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Péricles Carvalho

Mestre em Jornalismo, Mídia e Globalização pelas universidades de Aarhus (Dinamarca) e Swansea (Reino Unido). Escreve para libertar demônios e encontrar sentido à vida. Quer ler mais textos? Acesse: www.periclescarvalho.com

Conheça Colin Wright: minimalista, escritor, blogueiro e viajante

"Eu acredito que chegamos a um ponto em que as consequências do excesso são evidentes para a maioria das pessoas e, como resultado disso, estamos vendo muitas soluções e potenciais soluções (das quais minimalismo é um exemplo) em deixar para trás esse modelo de consumo compulsório por outro modo de vida. Eu acho que as pessoas encontram mais contentamento quando estão focadas no que é mais importante para elas", explica Colin.


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Colin Wright escreve sobre a vida que acontece diante de seus olhos enquanto viaja mundo afora, e isso faz dele um blogueiro e escritor diferente da maioria dos que se propõem a escrever sobre viagens nos dias de hoje.

Honestamente, sempre fui avesso à ideia de escrever sobre viagens sem refletir sobre o que se vê; a jornada é o que realmente interessa, até porque os pontos turísticos estão disponíveis no Street View ou em qualquer banco de imagens online. Quero ler sobre as experiências pessoais de quem viaja, sobre seus estilos de vida, as palavras e conceitos que aprendem, o que os move de verdade. Por isso leio o blog Exile Lifestyle de Colin Wright.

Em seu blog, ele expõe seus pensamentos em um layout simples e minimalista, que foca no conteúdo escrito e na força de suas narrativas. Além do blog e de seu canal no YouTube, ele publica livros regularmente e dá palestras por onde vai.

Cabe a seus leitores decidirem qual é o próximo lugar do mundo no qual Colin vai desembarcar e viver por quatro meses. Na entrevista abaixo, que fiz por e-mail, ele fala um pouco sobre seu estilo de vida e algumas de suas perspectivas em relação ao trabalho que faz.

O que te move a viajar mundo afora?

O que mais gosto no mundo é de ser exposto a novas pessoas, novos lugares, novas ideias; ou seja, todas as coisas que vêm a partir de um estilo de vida rico em viagens. Quanto mais experiências eu tenho, mais cresço enquanto pessoa. Para mim isso é mais do que o suficiente para justificar os vários desconfortos de viajar.

Onde você está agora e quais são os seus planos para os próximos meses (entrevista feita no início de 2016)?

Estou em Paris enquanto escrevo as respostas desta entrevista, mas já estou a caminho dos Estados Unidos onde visito as cidades de Louisiana, Mississippi, Missouri, Chicago e Nova York. Depois, retorno à Europa para viajar pela parte ocidental do continente por alguns meses. Após essas viagens, não tenho nada planejado.

Além de viajar, eu estou gravando vídeos para o meu canal no YouTube, trabalhando em dois livros e, geralmente, me divertindo bastante.

Muitas pessoas acreditam que um curso universitário definirá o resto de suas vidas: com o diploma eles terão um trabalho estável, pagar suas contas e se divertir vez ou outra. Quem era Colin Wright logo após a graduação e o que foi determinante para que mudasse seu estilo de vida?

Honestamente, eu não parei para respirar após a graduação. Eu saí da universidade diretamente para um trabalho, em Los Angeles, e sai deste emprego depois de um ano para começar um negócio novo. Eu era, e acredito que ainda sou, muito conectado com o meu trabalho e não me arrependo disso. Mas com certeza estou mais feliz fazendo o trabalho que faço agora, porque todo a dedicação vai para coisas que realmente importam para mim.

A mudança no meu estilo de vida ocorreu como resultado de gastar todo o meu tempo, energia e recursos em coisas que não importavam para mim. Eu falo não apenas em trabalho, mas também de várias coisas que fazia, como por exemplo meus relacionamentos - eles não me completavam. Ao perceber isso, eu fiz uma rápida mudança para coisas novas, que acabaram me levando a viver do modo como vivo atualmente.

