the notebook

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Péricles Carvalho

Mestre em Jornalismo, Mídia e Globalização pelas universidades de Aarhus (Dinamarca) e Swansea (Reino Unido). Escreve para libertar demônios e encontrar sentido à vida. Quer ler mais textos? Acesse: www.periclescarvalho.com

Diários de um ansioso offline

No fundo, a falta do meu Mac e de um celular nos últimos dias é como a falta de um bom ansiolítico, de um instrumento de alienação, de uma droguinha qualquer. Como eu iria sair na rua e ter de encarar os olhares alheios sem poder desviá-los e focar apenas na tela retangular do smartphone? Como eu iria sobreviver sem rir, escutar meus próprios áudios e enviar GIFs enquanto assisto minhas séries na Netflix? Quando iria poder escrever um texto qualquer e problematizar nas redes sociais?


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Por uma estupidez humana, que eu esperava que mais dia ou menos dia iria acontecer, estou temporariamente sem o grande tesouro da minha vida: meu MacBook. Sem ele, confesso, minhas tardes, noites e finais de semana são tediosos, sem propósito e tristes.

Fui obrigado a tirar meu iPad da mala e utilizá-lo novamente depois de um longo tempo encostado. Aliás, dois dias antes de arruinar o computador com um copo de refrigerante, eu também havia esquecido meu celular dentro do táxi. Será isso algum tipo de punição?

Como eu iria sair na rua e ter de encarar os olhares alheios sem poder desviá-los e focar apenas na tela retangular do smartphone? Como eu iria sobreviver sem rir, escutar meus próprios áudios e enviar GIFs enquanto assisto minhas séries na Netflix? Quando iria poder escrever um texto qualquer e problematizar nas redes sociais?

Nocaute da vida adulta, não é mesmo?!

Na verdade eu estou há vários meses sem escrever um texto sequer para um projeto que jurei dedicação na virada do ano. Do que vale uma boa resolução se o ano começa me dando ré? Honestamente eu espero que estes sejam os únicos prejuízos de 2017 – e olha que ainda tenho praticamente o ano todo para fazer merda. E eu sou ótimo nisso!

...

Os momentos “parcialmente conectados” que vivi na última semana me permitiram pensar sobre a vida – o que, para pessoas estranhas e neuróticas como eu, nem sempre é um bom sinal. Eu já penso muito, morro de ansiedade e quase tenho ataques de pânico todos os dias diante das “incertezas da vida”.

Adendo: comecei o ano assim, querendo voltar no tempo e pegar minhas certezas todas de volta, construir meu castelinho de ignorância e viver feliz para sempre. Quanta incerteza, 2017!

Enquanto não tenho tenho meu computador e um smartphone decente (peguei um emprestado de um amigo por enquanto… €€) eu fico rolando na cama, analisando fatos e pensando como as coisas podem dar certo. E também como tudo têm grande probabilidade de dar errado.

“Afinal de contas, morar fora requer todos esses cálculos”, penso enquanto viro para o outro lado da cama inquieto e entediado. “É estar sozinho de verdade e saber que se você não não mover esse seu rabo de merda, nada vai, de fato acontecer. Aqui não tem a casa dos pais para se abrigar caso dê tudo errado”, e assim eu rôo mais uma unha.

No fundo, a falta do meu Mac e de um celular é como a falta de um bom ansiolítico, de um instrumento de alienação, de uma droguinha qualquer. Para mim, é como se eu tivesse perdido um filho. Quando deixei o computador internado na PC Clinic, senti uma dor enorme e pedi pelo amor de Deus para o técnico encontrar a profilaxia e tratar logo meu companheiro de jornada. Prometi nunca mais beber Coca-Cola (causa do acidente) também!

Em meio à ansiedade que me corrói eu fico a pensar o quanto nos tornamos sozinhos e o quanto o excesso de tecnologia nos afeta e nos faz chegar ao ponto em que estou enquanto escrevo este texto. Eu sonhei com o computador, sonhei em tê-lo de volta o mais rápido possível.

Eu não conseguiria me separar das minhas fotos, dos meus vídeos e textos disconexos salvos naquela caixinha metálica com uma maçã em cima. Aquele negócio contém meus últimos anos de vida, é minha caixa de sapatos com os meus registros mais honestos de viagens, pessoas e sentimentos.

É tudo tão patético e ao mesmo tempo tão real que nem sei ao certo como lidar com tamanha dependência. Seria isso para mascarar a solidão ou evitar confrontos comigo mesmo? Seria essa dependência realmente necessária ou é algo da minha cabeça apenas?

...

Há apenas um lado bom disso tudo: nada me prendia em casa. Então, anotei no moleskine o endereço de uma biblioteca pública em Lisboa e fui até lá sem rumo, apenas com as indicações anotadas. No meio do caminho, observei pela janela do metrô um lugar que nunca tinha visto antes, a arte da estação e as pessoas que entravam e saíam a todo tempo. Sem Google Maps, sem pressa.

Desci e andei pela rua e foi um pouco estranho, confesso, pois estava com a cabeça erguida. “Puxa vida, isso aqui seria um puta post no Instagram, hein?!”, pensava a cada esquina dobrada. Parei em um café e conversei com três pessoas que estavam ali.

Perguntei a alguns a localização da biblioteca. Entrei e queria muito meu celular ali. Quase tirei fotos com um smartphone imaginário (louco!). Sentei e li. Li até que me cansei e me senti orgulhoso de não ter relógio ou notificações do Tinder ou informações do clima para checar. Folheei livros e mais livros, vi mapas e fiquei passeando por ali.

Não acho que consiga viver sem tecnologia. Sou fraco e muito suscetível aos vícios da vida moderna. Preciso da minha droguinha contemporânea, do meu facebook e Instagram para dar um ar mais trivial às incertezas da vida. Eu cheguei ao ponto de assumir as banalidades. Já não me importo em ser fútil. Mas posso dizer que foi interessante estar desconectado por algum tempo, ainda que minha gastrite tenha atacado e eu tenha tomado uns 30 copos de café para passar o tempo. Veja bem: eu até consegui escrever!

Aliás, este é o texto número 1 é a expectativa é de que consiga escrever 300 sobre coisas triviais e cotidianas até o final de 2017. Será que vou conseguir quando meu computador voltar e eu tiver um novo celular e puder sair por tirando fotos de comida e lugares turísticos para postar no Instagram?

Ao menos àquela biblioteca e à sessão cartográfica medieval eu sei que voltarei. De preferencia, offline.

Obs: ainda não busquei meu computador e o conserto deve levar algum tempo. Este texto é dedicado a ele – meu grande companheiro.


Péricles Carvalho

Mestre em Jornalismo, Mídia e Globalização pelas universidades de Aarhus (Dinamarca) e Swansea (Reino Unido). Escreve para libertar demônios e encontrar sentido à vida. Quer ler mais textos? Acesse: www.periclescarvalho.com.
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