thomas ferreira

Apenas pensamentos soltos à espera de uma alma que os compreenda

Thomas Ferreira

Estudante de ciências sociais, tentando compreender o mundo a minha volta.

Diferenças (ou semelhanças) entre um octógono e o Coliseu.

Resumo: Um olhar de Rubem Fonseca até Chuk Palahniuk para entender a violência humana. Qual a diferença entre um lutador de MMA e um gladiador romano? Pelo olhar do público; quase nenhuma. Lutadores, ao longo da história sempre foram considerados insanos e desajustados, porém sempre foram admirados. Tentaremos entender estas questões sobre a natureza humana através da literatura e dos dois autores citados a cima.


Para quem olhava eles pareciam loucos. Dois homens confinados em uma arena a digladiassem com os mais diversos tipos de golpes em uma intensa luta corporal até que restasse apenas um de pé. Talvez você não tenha percebido, mas eu poderia estar falando tanto de um gladiador romano, quanto de um lutador de MMA. As semelhanças entre esses dois tipos de pessoas são ainda maiores se partirmos do olhar do público. A conhecida política de “pão e circo” (panis et circenis) do Império Romano consistia em fornecer para a população entretenimento e alimento. Esse entretenimento muitas vezes era dado através das sangrentas lutas entre gladiadores. Seriam os lutadores de MMA, os gladiadores do século XXI? Para muitas pessoas sim. Além da comparação que podemos fazer entre o entretenimento que era dado ao povo no Coliseu e, hoje em dia através da televisão e internet, muitas pessoas consideram os lutadores do século XXI, assim como consideravam os gladiadores, pessoas insanas, loucas, fora do padrão.

fight.pngÉ claro que com um olhar histórico mais atento, podemos perceber que ao contrário dos lutadores de artes marciais da atualidade, que praticam um esporte, os gladiadores romanos eram escravos, não tinham escolha perante as lutas e muitas vezes eram mortos em combate. Porém, meu ponto aqui é a essência da luta, salvas as diferenças históricas. Apesar de o povo achar que lutadores profissionais são pessoas desajustadas e diferentes, suas lutas sempre foram acompanhadas com atenção. Mas como admirar alguém que se despreza? Talvez a resposta para essa pergunta esteja na natureza humana. Apesar de todas as regras e convenções sociais, nós ainda temos em nossos instintos mais primitivos o gosto pela violência, o desejo de extravasar nossa raiva, a competitividade, o egoísmo. Esse desejo reprimido explica o fascínio das pessoas tanto pelo Coliseu, quanto pelo octógono.

Esclarecemos então, a relação paradoxal de desprezo e admiração pelos lutadores ao longo da história, mas continua talvez a principal questão do texto: por quê? Por qual razão um ser humano mentalmente são escolhe, por livre e espontânea vontade se enclausurar em uma “jaula de ferro” junto de outra pessoa que certamente vai ataca-lo? Por que uma pessoa aguentaria além dos treinos extenuantes, já presentes na maioria dos esportes de alto rendimento, os inúmeros golpes, hematomas e fraturas sofridas? A resposta para tais perguntas pode estar no instinto humano relacionado à violência, mencionado anteriormente, e em um romance de um escritor norte-americano. Em seu primeiro romance, Chuck Palahniuk nos apresenta a uma fascinante história em que Jack e Tyler Durden fundam um clube onde qualquer homem, independente de sua origem ou classe social, pode entrar. O clube, situado inicialmente no porão de um bar, abriga as mais violentas lutas e os homens mais felizes e livres.

Então vamos quebrar as duas primeiras regras do Clube da Luta e falar sobre ele. Tudo começa na famosa cena em que Tyler pede a Jack que de um soco nele “o mais forte que puder”. Jack, como você pode imaginar, reluta inicialmente diante da proposta absurda. Porém, após um tempo ele aceita, dando um soco desajeitado na orelha de Tyler e os dois iniciam uma briga que iria se tornar o embrião do clube. A filosofia do Clube da Luta era simples: o resultado da luta não importava não se tratava de vencer ou perder, o que importava era como se sentia enquanto lutava. Tyler acreditava que os homens de sua geração tinham um enorme potencial, mas desperdiçavam-no “trabalhando em empregos que odeiam, para comprar porcarias que não precisam”. Aqui, a crítica de Palahniuk ao consumismo e ao American way of life é muito clara, mostrando que estamos em um mundo de aparências onde muitas pessoas desperdiçam suas vidas apenas para seguir padrões estipulados pela sociedade. Desse modo, o Clube da Luta seria um escapismo para as vidas frustradas desses homens, lá eles poderiam ser quem eles quisessem.

Uma válvula de escape. Canalizar nosso desejo de violência e nossas frustrações pessoais em uma luta para poderemos nos sentir vivos. Uma lógica que faria sentido. Existem outros exemplos na literatura que mostram como uma vida frustrada e desejos reprimidos podem ser canalizados para outro objetivo. Rubem Fonseca mostra uma válvula de escape muito mais perigosa e cruel que o romancista americano, em seu conto “Passeio Noturno”. Aqui, o protagonista também infeliz com sua vida, trabalha em um emprego que odeia e vive com uma família de completos estranhos que não sentem felicidade nenhuma em estarem juntos. O único prazer aparente do protagonista no conto de Rubem é seu carro esportivo caríssimo e o que ele faz com ele. No conto de Rubem Fonseca, o narrador anônimo nos conta que gosta de sair à noite para atropelar pessoas com seu carro de capô reforçado. Outro exemplo de como nosso desejo por violência, combinado com um modo de vida vazio, pode se manifestar.

Porém, o escapismo mostrado também no conto de Fonseca é apenas a primeira camada do romance de Palahniuk. Só isso poderia nos fazer compreender os gladiadores romanos e os lutadores da atualidade, mas existe algo a mais. Além da crítica ao modo de vida de nossa geração, Clube da Luta fala sobre dor e sacrifício. Mais precisamente, sobre o sentido da dor. Compreender tal coisa é o passo final para entender os lutadores de qualquer época. Para Tyler, a dor precisa ser sentida, não em um sentido sado masoquista, mas com o objetivo de nos tornarmos mais fortes depois de ter passado por ela. Talvez o ponto principal do Clube da Luta não seja que os homens de nossa geração estão desperdiçando suas vidas, mas que eles precisam se livrar de tudo o que é superfulo para então viverem de verdade. Precisamos desconstruir os preconceitos que temos para aprender, pois, “é apenas depois de perder tudo que somos livres para fazer qualquer coisa”.


Thomas Ferreira

Estudante de ciências sociais, tentando compreender o mundo a minha volta..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// //Thomas Ferreira
Site Meter