Alain de Botton discute em seu livro 'A Arte de Viajar' sobre a poesia que reside em lugares isolados como um posto de gasolina, um aeroporto ou um hotel à beira de estrada. À maneira com que o autor escreve, fica evidente que, ao viajar, a jornada é mais importante que o destino. Gostaria que você falasse um pouco sobre as ideias ou pensamentos que tem enquanto está em um trem, balsa ou ônibus - ideias que provavelmente você não teria se não tivesse aquele tempo específico para a contemplação.

Praticamente todas as ideias a partir das quais escrevo a respeito surgem desta maneira [a partir da estrada]. Poucas vezes eu acabo produzindo coisas boas enquanto estou sentado em uma cadeira tentando ser produtivo. São nos momentos intermediários, quando eu estou livre para apenas sentar, pensar e fixar meus olhos para fora da janela, que produzo. Esta é a razão pela qual eu tento fazer o máximo possível destes momentos de viagem.

Recentemente você compartilhou a respeito de uma palavra que aprendeu na Islândia. Qual é a importância de se empenhar em uma imersão cultural para descobrir aspectos importantes de diferentes linguagens e culturas?

Eu acredito que você esteja falando da palavra lifspeki, que significa (em uma tradução apressada), “a filosofia prática pela qual vivemos nossas vidas e que demonstramos através de nossas ações”. Basicamente, mostrando nossas crenças, ao invés de apenas dizer às pessoas que acreditamos em algo.

Eu não acho que aprender uma língua seja a única maneira de aprender sobre uma cultura, mas certamente o empenho não machuca. Eu acho que pegando palavras que as pessoas utilizam e que se diferenciam do meu vocabulário eu ajudo a consubstanciar a maneira como enxergo o mundo. Quando você tem uma palavra que representa um conceito que você tem dificuldades de definir em seu próprio idioma, esse conhecimento te empondera e ajuda a ver o mundo de uma maneira diferente - e eu acho que essas possibilidades são maravilhosas em múltiplos níveis.

Como você lida com o isolamento que ocorre, muitas vezes, enquanto viaja? Qual a importância de observar o mundo para o seu processo de escrita?

O isolamento é na verdade grande parte do meu processo criativo, porque ficar só me permite sentar e apenas existir, pensar, existir dentro da minha própria cabeça, focando no que preciso acima da necessidade de qualquer outra pessoa - e isso me força a interagir com o que não é familiar, ao invés de estar confortável e a salvo com os amigos, família, com comida e música que gosto e tudo o mais.

Mas às vezes, quando me sinto muito só, eu saio e faço novos amigos! Mas a solidão, por si só, é algo positivo para mim, e não algo que vejo como negativo. É algo que eu busco intencionalmente e isso informa sobre o que eu escrevo e também sobre quando eu escrevo.

Acima de tudo, você é um empreendedor. Começou a escrever um blog por conta própria, expandiu o projeto e hoje está em praticamente todas as redes sociais. Você publica os seus próprios livros e trabalha remotamente de qualquer lugar do mundo. Essa habilidade de fazer coisas e experimentar parece desafiadora para mim, especialmente no tocante à confiança que você tem no trabalho que faz. Como você lida com perfeccionismo e o que você pode nos dizer a respeito de “aprender a escrever” publicando textos e livros?

A primeira coisa é aceitar que nada que você faz será perfeito. O perfeito é inatingível: está sempre ao horizonte. Então você precisa conseguir apreciar onde você está neste exato momento, fazer o melhor que você pode com o conhecimento e os recursos que têm, e estar confortável em mostrar isso ao mundo, aprendendo o que você pode da experiência que tem e do feedback que recebe. E é preciso continuar caminhando, fazendo ainda melhor da próxima vez. Este é um exercício incrivelmente difícil para um perfeccionista, mas se você fizer isso repetidamente, perceberá que como a perfeição nunca será alcançada o melhor a fazer é continuar caminhando para crescer e se tornar uma versão cada vez melhor de você mesmo ao longo do tempo.

