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Péricles Carvalho

Mestre em Jornalismo, Mídia e Globalização pelas universidades de Aarhus (Dinamarca) e Swansea (Reino Unido). Escreve para libertar demônios e encontrar sentido à vida. Quer ler mais textos? Acesse: www.periclescarvalho.com

Quando encontrei a estrada de Kerouac

A partir de On the Road, enxerguei com clareza as razões pelas quais 'movimento' transforma. Mover-se exige esforço. Exige o enfrentamento da solidão, dos medos, das adversidades, da nostalgia e das memórias que cada um de nós carregamos na vida. A 'estrada' fala muito mais sobre o que deixamos para trás, em termos de experiências, do que do próximo destino em questão. Assim sendo, continuar a jornada é uma questão de coragem e escrever sobre tal experiência, tal como Jack Kerouac, é uma dádiva.


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Para ler ao som de:

Xavier de Maistre foi provavelmente o primeiro autor que li sob o tema “viagens”. Em seu livro “Viagem à roda do meu quarto”, ele propõe uma jornada dentro de seu próprio quarto, em Turim. O livro é do final do século XVIII e o próprio autor estava feliz pois aquela viagem empreendida nada havia custado — ele estava entregue à imaginação, buscando entre as paredes de seu quarto aspectos singelos que culminavam em profundas percepções sobre sua própria alma em meio aos objetos que o cercavam.

Ele me mostrou que viajar poderia ser democrático, possível mesmo para aqueles que estavam tão distante, mesmo para aqueles que habitavam um pequeno quarto de uma também pequena cidade. Aquilo me fascinava, mas foi um pouco mais tarde que eu li aquele que seria o livro mais importante da minha adolescência. Foi quando conheci Jack Kerouac e seus amigos, foi quando li On the Road que quis, porventura, experimentar o frescor de andar velozmente pelas estradas do mundo. Foi a partir dali que o tema “viagem” começou a adquirir um sentido místico para mim, algo típico dos peregrinos e profetas que desbravam os desertos em busca de iluminação.

Esse pensamento que agora vos escrevo foi desencadeado por um questionamento que me foi feito. A pergunta era: qual livro teve maior impacto em sua vida? Poderia ter escolhido qualquer outro, poderia ter citado “Viagem à roda do meu quarto”, por exemplo, mas foi Kerouac que me veio à memória de imediato. E é sobre essa escolha que eu discorro nas linhas abaixo.

Para um jovem de 17 anos, ler Kerouac é como sentir uma brisa de lucidez em meio à insanidade que o cerca. É como se, em meio ao turbilhão de incertezas e incoerências que a vida parece ser na adolescência, o mais coerente seja se unir a um grupo de viajantes que querem apenas seguir rumo ao desconhecido.

Pouco me importava se Kerouac tinha morrido reacionário, isolado e alcoólatra, negando o movimento de contracultura daquela época [inspirado, em grande parte, por sua geração beat]. Até porque, naquele tempo, me parecia que todos estávamos fadados à caretice a certa altura da vida. Bastava olhar ao redor. Por isso mesmo, aquele era o tempo de ir contra a corrente, era o tempo do escape. E Kerouac estava ali, me convidando pra partir, sem frescura e sem grandes planos. Não havia capitalismo capaz de detê-los, o importante era seguir em frente e curtir aquele tempo ao máximo.

Conta-se que Kerouac enlouqueceu a partir do dia em que deixou de ser um simples viajante e passou a ser o escritor resenhado pelo The New York Times. Um belo dia ele acordou famoso, não mais anônimo e livre como sempre foi. A partir de então ele não mais poderia cumprir a promessa de “seguir na mesma direção tão logo a primavera desabrochasse e os campos se cobrissem de flores”. On the Road flui na cadência do jazz, é uma obra concebida sob a metáfora da estrada — um texto escrito de uma vez só em um longo rolo de telex. 

Em um tempo de tantas descobertas, a amizade de Sal Paradise (o próprio Jack Kerouac) e Dean Moriarty (Neal Cassidy) era algo que parecia inabalável, uma parceria que ganharia o mundo desbravando estradas sob a sempre veloz direção de Dean. Um sonho aos 17? Cortar a Route 66 cruzando a América de Nova York a São Francisco. Assim como eles, eu não tinha “nada a oferecer, exceto minha própria confusão”.

