thyago com y

Ceticismo inveterado.

Thyago Santos

Jornalista. Entrou para a vida do crime (e castigo, muito castigo) porque gostava de escrever, mas esqueceu-se disso por um tempo. Lembrou-se agora, graças a [insira a entidade superior de sua crença]. É pseudo-nerd e poser de boas cervejas. Joga RPG nas horas pagas

Yo ya te absolví

É dito que há sempre três verdades: a minha, a sua e a verdadeira. Que esplêndido se os livros de história se apoiassem tão somente nessa terceira, não? Então, como contar uma história com fidelidade sem tê-la experienciado? Afaste por um instante tudo que lhe ensinaram sobre Fidel Castro. Dê-lhe a vez de exprimir sua perspectiva: a de quem viu, viveu e venceu a Cuba de Batista.


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Reservei um dia da minha viagem a Havana para visitar – e deixar boa parte dos meus pesos – na famosa feira de livros da Plaza de Armas. Diariamente, dezenas de cubanos montam pela manhãzinha seus estandes e passam a tarde a pitar e iluminar turistas sobre as raridades literárias ali expostas. E quando falo em “raridades”, não exagero.

A primeira edição de “Las Venas Abiertas de America Latina”. A primeira edição de “El Diario del Che en Bolivia”. Livros assinados pelos próprios Raúl e Fidel Castro. A primeira edição de “La Historia me Absolverá” (que só não foi minha por falta de recursos). Enfim, aquilo é um museu aberto. E, em geral, bastante acessível.

Contentei-me em levar uma edição de 1973 de “La Historia me Absolverá” (a primeira é de 63), cujas páginas amareladas se soltaram à primeira folheada. Sem problemas, é charme. Comprei também outros autores, entre Che, José Martí e Cirilo Villaverde, mas quero falar especialmente da obra assinada por Fidel.

As 102 páginas foram lidas com afinco em apenas 2 dias, e essa marca só não foi melhor porque meu espanhol é deveras cretino. De qualquer forma, a leitura célere não se deu por pressa, mas por prazer. Absurdamente bem escrito (sequer sabia que Fidel era escritor) e principalmente revelador, o livro me surpreendeu a cada página – que eu virava com cautela, claro.

Em linhas gerais: a obra nada mais é do que o discurso de defesa que Fidel redigiu, entre 53 e 54, ao ser condenado a 26 anos de cárcere pela ditadura Batista. Sim, mais uma novidade sobre o “Jefe”: ele é advogado. Por isso dispensou ajuda e escreveu seu próprio argumento.

Mais do que uma aula de direito penal e constitucional, Fidel esfrega, com afiada ironia, princípios morais e humanitários na cara do mais violento regime autoritário do Caribe. A situação descrita é toda tão absurda (tanto a do enjaulado quanto a de Cuba) que cheguei a espumar de raiva diversas vezes até me lembrar que tudo se passou há mais de seis décadas.

Um livro histórico e de história, que retrata um povo miserável sendo massacrado (à bala, inclusive) por um déspota da pior estirpe. Que detalha os porquês da necessidade de uma revolução armada. Que escancara as chagas e a podridão que Batista e sua cúpula tentavam esconder a preço de muito sangue. Merece ser lido e relido. E depois lido mais uma vez.

No mais, a crescente visão maniqueísta de mundo me obriga a deixar claro aqui que não, não sou “castrista”, não idolatro os irmãos Castro, Che ou Cienfuegos (assim como também não o fazem os cubanos, acredite). Mas é incontestável o bem que a revolução fez àquela ilha, que era então paupérrima, refúgio de criminosos internacionais, de prostíbulos, cassinos e latifúndios. Quem diz que Cuba é pobre hoje não faz a mínima ideia do que ela era antes de 59, do que ela era antes dos “barbudos de Sierra Maestra”. E vá por mim: esse livro pode te salvar desse tipo de constrangimento. O da ignorância.


Thyago Santos

Jornalista. Entrou para a vida do crime (e castigo, muito castigo) porque gostava de escrever, mas esqueceu-se disso por um tempo. Lembrou-se agora, graças a [insira a entidade superior de sua crença]. É pseudo-nerd e poser de boas cervejas. Joga RPG nas horas pagas.
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