Este processo também ajuda a escrever (ou fazer qualquer coisa que se empenhe em aprender e fazer bem feito). Faça disso parte do seu estilo de vida. Decida escrever excelentes e-mails, mensagens de texto, tweets, e não apenas livros. Aproveite cada oportunidade para praticar sua linguagem e sua habilidade de comunicar claramente. Eu vejo muitas pessoas indo pela metade do caminho: elas querem escrever um livro, mas não querem se esforçar o tanto necessário para escrever um bom livro. Deste modo, elas se frustram e se convencem de que não podem escrever enquanto, na verdade, deveriam se comprometer inteiramente com a ideia de que se trata de um projeto difícil que requer muito trabalho e quiçá uma mudança em seu estilo de vida, mas é possível. Lembre-se disso, e escreva o tempo todo, todos os dias.

Junto com as viagens vêm muitos questionamentos. Como lidar com assuntos como relacionamentos e família? Você se faz este tipo de questionamento?

Eu fiz muitas dessas considerações ao longo dos anos e elas estão sempre mudando. Mas eu também sei que, devido à maneira que vivo, ter certeza de que eu tenho muitas possibilidades e recursos quando eu preciso é importante caso eu deseje realizar alguma mudança. Então não acho que é bom me preocupar a respeito de como as coisas vão mudar, o que realmente importa é que eu prossiga de acordo com o que estou sentindo, prossiga com o trabalho que eu estou fazendo, e assim eu saberei quando algo precisa ser modificado. Deste modo eu posso focar onde estou e não me preocupar com problemas em potencial, mas também estou consciente “se” e “quando” devo me fixar em algum lugar ou mudar a maneira que vivo meus relacionamentos.

Você é minimalista. Como você descreve o modo de vida e enxerga o fato de que muitas pessoas estão encontrando sentindo para suas vidas se livrando do consumismo?

Minimalismo é focar nas coisas que importam: objetos, relacionamentos, trabalho, etc. É se desapegar do que é supérfluo; se livrar das coisas que não te preenchem. Uma vez que você reconhece o que é importante, você foca e deixa pra trás o que não importa. Assim, você tem mais tempo, energia e recursos (incluindo dinheiro) para gastar com coisas importantes.

Eu acredito que chegamos a um ponto em que as consequências do excesso são evidentes para a maioria das pessoas e, como resultado disso, estamos vendo muitas soluções e potenciais soluções (das quais minimalismo é um exemplo) em deixar para trás esse modelo de consumo compulsório por outro modo de vida. Eu acho que as pessoas encontram mais contentamento quando estão focadas no que é mais importante para elas.

Ser minimalista explica, pelo menos em partes, como você mantém seu estilo de vida. Quanto de dinheiro você precisa para viver?

Eu vivo dos meus livros. Eu também dou palestras, mas meus livros são minha principal fonte de renda. Dito isto, é como você mesmo disse, não custa muito para mim viver, porque eu foco nas coisas que são realmente importantes e deixo o resto para trás. Mas o custo de vida varia dependendo de onde eu estou. De modo geral, todo o meu custo é tipicamente menor do que custava meu aluguel em Los Angeles.

Qual é o seu lugar favorito no mundo?

Eu tenho lugares favoritos para diferentes fins. Meus lugares favoritos para escrever são Reykjaviík, na Islândia, e Missoula, em Montana, nos Estados Unidos. Meu lugar favorito (até o momento) para me sentir desconfortável e aprender o máximo que posso é Calcutá, na Índia. Meu lugar favorito em relação a arquitetura é Praga. Enfim, tenho um monte de lugares favoritos.

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Péricles Carvalho

Mestre em Jornalismo, Mídia e Globalização pelas universidades de Aarhus (Dinamarca) e Swansea (Reino Unido). Escreve para libertar demônios e encontrar sentido à vida. Quer ler mais textos? Acesse: www.periclescarvalho.com.
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