Era Sal quem relatava o quão intenso era acordar em terras desconhecidas e, por alguns segundos, sob o sol rubro do fim de tarde, não saber quem era. Era fascinante ler sobre aqueles segundos em que tentamos compreender quem somos no tempo em que vivemos e no espaço que ocupamos — aquele curto período em que buscamos na memória reconhecer o desconhecido e, por isso mesmo, estranhamos tudo até que possamos retomar nossa consciência ainda adormecida. Algo que dura 2 segundos, apenas. Eu só viria a compreender a beleza desta pequena narração uma década mais tarde, enquanto tento compreender Marcel Proust. 

Kerouac lia Proust. Seus personagens liam Proust. Seu texto exala Proust. Parece natural que, a certo ponto, eu me interesse por Proust. A vida é assim: uma coisa leva a outra. Uma rua desemboca em uma estrada que um dia chega de frente para o mar. É tudo uma questão de continuar o movimento, seguir em frente.

Se “mover-se” é a única função nobre, segundo Jack Kerouac, torna-se absolutamente compreensível o motivo pelo qual a estrada foi a grande metáfora de sua vida. A partir da leitura daquele livro, percebi com clareza as razões pelas quais 'movimento' transforma. Movimento, por menor que seja, é a própria revolução que cada um de nós podemos empreender. Mover-se exige esforço. Exige o enfrentamento da solidão, dos medos, das adversidades, da nostalgia e das memórias que cada um de nós carregamos na vida. A 'estrada' fala muito mais sobre o que deixamos para trás em termos de experiências do que do próximo destino em questão. Assim sendo, continuar a jornada é uma questão de coragem.

Guardo com carinho um trecho do livro [que pra mim é absolutamente nítido como se fosse uma cena que eu tivesse vivido] da estrada do México. Das pessoas que iam ficando por entre o caminho, reluzentes em meio ao sempre poético sol de Kerouac. Eram as pessoas que iam diminuindo à medida em que o carro veloz de Dean prosseguia:

“Que sensação é essa, quando você está se afastando das pessoas e elas retrocedem na planície até você ver o espectro delas se dissolvendo? — é o vasto mundo nos engolindo, e é o adeus. Mas nos jogamos em frente, rumo à próxima aventura louca sob o céu.”

Aos vinte e poucos anos, lendo biografias dos meus ídolos da adolescência, eu descobri que os caminhos de Sal e Dean (Kerouac e Cassady) tinham se separado depois de toda aquela aventura de descoberta que resultou em centenas de páginas de vários livros. Um pouco mais velho eu já compreendia alguma coisa: tinha andado muita estrada e parecia natural que pessoas ficassem pelo caminho por questões e circunstâncias diversas. Ainda que aos 17 eu não conseguisse imaginar Sal sem Dean. Acho que depois de um tempo a vida já não era mais tão romântica, aqueles heróis já não eram tão heróis assim. Passaram a ser apenas pessoas: contraditórias, inconsequentes, verdadeiras, reais.

A verdade é que o mais fascinante de On the Road é a possibilidade de uma geração lançar-se no desconhecido, mostrando que a estrada era a vida, era arte. Era a essa possibilidade que eu me apegava naquele momento. É esse poder de descoberta que faz o livro relevante para tantas gerações. É por isso que quero presentear meu filho com On the Road quando ele fizer 17 anos.

[No prefácio da edição brasileira, Eduardo Bueno escreve: Bob Dylan fugiu de casa depois de ler On the Road. Chrissie Hynde, dos Pretenders, e Hector Babenco, de Pixote, também. Jim Morrison fundou The Doors. No alvorecer dos anos 90, o livro levou o jovem Beck a tornar-se cantor, fundindo rap e poesia beat...]

Confesso que há muito tempo não leio Kerouac, Ginsberg, e os outros escritores beat. Mas mesmo distante, tenho um carinho por eles como amigos da adolescência que me mostraram o quão interessante a vida pode ser para quem deseja ser diferente do padrão convencional. Naquela época, ter companheiros que pensassem assim, em meio à mentalidade da cidade pequena do interior, era realmente tudo o que eu precisava, e que eu encontrei naquele livro.

On the Road, de certo modo, me salvou do ostracismo que poderia ter se tornado minha vida. Se antes era fascinado pelo mundo, aquelas pessoas desajustadas me provaram que era possível, ao menos por um tempo, me lançar no desconhecido. Eu precisava mesmo dos “loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora…”.

O livro que originalmente não tinha pontuação, que deveria ser lido como uma melodia de jazz… O livro que me fez querer escrever e ser um pouco como Sal Paradise. O livro que me faz parar em momentos como este, agora, após ser questionado sobre um obra literária relevante, e "pensar em Dean Moriarty; penso até no velho Dean Moriarty, o pai que jamais encontramos; eu penso em Dean Moriarty”.

Os trechos em negrito foram extraídos do livro On the Road.

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Péricles Carvalho

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