thiago de melo

"É fácil trocar as palavras, difícil é interpretar os silêncios!" (Fernando Pessoa)

Thiago de Melo

Se você também não aguenta mais tantas notícias na internet sobre desgraças sem fim, vamos fugir para uma realidade alternativa por meio das palavras. Venha "Ler pra Esquecer". Mais textos de Thiago de Melo em: http://lerpraesquecer.blogspot.com.br/

Ninguém vai salvar você

Estados não têm alma, não precisam de paz de espírito e, definitivamente, não precisam ter a consciência tranquila para dormir. Eles nunca dormem. Os únicos “instintos” inerentes ao Estado são a racionalidade e a autopreservação. Frente a essas frias características do Estado, você, a sua família ou milhares de refugiados – até mesmo criancinhas mortas na areia da praia – não têm a menor importância.


albania-1991-refugees.jpg Fuga da Albania para a Itália - 1991

Quando falamos das relações entre Estados no plano internacional, a bestialidade da morte não é trágica, não comove, não motiva nenhuma atitude por parte dos governantes. A atual crise dos refugiados da Síria é só mais um capítulo no longo livro das mortes por inércia dos Estados. A respeito da contabilização de cadáveres, Joseph Stalin já dizia: “A morte de uma pessoa é uma tragédia; a de milhões, uma estatística”.

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Enquanto ainda estão em seus países de origem, ou morrendo na tentativa de fugir de lá, aos olhos impassíveis dos Estados, milhares de refugiados não passam de números em uma tabela. Seja um garotinho, sejam centenas, não há motivação alguma para agir. Essa indiferença do Estado para com a vida humana já foi inúmeras vezes retratada no cinema. No filme Coração Valente, por exemplo, é dita a frase: “Flechas custam dinheiro, irlandeses mortos não custam nada”. Parafraseando segundo os padrões atuais: "milhares de refugiados em nosso país custam dinheiro, milhares de refugiados mortos não custam nada".

LONGSHANKS.jpg “Flechas custam dinheiro, irlandeses mortos não custam nada”.

Segundo o Realismo Político, a anarquia impera no plano internacional, ou, como descreveu Thomas Hobbes, o Estado de Natureza. No Estado de Natureza, não há limite para a atuação dos Estados. Não há uma figura supranacional capaz de limitar ou direcionar a atuação dos Estados. Não há um Leviatã internacional. Assim, as decisões dos Estados são limitadas apenas por um equilíbrio de poder invisível entre as diversas nações. Nesse contexto, o Cardeal Richelieu (o mesmo de “Os Três Mosqueteiros”) cunhou, no séc. XVII, o conceito de Razão de Estado (Raison d’État):

“(...) os interesses nacionais do Estado constituído devem ser buscados de forma racional, seguindo um cálculo de custos e benefícios, visando o incremento do poder nacional e sendo julgados a partir de critérios exclusivamente políticos(...)”.(PECEQUILO; Cristina Soreanu, 2010, p.29)

Reveja os pontos-chave: racionalidade, custos x benefícios, aumento de poder e avaliação segundo critérios exclusivamente políticos. Você consegue identificar onde entram "vidas" nessa fórmula de atuação do Estado? Não entram.

Mas o que é mesmo um Estado? Essa é fácil. Qualquer adolescente já aprendeu que os elementos que compõem um Estado são: governo soberano, território e povo. É nessa última categoria que você entra. Quer dizer, você não, o conceito abstrato de povo.

Perceba. Aos olhos do Estado, quando se trata de povo, não há individualidade, logo, não há qualquer sentimento específico por parte do Estado com relação a você. Estados não sentem nada, nem por você e nem por ninguém. O bem estar social, a segurança, tudo o que um Estado possa vir a oferecer a sua população não têm a mínima relação com gentileza ou com qualquer tipo de consideração individualista ou moral. O Estado não se importa com você. O Estado cuida do bem estar de seu povo da mesma maneira que o dono de uma granja cuida do bem estar de suas galinhas: para que elas “cumpram o seu papel” e a granja possa seguir funcionando.

O fato de os componentes do Estado serem governo, território e povo significa, em última análise, que essas são as variáveis que o estado precisa friamente administrar. Na mesma medida em que o Estado precisa defender seu território, ele deve manter o seu componente “povo” sob controle.

PRIMEIRO MINISTRO HUNGRIA.jpg Muslim Migrants Must Be Blocked ‘to Keep Europe Christian’

Então, quando o Primeiro Ministro da Hungria afirmou recentemente que não poderia permitir a entrada de mais refugiados sírios em seu país para “manter a Europa cristã” (sic), isso não estava ligado a nenhuma disputa religiosa. Absolutamente.

