iminente que é a vida.

Aos 27 anos começo a ver as coisas como trechos de filmes, consigo sentar e contemplar tudo com nostalgia, lembrar da trilha sonora de quando andava por aquelas ruas daquela cidade, dos sabores daquela comida

Não posso deixar de mencionar as pessoas que vi e as que perdi. Posso passar o resto da vida sem cruzar sequer uma fronteira, mas tenho a certeza de que o ser humano é o que faz qualquer viagem valer a pena — é a interação, a boa conversa que faz com que a vida tenha sentido. Às vezes faço exercícios mentais buscando rostos, buscando cheiros, gestos e frases. Sonho com os que se foram com frequência.

Perder pessoas pelo caminho trouxe um importante senso de mortalidade. Nunca pensei a respeito da finitude da vida, temia menos, me arriscava mais por acreditar que nada jamais aconteceria. Hoje tenho urgência em viver simplesmente por saber que essa dança um dia cansa . Sei que vou me cansar um dia e sei também que vou me sentir completamente entediado se ser mero espectador nesta festa. Por enquanto a música está tocando no último volume e eu não quero sair da pista.

Aliás, alerta: meu triglicérides está alto — aprendi ontem como se diz e como se escreve essa palavra e passei uns minutos repetindo as sílabas enquanto olhava o exame: TRI-GLI-CÉ-RI-DES.

As contas nem sempre fecham, preciso dizer. E os sonhos ainda me fazem dormir tarde justamente por passar muito tempo sonhando acordado. Ainda me sinto um bobo, um despreparado, um amador.

Convivo bem com a percepção de que chegamos e vamos embora desse mundo completamente sozinhos. Ninguém pertence a ninguém, ninguém é dono de nada. Querer controlar a vida é impossível, é tolice.

Continuo desinteressado de tudo aquilo que parece ser o mais interessante pra muitos que me cercam. Ainda acho carro um desperdício (temos Uber!), não aprendi a dirigir e acho que as pessoas são malucas por prenderem suas vidas a um lugar só. O mundo é tão vasto…

Ainda acredito que não encontrei o lugar que tanto procuro, ainda não sei o que quero, de verdade, fazer — ou talvez até saiba. Aos 27, com certeza, essa busca será o que mais me consumirá, ou me frustrará.

Aliás, os 27 trazem inúmeras frustrações. Aos 20 eu queria abraçar o mundo, fazer um monte de coisas que considero foda. Queria escrever textos maravilhosos, dirigir documentários, montar projetos bacanas… Ainda quero! Ainda vou! Será que tudo isso cabe nos 30?

Hoje me vejo mais lúcido, me vejo odiando uma série de coisas e isso me faz tão bem. É bom saber o que odeio, é uma maneira de escapar e focar no que realmente desejo fazer. Vejo tantas pessoas da minha idade que detestam o que fazem e confesso que temo me tornar apenas uma engrenagem da roda viva que é ser adulto. Outro dia vi um filme e uma das falas ficou marcada em mim: “o sertanejo forte é o que parte, não o que fica”. Quero estar sempre disposto a partir.

Aos 27 eu quero correr por ruas desconhecidas, quero conhecer gente nova, quero fazer coisas que nunca fiz. Quero me apaixonar como nunca me apaixonei e, quem sabe, mudar o curso da minha existência. Quero me reinventar, reparar as rachaduras que já começam a aparecer. Eu quero a leveza de encontrar um velho amigo e a alegria de tomar uma cerveja em alguma esquina da cidade. Quero ter o gozo de poder discutir ideias, quero continuar trabalhando com pessoas que me inspiram em projetos que me consomem por inteiro.

Ainda me resta algum tempo até os 30 e eu preciso tanto desses dias. Preciso escrever sobre tanta coisa, viver tanta coisa, ouvir tanta música, chorar de alegria (qual foi a última vez?). Preciso curar feridas abertas, preciso ligar o foda-se. Aos 27 eu preciso mesmo é surpreender a mim mesmo, frear a insegurança e fazer o que deve ser feito.

Dê o play e dance comigo. A festa está apenas começando.

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Péricles Carvalho

Mestre em Jornalismo, Mídia e Globalização pelas universidades de Aarhus (Dinamarca) e Swansea (Reino Unido). Escreve para libertar demônios e encontrar sentido à vida. Quer ler mais textos? Acesse: www.periclescarvalho.com.
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