A verdade por trás dessa afirmação é que aquele governo soberano, que domina o território chamado de Hungria, está habituado a administrar o seu componente “povo” de uma determinada maneira. Então, inserir nesse contexto já estabilizado milhares de novas pessoas, habituadas a outras formas de administração e de pensamento, poderia abalar o status quo do Estado húngaro, e isso seria uma ameaça direta ao instinto de autopreservação estatal. Logo, precisa ser impedido a todo custo. Fazendo o mesmo paralelo anterior, nas granjas também não se pode, da noite para o dia, começar a colocar patos ou gansos para viver junto com as galinhas, seria péssimo para os negócios.

Também não foge desse raciocínio a recente decisão de alguns Estados europeus de (finalmente) receber refugiados em seus territórios. Cabe destacar, porém, que essa decisão não tem nada a ver com os refugiados em si, mas sim, tem tudo a ver com o fato de que os habitantes dos países europeus (enfim) se sentiram comovidos com alguma coisa, após a divulgação das fotos do menino sírio morto na areia da praia, e começaram a exigir atitudes por parte de seus governantes. (Revolução dos bichos?)

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Ora, a guerra na Síria já vem acontecendo há mais de quatro anos. Há menos de dois anos, o governo Sírio chegou a usar gás tóxico para matar milhares de pessoas, matando asfixiadas nesse processo centenas de crianças. Por que os Estados Unidos, a Alemanha, a Inglaterra, a França e todos os outros países não começaram a organizar a evacuação e recepção de refugiados naquela época? Provavelmente porque suas respectivas populações, à época, não se chocaram com as imagens daquelas crianças mortas, ou preferiram não se manifestar a respeito. Se o componente “povo” está sob controle, tudo está bem aos olhos do Estado, não importa quantos estejam morrendo.

SÍRIA 2013.jpg Crianças sírias mortas por ataque com gás tóxico em 2013.

Entenda. Por mais romântica que possa ser a existência de uma organização internacional que reúne os países do mundo para discutir o futuro da humanidade, não há absolutamente nada que condicione a atuação internacional de um país. Exemplifico: Uma das bases para a existência das Nações Unidas é evitar crimes que atentem contra a humanidade, como, por exemplo, o genocídio. Para tanto, foi assinada em 1948 a “Convenção para a prevenção e a repressão do crime de genocídio”. Segundo essa convenção, os Estados signatários se comprometeriam a coibir e a punir crimes de genocídio.

Pois bem. Em 1994, ao longo do curtíssimo período de 100 dias, mais de um milhão de pessoas da etnia Tutsi, habitantes do pequeno país africano de Ruanda, foram brutalmente assassinadas a golpes de facão pela maioria Hutu. Tratava-se inquestionavelmente de um genocídio. Foram mais de 10 mil assassinatos por dia, todos os dias, ao longo de mais de três meses. Isso equivale a 14 estádios do Maracanã completamente lotados com pessoas mortas. (Imagine o silêncio...) Portanto, segundo a “lei internacional”, todos os demais países estavam obrigados a intervir e a impedir esse genocídio. O mundo tinha o compromisso legal e, não menos, moral de impedir esse absurdo.

RUANDA.jpg Ruanda - 1994

Quando questionado a respeito, o Departamento de Estado norte-americano afirmou que reconhecia que “atos de genocídio” haviam sido praticados em Ruanda. Um repórter então perguntou quantos “atos de genocídio” são necessários para se caracterizar de fato um genocídio. A porta-voz do Departamento de Estado limitou-se a dizer que não estava autorizada a responder a essa pergunta. Nada foi feito. Em suma, para justificar o completo laissez-faire de um Estado, e com isso permitir um milhão de assassinatos, até desculpas semânticas são consideradas razoáveis.

“Atos de genocídio” em Ruanda.

Se você acompanhou até aqui, percebeu que o número de mortos não importa, que as idades de quem morre não importa, que a nacionalidade de quem morre não importa. A morte não importa... Não há compromisso moral de Estado nenhum para com a vida de ninguém, nem com a sua. A única coisa capaz de mover um Estado é a indignação e a manifestação aberta, clara, dura e inquestionável de sua própria população.

Ulisses Guimarães já dizia que “A única coisa que mete medo em político é o povo nas ruas”. Isso vale para reivindicar mudanças na legislação do país, mas também vale para forçar um Estado a agir diante do flagelo desumano que é a crise de refugiados. Estados não são dotados de humanidade, você é.

Salve quem você puder!

Boa sorte.


Thiago de Melo

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